Na cola de Lea T

por Guilherme Torres 03/05/2012 12:48

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Fred Othero/divulgação
Carol Marra usa vestido e luvas Acervo: “Nunca tive uma aparência masculina" (foto: Fred Othero/divulgação)

Se não fosse por um detalhe, o fato de a modelo mineira Ana Carolina Marra ser um dos nomes do momento nas passarelas e em páginas de revistas especializadas não teria tanto destaque. Mas o tal detalhe é que muda a história: Carol Marra, como já é conhecida, é a mais nova transexual a fazer sucesso com os estilistas e produtores de moda no Brasil. Ela segue de perto os passos da top Lea T, a transexual que está entre as 50 modelos mais importantes do mundo na atualidade e com quem Carol tem alguma semelhança física. Semelhança que foi, aliás, determinante para que a nova aposta saísse dos bastidores da moda, quando trabalhava no Fashion Rio, em junho de 2011, diretamente para os flashes de fotógrafos famosos e passarelas disputadas.

 

O sucesso veio no fim do ano passado, no Minas Trend Preview (MTP): Carol Marra abriu o evento e desfilou para as marcas Chicletes com Guaraná, Alessa e Fernando Pires. Depois, não parou mais. Ela confessa que ficou surpresa com o assédio da imprensa nacional quando sua verdadeira identidade foi relevada. “Tinha tantas tops famosas e eles queriam a mim. Até um site americano falou sobre mim”, diz. Com 1,80 m de altura, cabelos longos e traços finos esculpidos com a ajuda de hormônios femininos, Carol despertou a atenção de diversas grifes.

 

“Nunca tive uma aparência masculina, e mesmo na adolescência as pessoas me chamavam de ela, de senhora”, diz. Isso já lhe rendeu editoriais, catálogos e campanhas, e a tirou de vez da sombra de Lea T como a mais nova promessa nacional quando o assunto é modelo transex.

 

Assim que caiu nas graças dos críticos de moda, depois de participar do MTP, Carol procurou, em novembro do ano passado, uma agência em São Paulo, a Elo Management, especializada em lançar modelos brasileiros internacionalmente. Foi aprovada por unanimidade. “Nós apostamos no conjunto de beleza, na mulher bonita que ela é, e não levamos em consideração a questão da transexualidade”, conta o booker da Elo, Jocler Turmina, que há 15 anos descobre e lança modelos tipo exportação. “Agora, o grande desafio é que ela vença essa etapa de febre e se solidifique como uma modelo de talento, mas acredito que o caminho de sucesso dela será na televisão, num futuro próximo. O preconceito é gigantesco, e para 'vendê-la' ainda temos dificuldades”, diz.

 

 

 

O estilista Fernando Pires, considerado o mago dos sapatos, conta que descobriu Carol ao receber um telefonema da modelo dizendo que gostaria de desfilar para ele. Ele quis conhecê-la e ela lhe enviou algumas fotos. “Ali, eu vi que ela tinha o porte e a atitude para abrir meu desfile em BH. Em seguida a levei para desfilar em São Paulo, na Casa de Criadores”. Os dois ficaram amigos e agora Pires, que já tinha ousado antes ao levar duas transex em seus desfiles, prevê outros voos para Carol: “Ela tem uma marca própria e carrega muito bem meus saltos vertiginosos”, diz.

 

E como um desfile leva a outro, em fevereiro Carol Marra foi convidada especial do Brazil Fashion Cruiser, uma espécie de fashion week em alto mar – um cruzeiro de Santos (SP) a Maceió (Alagoas) –, com desfiles e palestras para estudantes de moda, com três mil passageiros a bordo. No evento, ela fez seu primeiro desfile de moda praia e de lingerie, além de ensaio fotográfico para uma revista com outras quatro modelos, todas usando apenas um tapassexo. “Como boa mineira, faço tudo quietinha e só conto quando está certo”, diz, mantendo sigilo sobre a publicação. Os motivos para guardar tudo a sete chaves, segundo ela, são para evitar passos em falso: “Muitos trabalhos bons estão por vir”.

 

Ainda assim, ela não se sente à vontade para falar de sua vida antes de se assumir para o mundo como modelo transgênero. O mistério que mantém em torno do assunto, claro, só aguça a curiosidade. Enquanto Lea T, a filha transexual do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo, abriu sua história para todos, Carol prefere ir devagar com o andor e ver onde seu estrelato vai chegar: “Sei que a carreira de modelo é uma coisa que tem prazo de validade. Se para as modelos mulheres isso é certo, no meu caso é fatal”, diz.

 

Ela também acredita que tem um papel diferente das modelos “normais”, uma espécie de missão contra o preconceito à condição de dupla sexualidade. “É meu dever mostrar que um transgênero pode ter profissão digna e ter vida normal. Nós pagamos impostos, temos sentimentos, somos gente”, diz. Sobre o preconceito que a faz manter quase em segredo sua identidade verdadeira, ela explica que ainda não é fácil lidar com a fama. “É legal a moda abrir espaço para que as pessoas passem a entender mais o que é [ser modelo transexual] e não ter apenas aquela imagem marginalizada, das esquinas, de prostituição”, diz.

 

A modelo na passarela do Minas Trend Preview, novembro de 2011: “Quando esse momento passar, volto a ser repórter ou vou me dedicar à carreira de atriz”
 

 

Com 15 anos de experiência na moda, o produtor Rodrigo Cezário acredita que o destaque das modelos transexuais é fenômeno que reflete o momento da sociedade. “A diversidade sexual está cada vez mais aceita na sociedade, e a moda segue o mesmo caminho; além disso, ela tem esse papel de incluir as minorias, o diferente, de lançar um comportamento”. Carol sabe disso e não perde o foco do que quer para si: “É uma fase da moda, na qual não existe mais definido o que é para menino ou para menina. A moda hoje é muito democrática e tudo é permitido”, diz. A busca por esse novo padrão de beleza andrógino é que tem aberto espaço para nomes como o dela.

 

Aliás, tudo aconteceu quase por acaso na vida de Carol Marra, 24 anos, que nasceu Cláudio, em Belo Horizonte, estudou jornalismo e trabalhou em uma emissora de televisão na capital mineira; depois se enveredou pela moda, o que a levou a atuar como produtora de desfiles e eventos em São Paulo e no Rio de Janeiro, até ser “descoberta” nos bastidores. “Nessa época, vários fotógrafos falavam que eu tinha um rosto andrógino e me perguntavam por que eu não modelava. Eles insistiam e eu relutava”, conta. Um dia, ela resolveu fazer o primeiro ensaio, daí veio outro, e, como ela conta, “logo eu estava modelando no anonimato”.

 

A infância em BH não foi a de um menino qualquer: “Desde pequena eu me sentia diferente, não gostava de brinquedos de meninos e não me identificava com eles em nada”. Carol conta que “até se descobrir como mulher” sofreu muito. “Eu me sentia com a roupa do avesso”. Isso fez com que ela desse um salto e amadurecesse mais rápido. “Tornei-me uma ‘criança velha’, como forma de sobrevivência na sociedade”, lembra.

 

Carol considera fundamental a realização da polêmica cirurgia de readequação de sexo para se sentir uma mulher de verdade, e vem se preparando para isso. Mas, como conta, devido à agenda de trabalho que só cresce, ela não tem previsão de quando acontecerá, mas faz questão de contar das próteses de silicone de 240 ml que colocou recentemente em cada seio, “com um cirurgião que já fez várias plásticas em misses”.

 

Empolgada, como era de se esperar, ela faz planos, mas já se preocupa com a carreira de modelo que costuma ser muito curta. Antes que a fama passe, mudou-se de vez para São Paulo e agora estuda interpretação para TV. “Quando esse momento de modelo passar, eu volto a ser repórter ou vou me dedicar à carreira de atriz. Já fiz teatro e agora pode ser uma boa oportunidade para retomar”, conta, emendando que além de estar se preparando como atriz, “nas poucas horas de folga ataco de DJ”.

 

 

Últimas notícias

Comentários