Geração skate 2.0

por Raíssa Pena 09/04/2012 08:03

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Geraldo Goulart e Maíra Vieira
Gustavo de Castro, Luís Henrique Torres, o professor Luizinho, Gabriel Pimentel e Guilherme Alongi (foto: Geraldo Goulart e Maíra Vieira)

Bochechas vermelhas, gotas de suor pelo rosto, mãos sujas e alguma espécie de machucado. É assim que jovens skatistas chegam em casa há pelo menos três gerações. Os equipamentos, as bermudas e os tênis mudaram, mas o espírito radical perdura. Ladeiras, rampas, barras de ferro e a possibilidade de se machucar em todas elas não intimidam quem curte skate. Tomás Piuzana tem 11 anos e essa é sua nova paixão. Sempre muito dedicado à prática de esportes, ele trocou as aulas de judô por capacete, cotoveleiras e um belo skate. “Ele já era faixa laranja, quando resolveu sair. Eu fiquei um pouco apreensiva e insisti para ele não deixar o judô, mas ele é um menino muito centrado, dedicado, e esporte é sempre muito saudável. Resolvi apoiar o novo hobby dele”, revela a mãe, Regina Piuzana. Ela conta ainda que Tomás tem andado tão empolgado, que brinca com seu skate-finger (skate de dedo) na pia do banheiro, nas paredes e pela casa afora. A mesma empolgação tem Bruno González, o mais novinho da turma, que, aos 6 já aprende as primeiras manobras radicais, mesmo precisando ainda da ajuda do professor Luizinho para descer a rampa.

 

Bernardo Basques, seis anos: "Aprendi a tirar o skate do chão"
 

 

Também mãe de um pequeno skatista, Keila Braga descreve bem a paixão do filho, Guilherme Alongi, de 7 anos. “Nenhuma atividade estava mais consumindo a energia do Guilherme. Do futebol ele chegava suado. Mas do skate, ele chega pingando! E os tênis? É questão de 30 dias para um par se esgotar”, conta. Uma das vantagens do esporte, segundo Keila, é o fato de a prática diminuir o tempo do filho na frente da televisão e do computador.

 

Tomás Piuzana coma mãe, Regina: "Ele já era faixa laranja no judô, quando
optou pelo skate", diz ela
 

 

Aline Dias, professora de educação física e mestre em lazer, concorda: “Se é skate, basquete ou natação, não importa. Fundamental é que seja um esporte com o qual a criança se identifique, sinta prazer, e que seja significativo para ela”. A profissional lembra que é cientificamente comprovado que a prática regular de esportes pode auxiliar no desenvolvimento cognitivo das crianças, na percepção sensorial e psicomotora, além de possibilitar momentos de maior interação social, aprendizagem de princípios e valores. “O esporte, inclusive, pode se tornar um importante aliado dos pais no combate à obesidade infantil e ao sedentarismo”, completa Aline Dias.

 

Como quase todo esporte, o skate tem seu próprio universo. As bermudonas de cor escura, camisetas que parecem um número maior que o necessário, tênis pesadões (que assustam as mães, mas facilitam a aderência à prancha), e um vocabulário bem peculiar. Ollie, goofy, board e fakie são termos que você precisa aprender para entender o skate. Para isso, basta assistir a um episódio de Zeke & Luther. Transmitido por um canal pago, a série de TV é a mais nova febre entre a garotada e mostra a rotina e as aventuras de dois skatistas adolescentes.

 

 

 

Bernardo Basques tem apenas 6 anos e muita disposição. Ele também é fã de Zeke & Luther, e aproveita os episódios para tentar aprender as manobras realizadas pelos personagens: “Eu ainda não sei fazer muitas manobras, mas meu primo já me ensinou a tirar o skate do chão”, diz. Aos 12 anos, Guilherme Lyra já faz manobras de gente grande. Ele conta que seu pai, o presidente da Mannesmann, Alexandre Lyra, costumava ir para a universidade, na Alemanha, de bicicleta. “Eu também pretendo estudar fora, mas quero ir para a minha faculdade de skate”, planeja Guilherme.

 

Muitos meninos praticam em casa ou no playground dos prédios durante a semana. Mas aos sábados e domingos, as opções são mais legais. Belo Horizonte tem redutos antigos de skate, arranhados por gerações de rodinhas, como o bowl do Anchieta e o do Nova Floresta. Desde 2009, o Parque das Mangabeiras abriga uma das maiores pistas do estado. Um belo-horizontino ilustre, hoje um skatista quarentão, curtiu o novo espaço. John Ulhoa, do Pato Fu, conta: “Vou à pista do Parque das Mangabeiras de seis em seis meses, e volto todo quebrado. Encontro meus amigos da antiga por lá, e vejo a molecada nova andando também. É uma pista muito bem feita, do tipo que sempre quis que tivesse em BH. Só apareceu depois que parei... então voltei!”.

 

Guilherme Lyra já faz manobras de gente grande: "Quero ir para a faculdade de skate"
 

 

Outro veterano é o proprietário da Blunt Skate Park, Maurício Massote. Ele começou aos 5 anos, em 1983, e fala com orgulho sobre a evolução tecnológica do esporte. Para ele, os equipamentos de segurança melhoraram bastante desde sua geração: “As joelheiras, cotoveleiras, capacetes ficaram menores e mais eficientes”. 

 

 
Jefferson Bill, de 22 anos, na praça da Estação, em BH: mais nova promessa
das pistas mineiras
 
Para gente grande
 

É diversão para os pequenos, mas para os mais crescidinhos já virou profissão. E com carteira assinada! O belo-horizontino Jarbas Alves, “Jay Alves” para os conhecedores, é skatista profissional patrocinado pela Converse. Ele começou arriscar as primeiras manobras aos 14 anos e hoje, aos 26, é atleta conhecido internacionalmente.

 

Quem também está trilhando esse caminho é o jovem Jefferson Bill. Aos 22 anos, Bill está a um passo de se tornar profissional. “Já participei e ganhei vários campeonatos, viajei para Barcelona, Praga, Roma, e devo assinar contrato em breve”, diz. Jefferson, que conta ter sido bastante influenciado pelo pai, o respeitado skatista Alexandre Dota.

 

Bill e Jay Alves já participaram de um dos eventos de skate mais populares de Belo Horizonte, o “Família de Rua Game of Skate”.  O grupo Família de Rua é responsável também pelo Duelo de MCs, batalha musical que acontece debaixo do Viaduto Santa Tereza desde 2007. O evento musical ganhou repercussão na cidade, na imprensa, e hoje atrai cerca de 500 amantes e simpatizantes do hip-hop todas as sextas-feiras.

 

Em 2008, o grupo deu início ao Game of Skate, que acontece todo segundo domingo do mês no mesmo local. O game consiste em uma competição animadíssima entre skatistas amadores e profissionais de todas as idades. A prova é conhecida mundialmente e funciona mais ou menos assim: cada competidor realiza uma manobra e desafia o próximo a imitá-la. Se este não conseguir fazer igual, ganha na pontuação a letra “S” de “skate”. Se errar outra vez, acumula a letra “K”, e por aí vai. Quem completar a palavra primeiro, perde.

 

“Tem uma molecada que vem de skate na mão, faz a inscrição na hora e manda muito bem no game”, conta Leonardo Cezário, um dos coordenadores do evento. O clima é de descontração e alegria. Candidatos e espectadores observam com atenção o desempenho dos colegas, aplaudem as manobras e se empolgam a cada ponto conquistado (ou perdido). Como dizem os meninos do Família de Rua: “Leve seu pai, leve seu filho. É só chegar!”.

 

 

E é isso mesmo. Os modelos e tecidos tecnológicos são hoje mais adequados para amenizar, por exemplo, o suor excessivo dos atletas. As opções de tamanhos, material, especificações e modelos de skate são infinitas. Tem equipamento para todas idades, categorias e bolsos. O preço de um skate profissional varia de R$ 350 a R$ 1.200. “Menos do que isso não é skate, é brinquedo”, diz Massote. Ele explica que preços inferiores geralmente significam materiais e acabamento de baixa qualidade, o que prejudica a performance do skate nas pistas e diminui sua vida útil.

 

A trigêmea radical Caroline Gonçalves, de 8 anos: ela é uma das poucas
meninas em um universo ainda muito masculino
 

 

Quanto à prática do esporte pelas meninas, Massote explica que houve um avanço importante, mas que o percentual de garotas em cima do skate ainda não é tão significativo. “O Brasil tem grandes skatistas profissionais que são mulheres, como a Letícia Bufoni. Mas isso não reflete uma porcentagem relevante no total de praticantes do esporte. Atualmente, por exemplo, apenas cerca de 10% dos alunos da Blunt são meninas”, conta. Caso de Caroline Gonçalves, de 8 anos. Ela faz aulas na Blunt há pouco mais de um mês e diz que adora. “Eu comecei por causa do meu irmão e ainda estou aprendendo a descer as rampas”, conta Caroline, a mais radical entre os trigêmeos Rodrigo e Isabele Gonçalves. Só falta convencer Isabele a entrar para o time da família.
Para John, do Pato Fu, o legal do skate é que não importa muito essa história de amadores e profissionais, menino ou menina. “Andamos juntos e todo mundo se diverte em qualquer nível”.

 

 

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