O estilista das bolsas

por João Pombo Barile 23/04/2012 14:48

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Geraldo Goulart, Cláudio Cunha, Divulgação
Rogério Lima, na sede de sua loja em BH: "Na escola, desde pequeno, sempre gostei de desenhar" (foto: Geraldo Goulart, Cláudio Cunha, Divulgação)

Sentado à mesa da cozinha, na elegante loja instalada em uma bela casa em estilo colonial, no bairro Santa Lúcia, na zona sul de BH, o mineiro Rogério Lima não tira os olhos do tablet. Concentrado, ele examina algumas fotos da Semana de Moda de Paris, que aconteceu em março. De repente, para e dá uma risada gostosa. “Você não imagina o que aconteceu: o desfile da Chanel deste ano está superparecido com a minha coleção. Parece até que eu desenhei as bolsas inspirado nela. Ninguém vai acreditar na coincidência”, diz o estilista. Mas ele não se preocupa com a semelhança das duas coleções. Já se acostumou com esste tipo de coincidência. “Não é a primeira vez que acontece comigo. As ideias estão no ar; existe simultaneidade. Para quem cria a moda, há mesmo certa sintonia”, diz.

 

Prontas há mais de três meses, as bolsas da próxima coleção de Rogério Lima, que serão apresentadas na décima edição do Minas Trend Preview (veja box), ganharam elementos da estética futurista com o visual perolado e cintilante do verniz Perlatto. As formas geométricas em relevos ou vazadas são os grandes destaques. Além do python, o mix de napa e pelo é uma das promessas para um look muito sofisticado. “Tenho um carinho especial por esta coleção. Acho que acertei a mão. Ficou legal”, afirma o artista, lambendo suas crias.

 

Um dos mais respeitados profissionais do país quando o assunto é acessório, o estilista é disputado a tapas pelas mais importantes marcas brasileiras, Rogério é  um homem simples e sem afetação. Nem de longe lembra aquele tipo de estilista “pitizento” e que gosta de criar em torno de si a áurea de gênio criador. “Não tenho a mínima ideia de onde vem meu talento. Na escola, desde pequeno, sempre gostei de desenhar. Mas a verdade é que nunca fui um gênio e nem bom aluno. Quando faço uma coleção, não sei se vai fazer sucesso ou não. Criar é sempre um risco e eu gosto disto”, confessa.

 

Risco é mesmo uma boa palavra para definir a personalidade deste belo-horizontino. Que o diga sua coleção de bolsas produzidas com sacos de cimento, em 2007, e que ganharam o planeta. Quem poderia imaginar que aquelas peças, feitas com precários sacos de cimento, acabariam nas feiras de moda de Paris e Milão? E seriam comercializadas em países como Japão, China, Grécia e França? O sucesso foi tão grande que Rogério acabou firmando parceria com a Cauê, fábrica de cimento mineira que forneceu o material.

 

O mix de modelos inclui clutches volumosas
e maxibolsas, com superfícies trabalhadas
em relevo ou vazadas, além de peças feitas
em python, e das tradicionais confeccionadas
com sacos de cimento e as pets
 

 

Rogério conta como surgiu a inspiração da coleção: “Lembra de um desfile do Jum Nakao, na São Paulo Fashion Week, em que ele usou apenas papel para fazer as roupas, e no final rasgava tudo? Acho que a inspiração inicial começou naquele dia. Fiquei impressionado com as imagens. Na época, pensei: um dia vou fazer uma coleção que tenha este espírito”, diz.

 

A chance aconteceria durante uma reforma de seu showroom. As embalagens de cimento ficavam dias expostas ao sol e chuva. Ele então percebeu que elas não estragavam. “Comecei a fazer uns testes, e cheguei a um resultado que me permitiu confeccionar as bolsas”, diz o estilista, que sempre aliou sua criação a medidas de preservação ambiental. São dele, aliás, aquelas bolsas confeccionadas com tiras de garrafas pet. Feitas em uma parceria com a ONG Missão Paz, elas também fizeram sucesso em todo o país. “Para conseguir as tiras de plástico daquela coleção, tivemos de descascar as garrafas como laranjas. Depois elas eram tramadas para ganhar a forma retangular”, explica. O resultado foi que as bolsas ficaram como textura meio perolada, e as pessoas pensavam que era cetim. O luxo a partir do lixo.

 

Com a mulher, Cláudia Moura, e os filhos, Marcella e Luka: "Ele é muito aplicado no trabalho, mas sempre está por perto", diz Cláudia
 

 

“O Rogério é, sem dúvida alguma, um dos designers mais inventivos, criteriosos e autorais que Minas já teve”, afirma o também estilista Ronaldo Fraga. Ele não economiza adjetivos para falar do amigo: “Assistindo a um desfile de suas peças, não raro me esqueço de que se tratam de bolsas, pois, inventivo e inquieto, ele poderia com o mesmo talento  fazer móveis, casas, roupas. Sua assinatura está além da marca”.

 

Entre um café e outro, ao lado da mulher Cláudia Moura, com quem é casado há 26 anos e tem dois filhos, Marcella e Luka, Rogério Lima filosofa sobre a razão de Minas ter se tornado uma das grandes referências da moda no Brasil. “Talvez seja porque o mineiro é muito minucioso, está sempre preocupado com os detalhes. Na moda, isso é fundamental”, diz o estilista, conhecido por ter recriado padronagens e modelos clássicos com bom humor e pegada contemporânea.

 

Só em 2007 Rogério decidiu criar marca própria e dar a cara para bater. Não seria muito tempo para quem há mais de 15 anos é conhecidíssimo no mundo da moda? “Claro que sempre tive vontade de ter a minha própria marca, de mostrar, de verdade, o meu trabalho. Mas estava sempre ocupado com muitas encomendas para marcas como Cavalera, Carmim, Ronaldo Fraga, Caos, Alphorria e Disritmia, que me tomavam todo o tempo”, diz.

 

Ronaldo Fraga: “O Rogério é um dos designers mais inventivos, criteriosos e autorais que Minas já teve”
 

 

Nos preparativos do desfile no Minas Trend Preview, Rogério agora está totalmente concentrado nisso. Apesar da experiência, a responsabilidade é grande, porque ele é um veterano no MTP, de que participa desde a primeira edição: “Não é fácil montar um desfile de bolsas. Não é muito simples apresentar uma coleção de acessórios sem deixá-la monótona ou sem desviar a atenção para as roupas”, explica o estilista, que é o atual presidente do Sindicato da Indústria de Bolsas e Cintos de Minas Gerais (Sindibolsas). Outro fã de carteirinha do trabalho de Rogério Lima, o empresário e consultor empresarial Getúlio Guimarães fala sobre o momento vivido pelo mineiro: “Ele é o estilista com mais chances de se tornar uma grife de projeções internacionais. Ele traz para suas criações a irreverência, inovação e criatividade que só  as pessoas de bem com a vida sabem traduzir”, diz.

 

Mas quem pensa que Rogério só quer saber de bolsas e acessórios é porque não o conhece. Sentado na sua luxuosa cozinha, ele confessa que sua maior paixão é cozinhar. “Adoro receber alguns amigos e clientes aqui. Sabe de uma coisa? Gosto mais de cozinhar do que de fazer bolsas”, diz.  Assim, todo sábado é sempre a mesma história: o estilista reúne alguns amigos na loja do Santa Lúcia em torno de uma mesa farta e saborosa. “Muitos negócios já foram fechados aqui”, diz.

 

Quem já provou a canjiquinha colorida ou o charuto com costelinha nunca esquece. E como uma coisa acaba puxando a outra, ele foi parar na alta gastronomia de BH. Amigo do empresário Duda Siqueira considera Rogério um dos 10 maiores designers de bolsas pelo mundo. O estilista, aliás, confeccionou os cardápios da Risoteria Sorriso, no ano passado. “Os cardápios ficaram legais”, conta o estilista, que ainda assinou, por tabela, alguns risotos da casa.

 

Mas, pelo menos por enquanto, ele não vai se render aos prazeres da cozinha. O que significa que o mundo das bolsas ainda tem seu talento. 

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