Enfim, um museu tradicional

por Marcelo Fiuza 09/04/2012 14:37

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Júnia Garrido
Fachada do Centro de Arte Popular: casarão onde funcionava o Hospital São Tarcísio (foto: Júnia Garrido)

Por definição, o artista popular não tem um gueto ou lugar específico – atemporal, ele pode ser encontrado na sociedade como um todo. Em contraposição ao conceito de erudição, a arte popular é aquela dos mestres sem formação acadêmica, mas que produzem obras de reconhecido valor estético. Associada às raízes da consciência coletiva, ela se revela nos saberes e nos fazeres, nas festas profanas e nas religiosas, nas bricolagens e nos objetos utilitários.

 

Agora, porém, toda essa diversidade ganhou um endereço certo: o Centro de Arte Popular Cemig (CAP), que abriu as portas em março, na capital mineira, como o mais novo equipamento do Circuito Cultural Praça da Liberdade. Com um acervo de mais de 800 peças, a instituição é a primeira a reunir, com fôlego e abrangência, as diferentes expressões de arte criadas pelo homem, ao longo do tempo, em Minas Gerais. Isso inclui obras de várias regiões do estado, entre esculturas, cerâmicas, instalações, peças sacras e pinturas assinadas por artistas de projeção internacional, como Noemisa, GTO, Artur Pereira e Lorenzatto.

 

O local escolhido para abrigar o centro é o antigo Hospital São Tarcísio, na rua Gonçalves Dias com avenida Bias Fortes, construção em estilo eclético projetada pelo arquiteto Luiz Signorelli, em 1928, inicialmente para uso residencial. Coube aos arquitetos Janete Ferreira da Costa e Acácio Gil Borsoy o novo projeto, que manteve a fachada original, mas remodelou os quatro pavimentos do interior com ateliês para oficinas, salas de exposições, auditório, cafeteria, loja e biblioteca.

 

O Centro de Arte Popular abre as portas com a exposição Atos de Fé: obras

inéditas da coleção Maria Zahle Penna reúne oratórios, santos e ex-votos feitos

entre os séculos XVII e XIX, e até raridade do século XVIII

 

 

O investimento foi de R$ 7 milhões, financiados pela Cemig e pelo governo estadual, que mantém a instituição sob administração da Superintendência de Museus e Artes Visuais, vinculada à Secretaria de Estado de Cultura. Resultado de uma política pública que visa a completar uma lacuna no ambicioso projeto do Circuito Cultural Praça da Liberdade, como destaca a secretária de Estado da Cultura, Eliane Parreiras: “Há muito tempo o governo tinha a preocupação de destacar e difundir a arte popular em Minas Gerais, que é reconhecida pela sua riqueza em todas as vertentes. Temos no estado técnicas muito variadas e processos tradicionais de produção que devem ser valorizados”, diz a secretária.

 

“A proposta é a de ser um centro de referência da arte, ou seja, além de ser um espaço que oferece exposições ricas para população, com grande acervo permanente focado no artista mineiro, o CAP vai promover um diálogo permanente, vivo e dinâmico, com os movimentos populares e com outras instituições”, promete Eliane Parreiras.

 

Diferentemente de outros museus recém-inaugurados no CCPL e que se destacam pelo uso da tecnologia e interatividade, do ponto de vista museográfico, o CAP aposta na contemplação da obra de arte. A curadoria é do antropólogo Ricardo Lima, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisador do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. “O Centro de Arte Popular se sustenta em dois pilares, o da temporalidade e o da espacialidade”, explica o superintendente de Museus e Artes Visuais de Minas Gerais, Léo Bahia.

 

“Na temporalidade, temos desde as pinturas rupestres do Vale do Peruaçu, que são as primeiras manifestações populares, até os grafismos urbanos contemporâneos. Na espacialidade, reunimos o que há de mais representativo em cada região de Minas, com mais de 50 artistas e 500 obras em exposição”, completa Bahia, sobre o acervo composto por doações, empréstimos e, em boa parte, por obras pertencentes ao próprio governo e guardadas até então em repartições e autarquias.

 

Segundo ele, a exposição permanente foi dividida em quatro temas. O primeiro módulo contempla as artes primárias e o realismo fantástico, com representações de pinturas rupestres e cerâmica Saramenha, por exemplo. Outra sala é dedicada à cantaria e à religiosidade, com obras esculpidas em pedra , ex-votos, oratórios e imagens de santos. O terceiro espaço traz os grandes mestres, como GTO e Artur Pereira. Por fim, a quarta sala aborda a “arte de morar”, como diz o superintendente, referindo-se aos objetos utilitários, quadros decorativos, tecelagens e paramentos para festejos ali reunidos.

 

Léo Bahia, superintendente de Museus de MG: "Reunimos o que há de mais

representativo em cada região de Minas, com mais de 50 artistas e 500

obras em exposição”

 

 

Além de programar para breve a realização de intercâmbios e oficinas com mestres de diversas técnicas, o CAP tem como proposta a realização de exposições temporárias de coleções especiais. A primeira delas é a mostra Atos de Fé, da colecionadora Maria Zahle Penna, de Tiradentes, que apresenta pela primeira vez seus oratórios, santos e ex-votos feitos entre os séculos XVII e XIX. Dentre as 45 obras expostas, há uma raridade: um oratório de inspiração africana, do século XVIII, produzido por escravos e com peças do Mestre Borboleta.

 

Já aberta ao público e com entrada franca, a mostra Atos de Fé fica em exposição durante o primeiro semestre deste ano. Em junho, deve ser substituída por outra, com peças da coleção particular de arte popular de Priscila Freire. “As bonecas de cerâmicas de Dona Izabel que a Priscila tem são fabulosas”, afirma Bahia, que promete uma terceira exposição, ainda em 2012, com objetos da coleção de Ângela Gutierrez.

 

 
 

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