Não tem preço

por Nayara Menezes e Raíssa Pena 14/05/2012 13:25

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Samuel Gê, Geraldo Goulart, Maíra Vieira, Leo Araújo
Dona Elza e o marido Rui Mourão: "Aqui ninguém mexe" (foto: Samuel Gê, Geraldo Goulart, Maíra Vieira, Leo Araújo)

A CARA DO DONO

 

A casa do escritor Rui Mourão, 83 anos, não passa despercebida. Instalada na rua Paulo Afonso, no bairro Santo Antônio,  a casa tem a cara do dono. Das luminárias da varanda ao guarda-corpo da escada, tudo tem história. Pudera, já que Rui é, desde 1974, diretor do Museu da Inconfidência em Ouro Preto. Ele planejou cada detalhe da casa. Junto com a esposa, Dona Elza, comprou o imóvel da cunhada e fez uma grande reforma. A mureta que cerca o casarão é o atestado da paixão do escritor por Ouro Preto. Foi feita de junta seca ou pedra empilhada, estética típica de lá. Os filhos, que cresceram lá, hoje levam seus próprios filhos e os ensinam a respeitar o patrimônio da família. Segundo Rui, a casa que construíram com devoção não tem a menor possibilidade de ser vendida por ele nem pelos herdeiros. “Aqui ninguém mexe”, garante Dona Elza.

 

 

“A gente andava por essas ruas correndo, brincando; entrávamos e saíamos da casa dos vizinhos... Hoje é muito diferente. O meu quarteirão, por exemplo, é um dos poucos do bairro que tem mais casas do que prédios”, comenta a dentista Maria Tereza Barbosa,  57 anos, que desde bebê mora em uma casa no bairro Serra.

 

As transformações abruptas da cidade não são difíceis de serem notadas. Andar pelas ruas de Belo Horizonte é fazer um exercício diário de memória. Onde hoje há uma casa, amanhã pode não haver mais. A velocidade chega a assustar os mais antigos. Foi assim com dona Wanda Campos Magalhães Drumond, de 89 anos. Ela, que mora na mesma casa há mais de 50 anos, no bairro Santo Antonio, não entendeu quando os cinco imóveis vizinhos simplesmente saíram dali. “As cinco casas que rodeavam a nossa foram demolidas da noite para o dia, para a construção de um prédio. Minha mãe se assustou quando viu os terrenos vazios”, conta Marisa Drumond, filha de dona Wanda.

 

E a tendência é que as casas cedam, cada vez mais, espaço aos edifícios. Em algumas regiões da cidade, como o bairro de Lourdes, as imobiliárias e construtoras estão dispostas a desembolsar entre R$ 7 milhões e R$ 9 milhões por um terreno para construir prédios de luxo.

 

“Tivemos uma grande valorização dos imóveis nos últimos cinco anos. Hoje, o preço médio do metro quadrado na região centro-sul é de R$ 6  mil. No bairro Santo Antônio, gira em torno dos R$ 3 mil; e em Lourdes, o metro quadrado chega a R$ 7mil”, afirma Ivan Silva, proprietário da Casa Mineira Corretora de Imóveis, que está há 34 anos no mercado.

 

Segundo pesquisa do Ibope Inteligência, publicada em setembro de 2011, Belo Horizonte está entre as dez cidades mais verticalizadas do Brasil. O levantamento, que teve como base dados do Censo do IBGE 2010, mostra que a capital mineira ocupa exatamente a décima posição do ranking. Na primeira posição da lista aparece a cidade paulista de Santos, seguida por Balneário de Camboriú, em Santa Catarina, e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Em Belo Horizonte, 33% dos imóveis residenciais são prédios de apartamentos. O número é três vezes maior quando comparado à média nacional, segundo o instituto Ibope. Na cidade, é o vetor norte que aparece com o maior índice de crescimento de verticalização dos últimos anos, com um aumento de 3,24%.

 

Para resistir à especulação imobiliária, muitos moradores recorrem ao tombamento, como conta a historiadora e diretora de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura, Michele Arroyo. “Muitos moradores de casas antigas pedem o tombamento de seus imóveis para evitar o assédio de construtoras e especuladores imobiliários”, explica. Mas quem não tem o imóvel protegido pela legislação patrimonial resiste com os próprios argumentos, a maioria de cunho emocional, aos apelos do mercado.

 

A aposentada Wanda Campos Magalhães Drumond, 89 anos, com a família: a casa da avó é onde todos se reúnem

 

PROMESSA DE NÃO VENDER

 

A casa da dona Wanda Campos Magalhães Drumond, no bairro Santo Antônio, é a típica casa da vó. É lá que se reúnem os filhos e netos todos os fins de semana para o almoço dominical. É lá também que toda a família dá como endereço para as correspondências. “Aqui é igual coração de mãe, sempre cabe mais um”, diz a pedagoga Marisa Magalhães Drumond, filha da dona Wanda, que mora com a mãe na casa da família. A casa é uma das poucas que ainda resistem na rua, em meio aos arranha-céus. Marisa conta que a hipótese de vender a casa para a construtora que adquiriu os outros imóveis foi logo descartada pelos três filhos. “Nós prometemos a meu pai que enquanto nossa mãe fosse viva não venderíamos a casa. Então, temos de cumprir essa promessa”, diz Marisa.
 

 

Dora Soares Viana de Castro, 75 anos, e Lúcio Soares Pereira de Castro, 77 anos, aposentados: "Aqui dentro temos paz"

 

RECORDAÇÃO EM CADA CANTO

 

Dona Dora tem 75 anos e mora em uma casa próxima à avenida Prudente de Morais,  que ela mesma ajudou a construir, há 40 anos, junto com o marido. Com orgulho, ela conta que escolheu pessoalmente cada peça do imóvel, desde o piso da sala até os azulejos do banheiro. A casa é o ponto de encontro dos filhos e dos netos, e chega a reunir mais de 50 pessoas em dias de festas. Cada cantinho guarda uma recordação. O. “A nossa casa não tem preço", afirma dona Dora, com lágrimas nos olhos.  “Aqui dentro temos paz”.

 

Luiz Fernando Butakka, 56 anos, arquiteto, e a casa que comprou há dez anos (ao fundo): "Já me ofereceram um apartamento de R$1 milhão, mas não aceitei"

 

PROPOSTAS RECUSADAS

 

O arquiteto Luiz Fernando Butakka não abre mão do seu reduto de sossego. Há 10 anos ele mora com a esposa em uma confortável casa no bairro Santo Antônio, na mesma rua em que morou a vida inteira, com sua mãe. “Em um apartamento me sentiria enclausurado”, diz ele, que já recebeu propostas milionárias para vender o imóvel. “Já me ofereceram um apartamento de R$1 milhão. Mas, como disse ao corretor, apenas a minha sala era quase metade do apartamento que queriam me dar”, brinca.  Butakka diz sofrer ao acompanhar a verticalização do bairro e da rua onde cresceu. “É muito triste vermos as casas dos de antigos vizinhos cederem lugar a prédios onde vão morar pessoas que a gente mal vai cumprimentar”, lamenta-se.

 

Maria Tereza Barbosa, 57 anos, dentista:  "Daqui eu não saio"

 

RELAÇÃO DE AFETO

 

Guardiã da casa da família, Maria Tereza Barbosa, 57 anos, é a caçula de Seu Luís e Dona Rita Pimenta Barbosa. Os pais vieram do Jequitinhonha, norte de Minas, para Belo Horizonte em 1955. Ela tinha apenas seis meses de idade quando a casa no bairro Serra passou a ser seu lar.
“A Serra era totalmente diferente”, recorda Maria Tereza. Na varanda da casa, a irmã mais velha costumava sentar para tocar violão, o que acabava reunindo vizinhos. A casa sempre ficava cheia de gente.  E ainda continua como reduto da família Pimenta Barbosa. Maria Tereza conta que é constantemente assediada por construtores e especuladores imobiliários. Mas ela e os vizinhos têm relação afetiva muito forte com o local e não pretendem vender. “Minha família teve uma vida muito feliz nesta casa. Aqui estão nossas referências e é por isso que eu resolvi não sair”, diz Maria Tereza.

 

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