Colonizadores e colonizadores

por Claudio de Moura Castro 11/05/2012 13:55

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Caminho, absorto, pelos corredores do Museu do Apartheid (Joanesburgo, África do Sul). Impressiona-me a burrice dos afrikaners. Por que, nesses descendentes de holandeses, tanto fervor em separar radicalmente brancos e negros? Por que comprar uma briga tão ingrata?
Subitamente, deparo-me com uma estatística espantosa: na década de 1930, havia cinco universidades somente para negros. Nessa década, o Brasil matriculava 21 mil alunos, quase todos brancos. Ou seja, na pátria da mais radical discriminação racial, os negros de lá estavam mais presentes no ensino superior que os nossos. Nos dias que correm, a proporção de matrículas negras é semelhante à sua participação na população (80%). No Brasil, está bem abaixo.

 

Retornemos às origens dos dois países: migrações holandesas versus portuguesas. No século XVI, chegaram os huguenotes à África do Sul (então deserta, pois curiosamente os zulus vieram depois). Emigravam de um dos países intelectual e economicamente mais avançados do mundo ocidental. Trouxeram muitas bíblias e uma sólida preocupação com o ensino. Mas, também, uma particular intolerância para tudo que era diferente.

 

Na mesma época, vieram os portugueses para o Brasil, trazendo uma extraordinária tolerância para raças e costumes diferentes; afinal, eram misturados com árabes, celtas, e já começara a miscigenação com africanos e índios. Mas pouca educação trouxeram, pois não a tinham sólida nem para eles próprios.

 

Curiosamente, os dois países seguiram trajetórias paralelas e hoje têm muitas semelhanças. A renda per capita é parecida e o desenvolvimento industrial não é de todo díspar. As estatísticas sociais são semelhantes (exceto pela incidência horrenda da Aids, reduzindo a esperança de vida). Mas a proporção de casas servidas por esgoto adequado é superior à nossa.

 

No lado positivo da África do Sul, há a qualidade das instituições democráticas e uma economia disciplinada. Observa-se um admirável grau de sofisticação intelectual na sociedade, trazida pelos imigrantes, mas absorvida por quase todos. Na educação, a proporção de analfabetos é semelhante. Contudo, 99% terminam os sete anos do ensino fundamental e 92% prosseguem para o ensino médio. São resultados superiores aos brasileiros. A repetência (7% a 8%) é inferior à nossa.

 

É no ensino superior que as diferenças são mais expressivas. A taxa líquida de matrícula, de 15%, é mais alta que a nossa. A África do Sul tem quatro universidades dentre as 500 melhores do mundo, desempenho igual ao nosso, embora tenha apenas um quarto da população.

 

Em contrapartida, a migração holandesa (e depois a inglesa) trouxe a reboque conflitos persistentes. Restam cicatrizes da Guerra dos Boers, encrespando os afrikaners contra os ingleses. Ainda que muito reduzido, sobrevive certo desconforto e até hostilidade entre negros e brancos. Há grupos paramilitares de afrikaners andando uniformizados pelas ruas, pregando racismo e preparando militarmente a sua juventude. Há também clivagens entre os coloureds (pardos), os de origem indiana e, também, chinesa. As identidades associadas às origens tribais são vivas e determinantes no jogo político. E, no rescaldo dos conflitos, a criminalidade é pior do que a nossa. Que tudo não haja explodido, agradeçamos à liderança e maturidade de Mandela e De Klerk.

 

Nossos antepassados portugueses, providencialmente, lubrificaram as relações culturais, sociais e raciais com sua adaptabilidade e tolerância. O minúsculo Portugal sobreviveu às tormentas por saber ajustar-se, ceder ou brigar, de acordo com as circunstâncias. Segundo Darcy Ribeiro, os portugueses mataram os índios e dormiram com as índias, gerando uma sociedade irremediavelmente híbrida. Temos uma língua única, e não 11 oficiais, como na África do Sul. Nos livramos da escravidão aos poucos, sem o terremoto da Guerra Civil americana.

 

Mas há o reverso da medalha. Só muito recentemente conseguimos alguns saltos significativos na educação. Isso significa que, por mais de quatro séculos, não pudemos contar com boas escolas para o processo de crescimento econômico, desenvolvimento da cidadania e bons costumes.

 

Temos certa harmonia social, mas falta-nos educação e civilidade. Eles têm boas instituições e um ensino mais democrático, mas falta harmonia.

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