Bicho-papão são eles

por Vicente Cardoso Jr. 04/04/2012 12:47

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Gaspar Oliveira, Maíra Vieira, Pedro Ivo, Foca Lisboa/divulgação
None (foto: Gaspar Oliveira, Maíra Vieira, Pedro Ivo, Foca Lisboa/divulgação)
JÚLIA DE OLIVEIRA CAMPOS, 17 anos
Natural de Paracatu (MG)
Aprovada em 12 universidades
Estuda Medicina na USP
Ensino médio no Colégio Atenas
“Lá em casa sempre foi assim: o mais importante  é estudar, meus pais sempre diziam. Tem muita gente que fala que estudante não faz nada, mas garanto que se preparar para o vestibular requer muito trabalho e responsabilidade. Teve uma época em que eu estudava 12 horas por dia”
 

 

No início de março, a paisagem diária de duas jovens mineiras mudou completamente. Júlia de Oliveira Campos e Mariana Vilas Boas saíram do interior do Minas Gerais para a maior cidade do país, São Paulo, que tem uma população mais de 50 vezes maior que as de suas cidades natais juntas (Paracatu e Pouso Alegre). O motivo da mudança foi o mesmo: ambas foram realizar o sonho de estudar medicina na Universidade de São Paulo, a USP – considerada a maior do país e que acaba de ser incluída na lista das 100 instituições de ensino superior do mundo de melhor reputação, do instituto britânico Times Higher Education. Para chegar lá, Júlia e Mariana superaram quase 14 mil candidatos no vestibular, numa concorrência de 51 estudantes por vaga.

 

Antes de deixarem famílias, amigos e as cidades onde nasceram, as duas estudantes tiveram larga opção de escolha: cada uma foi aprovada em mais de 10 universidades para o curso desejado, a maioria dentre as mais concorridas do país. Júlia nasceu e viveu, até pouco mais de um mês, em Paracatu, na região noroeste do estado, a 488 quilômetros de Belo Horizonte. Foi ali que o pai, agricultor, e a mãe, professora, constituíram a família de três filhos, sendo ela a mais velha. Como a mãe trabalhava em um colégio particular, Júlia teve bolsa de estudos na instituição assim que iniciou a vida escolar – quando a mãe deixou a escola, a estudante manteve o benefício por seu bom desempenho.

 

Em casa, o gosto pelo conhecimento foi parte natural da criação da garota. O pai, que não chegou a se graduar no ensino superior, é um “leitor como poucos”. Quem o descreve como grande exemplo para a filha é a mãe de Júlia, Keila Dias, que também reconhece no fato de ser professora outro impulsionador que reverberou na educação dos filhos. “Nós sempre entendemos que é importante prestar atenção, mas sempre os deixando independentes, para estudar e fazer o possível sozinhos”, relata a mãe.

 

A situação representa bem o que a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Maria José Braga, chama de “criação voltada para a autonomia”, fator que costuma ser fundamental para o bom desempenho e o sucesso escolar, especialmente em famílias de condições socioeconômicas menos favorecidas. “Igualmente a pais das classes média e alta, que proporcionam cursos de línguas, intercâmbio e outras experiências, nas camadas mais populares um equivalente a isso é o estímulo e a confiança da família. É uma atitude positiva os pais se fazerem presentes, acompanhando, mas ao mesmo tempo invisíveis, deixando os filhos assumirem responsabilidades e se formarem como sujeitos autônomos”, explica.

 

Prova de que correspondeu a esse incentivo é que Júlia nunca chegou a se assustar com a ideia de deixar a casa da família para morar na maior cidade do país. “Quando decidi que era isso o que queria, meus pais sempre me apoiaram, então fiquei tranquila.” Mesmo que o sonho sempre tenha sido estudar na USP, a decisão de concorrer em 14 universidades veio da insegurança que, em alguma medida, sempre assola qualquer concorrente a uma vaga para cursar medicina no país. “Dessas que tentei, achei que passaria no máximo em cinco”, revela. O resultado de tantas inscrições foi uma maratona vivida por Júlia no fim do ano passado e no ínicio deste. “De outubro até o meio de janeiro, só tive dois fins de semana livres”, diz.

 

EVERARDO SÁVIO VELOSO, 18 anos
Natural de Montes Claros (MG)
Aprovado em 5 universidades
Estuda Medicina na Funorte
Ensino médio na Cidade dos Meninos e cursinho no Pré-UFMG
“Fiz cursinho junto com o terceiro ano para me sentir mais seguro. Sempre que eu entrava em crise de que não ia passar, pegava ainda mais pesado nos estudos. O que eu talvez faria diferente seria focar mais nas matérias em que não era tão bom, porque nas outras a pontuação é mais garantida”
 

 

Sua colega na USP, Mariana Silva Vilas Boas também viveu essa dinâmica no período de provas. Nessa situação, há receita para não enlouquecer? Mariana responde: “É claro que eu enlouqueci. Chegou uma época em que eu só fazia prova e dormia!” Natural de Pouso Alegre, cidade no sul de Minas distante 370 quilômetros da capital e 180 de São Paulo, Mariana também traz em comum com Júlia o cenário de apoio familiar, colocando em patamares astronômicos o incentivo de sua mãe em relação aos estudos. “Se eu quisesse estudar qualquer coisa no universo, ela apoiaria”, ressalta. Como a escolha por medicina não era das mais simples, foi preciso determinação. No ano passado, Mariana não conseguiu aprovação em nenhuma universidade pública e não teria condições de pagar o ensino em uma instituição particular. Passado um período de desânimo, ela entrou para um curso preparatório e ampliou suas tentativas.

 

Além de provar que a obstinação é ingrediente fundamental para o sucesso, Mariana reconhece ainda que sua aprovação em 12 universidades também se deve a uma obsessão peculiar que desenvolveu no ano passado: “Eu via um vestibular e não conseguia não fazer inscrição”, revela. Quando o desejo de ser médica despertou em Mariana, a mãe Seleny da Silva foi a primeira a apoiá-la, mas também a alertar: “Eu falei: ‘Se é isso mesmo que você quer, então estuda, estuda muito!’”, relata.

 

De origem humilde, a mãe conta que Mariana é a primeira da família a obter resultado expressivo como esse, conquistando uma vaga tão disputada no ensino superior. Seleny também tinha planos de se formar na faculdade, mas teve de abandoná-los quando engravidou de Mariana.

 

Criou-a sozinha, sem nunca se arrepender dos sacrifícios necessários para colocar os estudos da filha em primeiro lugar. Segundo ela, após a realização com a aprovação sonhada, ambas estão conscientes de que o esforço está longe de terminar: “Continuo trabalhando duro, até mais, porque sei que não é fácil manter duas casas. E a Mariana também sabe que agora terá que estudar, pelo menos, duas vezes mais.”

 

Outro fator destacado por Maria José Braga para a longevidade escolar nas camadas populares é uma relação diferenciada com o futuro. “Fazem a diferença os pais que entendem isso e estimulam o filho a acreditar que as conquistas são possíveis, que não é preciso continuar na mesma situação”, ressalta. “Infelizmente, ainda é comum o desestímulo a partir do risco, da incerteza de se dará ou não dará certo. Na classe média, pelo contrário, desde cedo os pais vislumbram essa possibilidade e começam a investir”, completa a professora.

 

IARA MAGALHÃES, 19 anos
Natural de Itaúna (MG)
Aprovada em 4 universidades
Estuda Medicina Veterinária na UFV
Ensino médio na Escola Estadual Dona Judith Gonçalves
e cursinho no Anglo e no Chromos
“No meu segundo ano de cursinho, estava mais focada. Percebi que a confiança também é fundamental. Todo mundo fica ansioso sobre como vai ser a prova, mas ela é a mesma para todos; a diferença está na preparação”
 

 

Everardo Sávio Veloso saiu de casa ainda mais novo que Júlia e Mariana para investir nos estudos. Deixou Montes Claros, no norte de Minas, onde vivia com a família, para estudar em Ribeirão das Neves, na grande BH, durante o ensino médio, morando com uma tia. Estudou por três anos em uma escola estadual da cidade, que ele e a família consideraram uma melhor opção que as de sua cidade natal. Além da melhor qualidade de ensino buscada, Everardo destaca outras vantagens de ter tomado a decisão: “Só mudar de cidade já trouxe novas responsabilidades e um amadurecimento que me ajudou nos estudos. Além disso, eu estava mais perto da UFMG e a ideia me pareceu algo mais real, mais ao meu alcance”, diz.

 

Quando estava no terceiro ano do ensino médio, Everardo decidiu estudar também, paralelamente, em um pré-vestibular. O ano completamente dedicado aos estudos foi recompensado com cinco aprovações. No entanto, a escolha do curso ficou para depois. Indeciso na hora das inscrições, o estudante foi aprovado em medicina na Funorte e na UFRGS, em Farmácia na UFMG, em Enfermagem na Unimontes e em Engenharia Química na UFU. Ficou com a opção de retornar à casa dos pais e seguir a carreira que concluiu ser a que mais desejava. Em março, começou a estudar medicina na Funorte, onde foi aprovado em primeiro lugar e é bolsista do Prouni.

 

Se há inúmeros casos de quem persiste tentando vestibular para o mesmo curso durante anos, a indecisão até os últimos momentos, como a de Everardo, também é bastante comum. Segundo a psicóloga Mariza Tavares, professora de orientação vocacional da PUC Minas, muitas vezes os jovens compram ideias prontas das profissões para escapar de uma decisão mais embasada, o que acaba estando por trás de grande parte das desistências no ensino superior. “Um bom exemplo são os egressos de direito, dentre os quais 10% vão advogar, número muito abaixo do esperado para essa formação”, afirma.

 

MARIANA SILVA VILAS BOAS, 19 anos
Natural de Pouso Alegre (MG)
Aprovada em 12 universidades
Estuda Medicina na USP
Ensino médio e cursinho no Colégio Bandeirantes
“Tentei várias universidades, mas acho importante ter uma meta, aquele lugar que você idealiza e coloca como objetivo principal. A USP era minha primeira opção, pela proximidade da minha cidade e por ser uma referência. Então, não tive dúvidas na hora de escolher”
 

 

Para não correr o risco de inadequação ao curso ou à profissão, Mariza recomenda trocar um pouco as matérias do vestibular por uma pesquisa de outra ordem: “É preciso conhecer o curso, as universidades que deseja tentar, as oportunidades durante a vida acadêmica, o mercado de trabalho... Sem esse conhecimento, as chances de desistência se tornam muito maiores”, ressalta.

 

Decidida sobre a profissão que iria seguir desde muito nova, Iara Magalhães não teve dúvidas em nenhum dos vestibulares que prestou nos últimos três anos: marcou sempre medicina veterinária. Como estudou em escola pública por toda a educação básica, em Itaúna, a 80 quilômetros de Belo Horizonte, Iara confessa que a expectativa para o vestibular no primeiro ano em que concorreu não era das maiores. Nos dois anos seguintes, matriculou-se em cursinhos em BH, para onde se mudou, mas admite que apenas no último a entrega à empreitada foi completa. “Quando eu realmente foquei, decidi abrir mão de certas coisas e me concentrar mais, senti que ia passar. E passei”, conta, satisfeita. Aprovada em quatro universidades, Iara ficou em dúvida entre a UFMG e a Universidade Federal de Viçosa (UFV), mas optou pela última ao pesquisar mais sobre o curso e as oportunidades de cada uma. “Os dois são cursos renomados, mas, comparando, descobri maior facilidade de estágios e achei que teria maior afinidade com a UFV”, explica.

 

Foi também pelo renome que Gustavo Henrique Guimarães escolheu as universidades em que prestou vestibular. Aprovado em Engenharia Química na USP, Unicamp, UFRJ e UFMG – da qual foi primeiro lugar geral –, ele só buscou mais informações sobre os cursos em cada instituição quando foi aprovado nas primeiras etapas. Maior enfoque acadêmico de um lado, maior escola de engenharia da América Latina do outro, instalações e laboratórios modernos de cá. Colocando cada peso na balança, Gustavo viu que tinha quatro excelentes alternativas em mãos. Optou por continuar morando em Belo Horizonte e hoje é aluno da UFMG.

 

A escolha do curso também teve ponderações semelhantes. “Eu gostava de Exatas, então fui olhando as diferentes engenharias. Ao mesmo tempo, não queria algo que tivesse muito desenho e gostava de atividades de laboratório. Um pouco por afinidade, um pouco por exclusão, cheguei à Engenharia Química”, conta Gustavo, que se recorda do primeiro dia em que a ficha do vestibular caiu para ele. Ainda no primeiro ano do ensino médio – que cursou em colégio particular de Belo Horizonte –, lembra-se de uma das primeiras aulas de Física, em que o professor comentou: “Vou fazer desse jeito porque é assim que a banca do vestibular vai cobrar.” Então Gustavo refletiu, pela primeira vez, sobre a centralidade que a prova assumiria em sua vida por pelo menos três anos. Mesmo assim, relata que não deixou os estudos dominarem sua vida – o videogame, por exemplo, continuou sendo um companheiro fiel nesse período de preparação.

 

GUSTAVO HENRIQUE GUIMARÃES, 18 anos
Natural de Belo Horizonte (MG)
Aprovado em 4 universidades
Estuda Engenharia Química na UFMG
Ensino Médio no Colégio Bernoulli
“O principal, para mim, está na sala de aula. O professor conhece os caminhos, a matéria entra mais fácil na cabeça. Claro que o estudante pode aprender sozinho, muita gente consegue assim, mas se desperdiçar o momento de aprendizado em sala, fica muito mais difícil”
 

 

Mas a imagem folclórica do vestibulando não combina com o sossego que Gustavo transmite. Segundo a psicóloga Mariza Tavares, o caráter aterrorizante que o vestibular assume para muitos dos candidatos reflete o discurso emitido por grande parte das instituições de ensino. “Muitos colégios colocam de forma muito pesada, sugerindo inclusive que o vestibular deve implicar a anulação de outras atividades”, alerta. Para ela, a ideia de concorrência pode, sim, ser fator de estímulo, mas o exagero pode levar à ansiedade além da conta e atrapalhar a dosagem entre o estudo e outras atividades.

 

A lógica de mercado que se estabeleceu no vestibular nas últimas décadas faz a prova parecer, já há muito tempo, um “bicho-papão”. Júlia de Oliveira Campos tirou essa etapa da vida escolar de letra, mas sabe que nem todos tiveram as mesmas condições e a preparação que ela. Por isso, em seus primeiros dias na USP, se inscreveu como voluntária em um projeto organizado por estudantes da Faculdade de Medicina. Mesmo com a carga horária de aulas e volume de conteúdos apertados, vai dedicar um pouco de seu tempo ao MedEnsina, curso pré-vestibular comunitário voltado para estudantes que não têm condições de pagar por esse serviço nas instituições privadas. “Talvez não se compare à oportunidade que eu tive, mas já é uma forma de ajudar as pessoas que têm interesse, determinação, mas não tiveram e não têm material, infraestrutura, ensino de qualidade”, avalia. “Parece pouco o que posso fazer, mas muitas vezes também é pouco o que falta para essas pessoas chegarem lá”, completa a jovem.

 

PROCESSO UNIFICADO MULTIPLICA RECORDES

 

Recordistas de aprovação no vestibular não são uma novidade, mas, sem dúvida, passaram a ser mais recorrentes e com resultados mais expressivos nos dois últimos anos, quando várias universidades públicas passaram a adotar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em sua seleção. O processo seletivo unificado estimula o estudante a concorrer em várias universidades pela redução de gastos com inscrições e deslocamentos e menor coincidência de datas de concursos distintos.

 

Para Cláudio de Moura Castro, especialista em educação e articulista de Encontro, a unificação promove o que chama de “justiça geográfica”. “O estudante se estimula a tentar universidades mais distantes, onde anteriormente não se candidataria, e pode alcançar melhor resultado do que quem mora perto. Aumentou a eficiência do sistema nesse sentido”, avalia.

 

A unificação da seleção vem ocorrendo de forma gradual. Muitas universidades já aderiram ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que tem o Enem como prova única. Outras utilizam a prova do Ministério da Educação (MEC) como parte de seu vestibular. A UFMG, por exemplo, substituiu a primeira etapa de sua seleção pela nota do Enem já nos dois últimos vestibulares.

 

Segundo a pró-reitora de Graduação da Federal, Antônia Vitória Aranha, o isolamento dos processos seletivos no ensino superior brasileiro representava um atraso, que vem sendo vencido agora. “A padronização e a unificação representam um avanço para a melhor definição das competências que se pretende formar no ensino médio”, explica.

 

Segundo Antônia Aranha, a parceria entre as instituições de ensino superior e o MEC tem se estreitado, o que proporciona maior fôlego para a alimentação do banco de itens e o aproveitamento da experiência dos órgãos competentes para aplicação de provas de cada universidade. “Em termos de segurança e logística, a maior participação das universidades tem muito a oferecer, pela larga experiência”, avalia a pró-reitora da UFMG.

 

A nova realidade da seleção unificada no ensino superior brasileiro coloca, ainda, novas demandas e configurações que as universidades começam a absorver. Como o número de estudantes aprovados em dois ou mais vestibulares cresceu, cresceram também as chamadas de candidatos excedentes, o que exige maior agilidade no processo. Outro efeito foi o aumento da concorrência dos cursos que já eram os mais disputados. O número de candidatos por vaga para Medicina na UFMG, por exemplo, saltou da faixa de 30 para 50 após a adoção do Enem.

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