Intercâmbio para tudo

por Vicente Cardoso Jr. 05/06/2012 12:03

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Maíra Vieira, Geraldo Goulart, Eugênio Gurgel, Cláudio Cunha, Paulo Márcio
None (foto: Maíra Vieira, Geraldo Goulart, Eugênio Gurgel, Cláudio Cunha, Paulo Márcio)

Ele era músico e virou fotógrafo. De fotógrafo, passou a chef de cozinha. Com veia de artista, Mateus Gontijo buscou, por meio do intercâmbio, ampliar seus campos de atuação. Primeiro, mudou-se para Paris, na França, para fazer um curso de fotografia por um ano. Ao terminar, percebeu que tinha ainda outro desejo que poderia realizar ali: cursar gastronomia no renomado instituto Le Cordon Bleu. Estendeu, então, a estadia por mais um ano e meio, e após concluir o segundo curso e realizar estágios em três grandes restaurantes da cidade, voltou de Paris com novos horizontes: “Agora, planejo abrir um restaurante em Belo Horizonte no final do ano”, diz. O caso de Mateus não é extraordinário, apenas representa uma tendência que tem se difundido no Brasil: a expansão do intercâmbio, que cresce a cada ano tanto em número de intercambistas quanto em opções de viagens educacionais. Em Minas, não é diferente. Os programas internacionais de estudo deixaram de se limitar ao aprendizado da língua e se voltam agora para as mais variadas áreas.

 

O crescimento e a diversificação desse mercado são acompanhados pela Associação Brasileira de Organizadores de Viagens Educacionais e Culturais (Belta), que anunciou aumento de 30% no número de brasileiros que foram estudar fora, de 2010 para 2011, e espera crescimento semelhante para este ano – a expectativa é de quase 300 mil intercambistas saindo do país em 2012. “As pessoas estão perdendo qualquer receio de morar fora, e ainda pesa o fato de a economia está favorável. Então, sentem que é hora de aproveitar”, considera o coordenador regional da Belta, Gabriel Lloyd. Minas Gerais é o segundo estado em número de matrizes de agências de intercâmbio no país, com 15,5%, ficando atrás apenas de São Paulo, o que mostra peso do estado neste mercado.

 

Segundo a agente de intercâmbios Paula Starling, diretora da Intervip, de maneira geral as pessoas entendem que hoje é mais viável morar e estudar fora. “Na maioria das vezes, fica muito mais barato pagar o curso e a acomodação indicados no programa do que ir para a mesma cidade ficar em um hotel pelo mesmo período”. A diversificação dos tipos de programas oferecidos, acredita Paula, se deve ao avanço na formação em língua estrangeira da nova geração de jovens e adultos. “Hoje, cada vez mais pessoas têm o inglês avançado muito cedo. Com o idioma consolidado, vão buscar outras experiências, que o intercâmbio oferece”, diz.

 

Para o presidente da Belta, Carlos Robles, a diversificação também se deve à valorização pelo mercado de trabalho de vivências internacionais, muito além do conhecimento em língua estrangeira. “Hoje, as empresas buscam profissionais no mercado que já possuam não só a fluência de um ou mais idiomas, mas também uma experiência cultural que pode fazer a diferença quando se trata de negócios no mundo globalizado”, avalia Robles. “Esse profissional estará mais preparado para ser enviado para uma negociação no interior da China, por exemplo”.

 

Quando decidiu fazer intercâmbio na Austrália, a publicitária Rafaella Morici já tinha um conhecimento avançado em língua inglesa, mas quis conciliar dois projetos na mesma ocasião: cursar especialização em sua área e ter a experiência de morar no exterior por mais tempo – já havia feito um intensivo de francês por um mês na França. A opção por cursar pós-graduação fora se deu por considerar que isso seria um diferencial para a carreira. “Entendendo o marketing pela perspectiva de outro país, com professores de várias nacionalidades; acho que dei um passo muito maior para compreender o mercado global na minha área”, diz Rafaella. Na volta ao Brasil, ela logo foi promovida. Subiu dos dois postos no plano de carreira da empresa.

 

Mesmo quando o aperfeiçoamento do idioma não é o objetivo principal de quem faz intercâmbio, este é, inevitavelmente, um dos principais ganhos. Especialistas consideram a experiência de viver fora fundamental para adquirir fluência na língua estudada. “Aprender a língua, você aprende no Brasil mesmo, em ótimas escolas; mas para dominar e ter fluência, é preciso viver fora”, destaca Ana Maria Fulgêncio, diretora da escola de idiomas Green System. Por isso, uma tendência que se fortalece no Brasil  é a combinação do estudo do idioma com alguma atividade extra, que pode representar tanto um hobby quanto complemento para o currículo. Francês com curso de vinhos no interior da França, espanhol com dança em Madri, na Espanha; surfe com inglês na Califórnia (EUA), italiano com história da arte em Florença, na Itália. São tantas as opções que fica até difícil escolher. “Muitas pessoas buscam uma atividade que sempre tiveram vontade de fazer no Brasil, mas na qual nunca investiram”, relata Mariana Araújo, consultora da agência STB em Belo Horizonte.

 

Renomadas escolas internacionais (ver quadro) também se tornaram novos atrativos por aqui, especialmente nos últimos três anos. Não que o Instituto Marangoni, por exemplo, por onde passaram importantes estilistas como Domenico Dolce (Dolce & Gabbana) e Franco Moschino, tenha se tornado mais famoso nos últimos anos. Na verdade, o instituto sempre teve grande projeção. Mas o fortalecimento do intercâmbio tem levado cada vez mais brasileiros a buscar formação por lá. “São muitas as escolas de várias áreas, algumas com mais de 50 anos, mas para as quais o brasileiro não costumava ir”, afirma Carla Amaral, diretora da Central do Estudante. “Agora, com o fortalecimento da nossa moeda, isso mudou.”

 

Foi o caso da designer de moda Paula Bastos, que investiu em um curso de desenho de acessórios no Instituto Marangoni de Milão, na Itália. Já formada em moda no Brasil, ela não conhecia o curso quando resolveu buscar uma especialização fora. Após indicação, pesquisou sobre a escola e não teve dúvidas quanto à escolha. Foi morar e estudar por um ano na Itália. Para ela, a formação que recebeu lá teve um caráter mais intenso. “Era um curso mais direto, onde pude desenvolver muito minha técnica”, afirma. Durante o período, Paula teve a oportunidade de fazer projetos para marcas famosas. “Eles avaliavam o projeto, sugeriam mudanças e davam nota. Era uma prova de fogo”, lembra. Mas que lhe deu experiência e confiança para apostar nas próprias produções assim que voltou. Hoje, Paula desenvolve sua própria linha de bolsas.

 

Mas, apesar da tendência de diversificação de programas e áreas, os tradicionais intercâmbios de high school (cursar seis meses ou um ano fora no ensino médio) e cursos de idiomas ainda são os carros-chefe das agências. Juntas, as duas modalidades representaram mais de 85% da preferência dos intercambistas brasileiros em 2010, segundo a Belta. Mesmo assim, esses programas não são estáticos e se adaptam cada vez mais à novas demandas do público e do mercado. “Como a quantidade de interessados em fazer a high school não parava de crescer, as escolas foram aumentando suas exigências para liberar os alunos e aceitar o aproveitamento curricular na volta”, explica Paula Starling, da Intervip. A alternativa encontrada foi a criação do mini-high school, realizado nas férias escolares do Brasil.

 

No estudo de línguas, a tendência é a de criar cursos que atendam às necessidades dos candidatos. “As escolas estão cada vez mais flexíveis, para atender a todo tipo de perfil: quem tem mais ou menos tempo, quem quer focar em conversação ou em escrita e leitura, e assim por diante”, conta Daniel Trivelatto, da World Study. “Os formatos vão surgindo de acordo com as demandas aqui e lá fora. O mercado é tão dinâmico que não fica dois anos sem apresentar uma novidade”, afirma Daniel.

 

Uma ideia que tem se desfeito é a de que intercâmbio é coisa para adolescentes e jovens. Isso até era assim há 20 anos, quando intercâmbio e high school eram quase sinônimos. Hoje, cresce o número de adultos e idosos que também buscam cursos de línguas ou de alguma atividade diferenciada no exterior, procura que não está necessariamente relacionada a uma exigência de mercado. O aposentado Eduardo Azevedo é um exemplo. Ele acaba de voltar de uma temporada de um mês em Paris, onde foi estudar francês por puro hobby. Eduardo, que já havia viajado várias vezes ao exterior a turismo ou trabalho, sentiu a diferença da relação que se estabelece com o lugar quando se está morando e estudando ali. “Como estava lá para estudar, procurava me ambientar mais ao dia a dia da cidade, sem aquela mania de turista de visitar museu e ponto turístico e fazer compra o tempo todo”. Após voltar, encantado com a experiência, convenceu amigos a imitarem a ideia e já planeja qual será a próxima viagem.

 

Após morar e estudar em Nova York (EUA) na juventude, Ana Maria Fulgêncio fundou sua rede de ensino de inglês e agência de intercâmbios, que integram o Green Group, com quase 40 anos no mercado mineiro. “Turismo tem tudo a ver com educação. Já fundei a escola pensando que meus alunos seriam cidadãos do mundo”, declara.  Mas, para Ana Maria, é fundamental saber a hora certa de fazer o intercâmbio, a fim de tirar melhor proveito em aprendizado e vivência. Carlos Robles, presidente da Belta, alerta que o intercâmbio pode ser uma experiência maravilhosa ou um desastre, o que depende, em grande parte, do preparo da agência para atender demandas cada vez mais personalizadas. “É preciso oferecer o melhor para as necessidades específicas de cada cliente, de acordo com a idade, momento de vida, interesses particulares”, diz.

 

Foi  por considerar de grande importância uma experiência no exterior que a dentista Mônica Nicolato estimulou as três filhas, Isadora, Clara e Bruna, a fazerem intercâmbios ainda no ensino médio. Isadora foi a primeira a fazer um ano de high school na Tasis (escola americana na Suíça), na cidade de Lugano. No meio do intercâmbio, ela ainda teve a oportunidade de participar de uma viagem para trabalho voluntário na África. Clara seguiu os passos da irmã e foi estudar na mesma escola, por um período de cinco meses. Sua irmã gêmea, Bruna, passou temporada de um ano treinando tênis, esporte que pratica aqui, na conceituada academia IMG, em Bradenton (EUA). “Foi como dar o pé para minhas filhas olharem do outro lado do muro”, diz Mônica.

 

Hoje, Isadora estuda relações internacionais e pretende se associar a uma ONG que realiza trabalhos voluntários no exterior; Bruna planeja fazer faculdade nos EUA, onde pretende continuar treinando tênis; e Clara também tem projetos de estudar arte no exterior. A mãe, no entanto, não se assusta com a possibilidade de ver todas as três saindo para morar fora de uma só vez. “ Vou aproveitar para conciliar a moradia delas com interesses meus. Também pretendo fora fazer alguns cursos”, diz a dentista, que de tanto motivar as filhas, acabou se rendendo aos novos intercâmbios. Agora, ela não quer perder a oportunidade de também olhar para o outro lado do muro.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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