Oitentona e muito moderna

por João Paulo Martins 03/05/2012 10:53

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Júnia Garrido, Geraldo Goulart, Eugênio Gurgel
Sede da Veterinária da UFMG, no campus Pampulha (foto: Júnia Garrido, Geraldo Goulart, Eugênio Gurgel)

A oitentona Escola de Veterinária da UFMG está comemorando em março as suas bodas de carvalho como referência na área. A qualidade no ensino foi comprovada na última edição do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), em 2011, realizado pelo Ministério da Educação, em que foram avaliados 161 cursos de Medicina Veterinária de todo o país, e a UFMG ficou em quinto lugar, com nota 4,17. A primeira do ranking é a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.

 

“Nossa escola é matriarca das demais instituições dessa área em Minas e de muitas no país”, explica José Aurélio Bergman, diretor da Escola de Veterinária. Neste caso, ele se refere ao pioneirismo da instituição, já que sua criação remonta ao início do século passado, quando só havia três escolas desse tipo no Brasil. Com o apoio do presidente da república, o mineiro Arthur da Silva Bernardes, o agrônomo americano Peter Henry Holfs e o engenheiro carioca João Carlos Bello Lisboa apoderaram-se do modelo de ensino mais moderno da época, o dos Estados Unidos, e fundaram, em 1928, a Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV) em Viçosa, sul de Minas.

 

Em seu início, a ESAV, de onde sairia a escola da UFMG, formava apenas agrônomos, e só em 1932 o curso de medicina veterinária começou suas atividades. Porém, ele não ficou em Viçosa por muito tempo. Passados dez anos, um decreto do governador do estado, Benedito Valadares, o transferiu para Belo Horizonte, para as instalações da atual Fundação Ezequiel Dias, ocupando também oito galpões do Parque de Exposições da Gameleira.

 

“Eu nasci e fui criado perto do batalhão da polícia militar no bairro Prado, onde podia ver os cavalos da corporação. Além disso, durante os finais de semana, meu pai me levava para passear na Escola de Veterinária, na Gameleira”, conta o diretor José Aurélio Bergman. Não foi só ele quem se tornou apaixonado pelos bichos e seguiu essa carreira. Até hoje, já foram formados mais de cinco mil veterinários, que estão espalhados por todo o país, em diversos cargos, incluindo importantes secretarias do Ministério da Agricultura. Esse número pode até não parecer muito expressivo, mas é preciso levar em conta que, até a década de 1950, o curso tinha turmas de no máximo 20 estudantes, e só a partir de 1969 passou para 120, que é a quantidade atual de vagas.

 

Para fazer jus ao título de fábrica do conhecimento, a escola investe em pesquisa e na infraestrutura de laboratórios. Entre eles, destaque para o Laboratório de Metabolismo e Calorimetria, o primeiro da América Latina preparado para o estudo de emissão de gás metano por animais. Esse gás é resultado da fermentação de alimentos no estômago dos bovinos, e contribui para a poluição do ar e destruição da camada de ozônio na atmosfera. Por meio de câmaras especiais, com controle de temperatura e umidade, estudantes e professores testam como o animal se comporta em cada tipo de ambiente natural do Brasil, e assim conseguem mensurar como diferentes fatores afetam a alimentação e, consequentemente, a emissão de gases. A ideia é se chegar a uma dieta eficiente, com menor custo para o produtor e maior qualidade de carne e leite.

 

 

 

Outro importante laboratório da escola que, além de pesquisa, presta serviço à sociedade é o de Análise da Qualidade do Leite. Criado em 2003, a partir de solicitação do governo do estado, o laboratório é capaz de analisar até 75 mil amostras de leite por mês, oriundos de 200 indústrias de laticínios de Minas e algumas da Bahia. Dentre os diversos fatores que são analisados, a coordenadora do laboratório Mônica Pinho Cerqueira destaca a contagem de células somáticas, ou seja, a contaminação do leite devido à inflamação nas glândulas mamárias da vaca.

 

Esse fator é mais comum do que se imagina, e contribui para a diminuição na produção, que, em alguns casos, pode chegar a 29%. “Uma fazenda que produza mil litros por dia chega a perder 290 devido à alta taxa de células somáticas”, diz Mônica. Para ajudar a reverter essa situação, o laboratório, além do serviço de análise, atua diretamente nas propriedades, com projetos de extensão, como treinamentos e palestras. “A universidade tem um importante papel, que é estender o conhecimento até o campo, para que possamos chegar aos padrões de qualidade do primeiro mundo”, completa a coordenadora.

 

A área de extensão acadêmica é outro ponto forte da Veterinária. O carro-chefe no atendimento à comunidade é o Hospital Veterinário, que atende a cerca de 100 animais por dia serviço que é remunerado. Referência nas áreas de ortopedia, dermatologia e oncologia, o hospital é mantido pela Fundação de Estudo e Pesquisa em Medicina Veterinária e Zootecnia, que não tem fins lucrativos. “A ideia de que o governo federal financia todo o ensino não é mais verdade. Seria impossível manter todas as atividades de extensão e pesquisa sem outra fonte de recursos”, explica Eliane Gonçalves de Melo, diretora do Hospital Veterinário.

 

 

 

O dinheiro extra permite a aquisição de equipamentos mais caros, principalmente para exames, como o de videolaparoscopia. “A gente percebe uma mudança de comportamento do homem com seu animal de estimação. Com isso, houve crescimento na demanda e na busca pela qualidade do serviço”, diz a diretora Eliane Melo.

 

O curso possui várias formas de valorizar a práticas dos estudantes, e entre elas estão duas fazendas experimentais, em que o conhecimento é posto à prova nas rotinas de uma propriedade rural. A primeira fazenda, adquirida em 1963,  em Igarapé, possui 240 hectares e é voltada para a  criação de animais e aproveitamento de seus produtos, como queijos e ovos, que são vendidos à comunidade . Outro produto importante, o leite, é encaminhado às prefeituras de Igarapé e Brumadinho para serem doados a escolas públicas.

 

A outra propriedade, a Fazenda Modelo, com 448 hectares, em Pedro Leopoldo, foi incorporada pela UFMG no final dos anos 1980; pertence ao governo federal e tem em suas instalações um importante laboratório, onde são estudadas as principais doenças e parasitoses que afetam os animais.  A escola investe também em projetos que envolvem a comunidade, como o Carroceiro, que presta atendimento  animais e dá dicas de alimentação.

 

As atividades de ensino e pesquisa e da escola não param por aí; em última instância, tem como fim a formação de profissionais de qualidade, capazes de aplicar na prática o conhecimento e as inovações. No final, quem sai ganhando é a sociedade.

 

 
 

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