Ela nasceu e viveu para cantar

por João Paulo Martins 10/04/2012 08:10

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Cláudio Cunha/Reprodução, Cláudio Cunha, Washington Possato, Maíra Vieira, Divulgação
Clara Nunes foi a primeira cantora brasileira a vender mais de 150 mil discos (foto: Cláudio Cunha/Reprodução, Cláudio Cunha, Washington Possato, Maíra Vieira, Divulgação)

“Filha de Angola, de ketu e nagô, não sou de brincadeira”. Assim Clara Nunes, a cidadã mais ilustre de Caetanópolis, pequena cidade da zona metalúrgica de Minas Gerais, é descrita na música Guerreira, composta por João Nogueira. Alguns versos depois, ficamos sabendo que ela é “filha de Ogum com Iansã”, ou seja, é protegida por esses orixás, que equivalem a São Jorge e Santa Bárbara, respectivamente, no sincretismo com a igreja católica. O candomblé, de origem ketu, virou sua marca, principalmente nas roupas que usava, e combinou perfeitamente com o ritmo que a consagrou: o samba. Neste ano, em comemoração aos 70 anos de nascimento de Clara, ela ganhará um memorial em sua cidade natal e sua obra será lembrada na TV, em documentário do Canal Brasil, e sua discografia completa, com 16 discos, será reeditada.

 

No dia 12 de agosto de 1942 nascia Clara Francisca Gonçalves, no pequeno distrito de Cedro, que mais tarde viria a ser a cidade de Caetanópolis, a 96 km de Belo Horizonte. Sua infância simples não impediu que o sonho de ser artista se tornasse realidade. Criada pelos irmãos mais velhos, Maria Gonçalves, conhecida como dona Mariquita, e José Gonçalves, Clara sempre gostou de cantar, inspirada principalmente pelas grandes cantoras de rádio da época, como Elizeth Cardoso e Dalva de Oliveira. Mas a música também estava em seu DNA, já que o pai, Manoel Pereira de Araújo, o Mané Serrador, além de funcionário da fábrica de tecidos da cidade, era um violeiro em folias de rei.

 

“A gente dizia que Clara já nasceu cantando. Com 4 anos, ela cantava na escola e em casa de parentes. Lembro que todos comentavam como ela não errava o ritmo”, conta dona Mariquita, irmã mais velha da artista e também sua mãe de criação. Aos12 anos, Clara ganhou seu primeiro concurso de música, realizado no prédio que abrigara o cinema da cidade, cantando o bolero paraguaio Recuerdos de Ypacaraí. Como prêmio, ganhou um vestido azul-claro, o que para uma menina pobre significava muito.

 

Hoje, o lugar de seu primeiro passo para o sucesso abriga um centro de cultura que leva seu nome e oferece diversas atividades para a comunidade, incluindo dança, canto e teatro. A parede é repleta de imagens da cantora mineira, e, como lembrança, foi construído um palco igual ao que ela se apresentou. “A criação da casa de cultura é válida porque foi nesse lugar que ela mostrou que nasceu para cantar”, diz dona Mariquita.

 

Além da música, a menina pobre que sonhava cantar para as multidões era apaixonada por bonecas. Como sua família não tinha condição de comprar as que estavam na moda, a avó fazia versões de pano, que eram muito bem tratadas pela pequena Clara. A coleção cresceu com o tempo, e mesmo com a carreira já consolidada, ela não deixava de dormir cercada de suas lembranças da infância. Um dia, porém, tomou uma iniciativa nobre: doou todas as bonecas para um orfanato da cidade do Rio de Janeiro. “Ela só ficou com uma boneca preta, que guardo até hoje”, lembra a irmã.

 

Dona Mariquita em frente à casa onde a família viveu, em Caetanópolis, e onde

exerceu o papel de mãe para seus irmãos, incluindo a caçula Clara Nunes:

"Ela já nasceu cantando"

 

 

As crianças também estavam nos planos de Clara Nunes. Ela sempre quis ser mãe, mas problemas no útero impediram que realizasse esse sonho. No entanto, ela confidenciou à irmã, no Natal de 1982, pouco antes de sua morte, que queria acabar sua carreira tomando conta de uma creche. Mariquita guardou, então, essa confidência na memória, e quatro anos depois inaugurou o espaço, que comporta 60 crianças, em Caetanópolis. Claro que o nome dado ao lugar não poderia ser outro, senão o da cantora.

 

“Eu conheci Clara quando tinha 14 anos; ela se apresentava na Rádio Inconfidência e ganhou o concurso Voz de Ouro ABC”, conta o radialista Acir Antão. Pouco tempo depois, ele também passou a trabalhar como locutor e se tornou amigo da cantora. O laço que os aproximou não seria outro, senão o samba: “Eu já estava engajado em tocar sambas, no início dos anos 1970. E quando ela cantou Você Passa, Eu Acho Graça, de Ataulfo Alves, foi um grande sucesso. A partir daí nos tornamos amigos, e quando vinha a BH, ela sempre participava de meu programa”.

 

A capital mineira foi o marco para que a carreira de Clara Nunes decolasse. Participou de diversos concursos, e quando trabalhava para a Inconfidência, levada por um dos principais locutores da época em Belo Horizonte, Aldair Pinto, mudou o sobrenome Gonçalves para o que conhecemos hoje. Além disso, foi cantando nessa rádio que ela conheceu e se engraçou com Aurino Araújo, irmão de Eduardo Araújo, um dos grandes nomes da Jovem Guarda. Como nessa época os grandes cantores só emplacavam quando se exibiam no eixo Rio-São Paulo, Clara foi levada por Aurino para a terra de Vinícius de Moraes.

 

Como a sorte caminhava a seu lado, em um concurso levou como prêmio um contrato com a gravadora EMI-Odeon, e este foi o impulso que faltava para seu sucesso nacional e internacional. “Hoje, não temos quase nada interessante sendo lançado na música brasileira. Antigamente, uma gravadora lançava não apenas um artista, mas uma leva deles de uma só vez. Por exemplo, quando saía um disco de Clara Nunes, tínhamos também o de Roberto Ribeiro, Paulinho da Viola e Gonzaguinha”, explica Acir Antão.

 

A menina de Caetanópolis, órfã aos 6 anos, trilhava agora um caminho que não teria mais retorno, ou seja, o da fama. A vida proporcionava encontros e desencontros, que ajudaram a formar sua carreira. “Quando Clara veio ao Rio para participar de um festival de música da TV Record, ainda era desconhecida, e a gente se olhou, gostou um do outro e começamos a ter um affair”, revela o cantor Jair Rodrigues. Nessa época, ele fazia shows acompanhado do grupo Originais do Samba, e, quando foram excursionar pela América Latina, aproveitou para levar a cantora mineira junto.
Naquela época, Clara apresentava músicas românticas, principalmente boleros, e segundo Jair Rodrigues, foi numa apresentação no Uruguai que ele a chamou de lado e falou: “Escuta bem, o dono do restaurante pediu que você cantasse samba”. Ela disse que gostava do ritmo, mas não sabia cantar. “Chamei o grupo num salão e passei para ela músicas, como Mas que Nada e Amélia. Para finalizar a história, arrasamos juntos, Jair, Originais e Clara Nunes”, completa o cantor.

 

Romário Ferreira, prefeito de Caetanópolis, diante do Teatro Clara Nunes:

"Nossa maior conterrânea foi o caminho para mudar o rumo da cidade,

por meio do turismo cultural”

 

 

Pouca gente sabe dessa história, pois o que ficou na lembrança foi a mudança na carreira da cantora mineira depois que passou a gravar samba. Até 1969, seus discos com músicas românticas fracassavam nas lojas. Em 1971, com o lançamento do LP Clara Nunes, da EMI-Odeon, bateu um recorde para a época: vendeu mais de 150 mil cópias. “Havia uma lenda de que mulher não vendia disco, muito menos ultrapassar a vendagem de cantores como Roberto Carlos. Mas Clara foi a pioneira”, explica o radialista Tutti Maravilha. Seu primeiro contato com a mineira que cantava samba foi a partir do musical Brasileiro: Profissão Esperança. Ele trabalhava na produção, junto da grande cantora Bibi Ferreira. No palco, Clara Nunes, vivendo uma de suas divas, Dolores Duran, dividia as cenas com o grande ator Paulo Gracindo. “Ela era muito simples, não tinha estrelismo nenhum”, lembra Tutti, elogiando um dos principais traços que a cantora nunca perdeu em sua carreira: a simplicidade. Para o radialista, ela faz muita falta para a música brasileira, por ter sido uma cantora única, com timbre e capacidade vocal imbatíveis até hoje.

 

Entre os principais sucessos entoados por Clara Nunes, destaque para Conto de Areia, Feira de Mangaio, Morena de Angola, Canto das Três Raças e Portela na Avenida. Esta última, aliás, é o maior símbolo da paixão da cantora com a escola de samba carioca, que, no carnaval de 2012, levou para a avenida uma homenagem aos 70 anos da “mineira guerreira”. A letra de Portela na Avenida, uma exaltação à escola azul-e-branco de Madureira, é de autoria do compositor Paulo César Pinheiro, que, além de ser responsável pelos sucessos de Clara, acabou se tornando seu marido.

 

“Éramos duas pessoas fazendo música. Nosso trabalho não tinha a ver com nosso relacionamento. Eu sempre entregava as músicas que ela gostava”, conta Paulo César Pinheiro, que também é músico e poeta. A parceria rendeu nada menos que 30 composições. Para ele, a mineira ficou marcada pelo simbolismo do candomblé, em especial por suas roupas brancas e balangandãs, e é a cantora que melhor representa a religião afrobrasileira. “A música O Canto das Três Raças eu fiz para mostrar a formação do povo brasileiro, ou seja, a mistura de índio, negro e europeu”, explica Paulo César.

 

Com uma obra tão singular, a grande cantora mineira não poderia ter seu aniversário esquecido. Em sua terra natal, Caetanópolis, em agosto, durante o Festival Clara Nunes, evento que acontece há sete anos, será inaugurado um memorial, espécie de museu, onde o público poderá conhecer suas roupas, acessórios, prêmios, fotos e objetos religiosos. “Procuramos trazer artistas que têm a ver com ela”, explica o prefeito Romário Vicente Ferreira. Ele conta que a primeira edição do festival, em 2006, não contou nem com 500 pessoas, mas foi o ponto de partida para mostrar à cidade a importância da conterrânea famosa.

 

O radialista Acir Antão e Clara Nunes tinham como elo o samba:

“Quando ela cantou Você Passa, Eu Acho Graça, de Ataulfo Alves,

foi um grande sucesso”

 

 

Após palestras e oficinas sobre Clara, a população começou a reconhecer sua relevância, e, na quarta edição, com o show da Velha Guarda da Portela, o festival se consolidou. “Foi aí que percebemos que nossa maior conterrânea seria o caminho para mudar o rumo da cidade, por meio do turismo cultural”, diz Romário Ferreira. Além da festividade em Caetanópolis, os fãs da cantora mineira serão presenteados com a reedição de seus 16 álbuns lançados pela EMI-Odeon, que virão reunidos num box, e também vendidos separadamente. A previsão é que esteja à venda ainda no primeiro semestre deste ano. Outra opção para quem quer conhecer melhor a carreira e a vida de Clara é um documentário que está sendo produzido pelo Canal Brasil e trará depoimentos de artistas e nomes importantes que passaram pela vida da cantora. Ainda não existe nome nem data de estreia, mas tudo indica que irá ao ar ainda em 2012.

 

“Eu não gravo para vender. Eu gravo letras maravilhosas, de compositores excepcionais e mensagens extraordinárias, para fazer com que o público que ainda não está bem entrosado com a MPB se volte mais à raiz de nossa música”, contou Clara Nunes, em entrevista à extinta TV Manchete, no final dos anos 1970. Somado à música, o espiritismo foi um fio condutor de sua vida. A família, que era muito católica, se converteu para o kardecismo após a perda dos pais. A cantora, que ainda era apadrinhada do candomblé, procurou sua mãe de santo antes de fazer uma cirurgia de varizes, em 1983. Não seguiu a recomendação de deixar de lado essa ideia, e no dia 2 de abril daquele ano, o Brasil perdia, há exatos 29 anos, uma de suas grandes artistas, devido a um choque anafilático provocado pela anestesia. “Sou uma pessoa muito mística. Sou supersticiosa. Acredito nos orixás, em oxalá. Está dentro do meu coração, da minha alma. Acho que todo brasileiro é supersticioso, devido à mistura de raças”, explicou Clara, em conversa com a jornalista Leda Nagle, no Jornal Hoje, da TV Globo, do início dos anos 1980. E a profecia se cumpriu. 

 

 
 
 

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