Facebook? Tô fora...

por João Paulo Martins 06/06/2012 13:12

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João Carlos Martins, Maíra Vieira
None (foto: João Carlos Martins, Maíra Vieira)

Com mais de 842 milhões de usuários – ou seja, muitos conhecidos seus estão lá –, o Facebook virou notícia constante nos jornais: seja pela aquisição bilionária do aplicativo de fotos Instagram, seja pela entrada na Bolsa de Valores de Nova York, com ações que não alcançaram o sucesso esperado e caíram de 42 dólares para 31 dólares em apenas dois dias. Seu sucesso, na verdade, vai além do poder econômico. O que fascina as pessoas são as possibilidades de interação social. Como resistir a um site que permite conversar com milhares de amigos, compartilhar imagens, e ainda se divertir em inúmeros jogos online? Parece uma missão quase impossível, mas, na verdade, não é.

 

“Acho que eu sou ‘antifacebook’, contra o mundo”, conta, rindo, Marco Antônio Almeida, engenheiro de telecomunicações que se diz vacinado contra as atraentes redes sociais. Para ele, o principal motivo para se ficar fora do site do momento é seu mau uso. “As informações inúteis, que antes não eram divulgadas, parecem ser essenciais, hoje, para muitos usuários do Facebook”, reclama. O uso banalizado que tanto o aflige diz respeito às mensagens que usuários costumam compartilhar e não possuem nenhuma função específica, a não ser relatar algo que eles fizeram, como tomar café da manhã, sair para comprar no shopping, olhar o tempo pela janela. Mesmo trabalhando cercado por tecnologia, o engenheiro explica que, em seu tempo livre, prefere se dedicar à família: “Ninguém conversa mais. Acho que as relações interpessoais estão acabando. No meu tempo livre, prefiro me dedicar à minha mulher e ao meu filho”.

 

A estudante Flávia Bizzotto diz que as pessoas cobram sua presença na rede social: “Alguns até me acham antissocial”
 

 

Quem também prefere se distanciar do Facebook é Flávia Bizzotto, estudante de arquitetura. Na opinião dela, a rede é uma ferramenta mais voltada para que as pessoas bisbilhotem a vida uma das outras do que para que se comuniquem. “Que todo mundo saiba da vida de todo mundo, não acho interessante. Quando estava no início do meu namoro, tivemos uma discussão por causa de alguma coisa no Orkut. Foi aí que resolvi dar um tempo nas redes sociais e não tive mais vontade de mexer”, explica a estudante.

 

Para a sorte dela, seu namorado também não tem interesse no Facebook; mesmo assim, Flávia acha que a maturidade das pessoas está à frente do mau uso desse site. “O fato de ter ou não um perfil, não impede ninguém de fazer algo errado. Isso tem a ver com a índole”. O importante, para ela, é que não se perca a comunicação entre as pessoas. Neste caso, quando é questionada sobre o “absurdo” de não ter conta no site de relacionamento, responde: “Falam que sou antissocial. Sempre tem alguém dizendo para eu criar um perfil, pois facilita a troca de informações. Não discordo disso, mas acredito que outros meios de comunicação, por exemplo, e-mail e celular, sejam tão eficientes quanto”, diz Flávia.

 

Para o engenheiro Marco Antônio Almeida, as pessoas só usam o Facebook de forma banal: “As relações interpessoais estão acabando”
 

 

Mas até que ponto a rede social atrapalha as relações reais entre as pessoas? Será que é possível tornar-se dependente desse ambiente virtual, em que o anonimato e a sensação de liberdade parecem incentivar seu uso indiscriminado? Segundo Alexandre Eustáquio Teixeira, professor de antropologia da PUC Minas, de certa forma as redes sociais têm favorecido a interação humana, mas ainda é difícil avaliar a qualidade dessa comunicação. “É um fenômeno muito recente e temos relativamente pouco conhecimento acumulado nessa área, apesar do grande avanço da pesquisa nos últimos anos. O que é fato é que as redes sociais são cada vez mais acessadas, e cada vez mais seus usuários dispendem tempo com elas, especialmente no Brasil. Só não sabemos se isso tem reduzido a quantidade de contatos reais entre as pessoas”, completa.

 

Os brasileiros, aliás, estão em segundo lugar no mundo em número de usuários, com mais de 47 milhões de perfis no Facebook, perdendo apenas para os americanos, que somam 157 milhões. O crescimento de usuários tupiniquins nesse site subiu mais de 279% nos últimos dois anos, segundo dados do portal Social Bakers.

 

Com mais de mil alunos por ano, o professor de direito Ricardo Sacco prefere não ter conta no Facebook: uma forma de manter uma relação saudável com eles
 

 

Com relação à possível tendência ao vício, causada pela rede social, o professor Alexandre Teixeira diz que é possível que alguns indivíduos se tornem dependentes desse tipo de site, como já ocorre com outras ferramentas digitais (por exemplo, os jogos online). “Já existem clínicas e psicólogos que estão se especializando em tratar esse tipo de dependência. O Hospital das Clínicas de São Paulo, por exemplo, criou o Programa Dependentes em Internet. E, como ocorre com as drogas em geral, acredito que os casos de dependência sejam pouco significativos em relação ao número geral de usuários”, explica Teixeira. Ou seja, o acesso ao site de relacionamento deve ser feito de forma racional, sem exageros.

 

O problema é conseguir achar o ponto de equilíbrio no uso do Facebook. Muitas pessoas, como Ricardo Sacco, professor de direito da Fumec, preferem nem entrar nesse mundo virtual, já que ele acaba exigindo dedicação de tempo que vai contra a realidade profissional de cada um. “Imagine se eu tivesse de responder aos pedidos de amizade de todo aluno que passou por minhas aulas? São mil por ano. Isso criaria uma situação insustentável para eu administrar”, diz. Apesar da insistência de seus alunos, o professor prefere manter um distanciamento, que considera saudável: “O simples ato de não querer adicionar um aluno no Facebook poderia ser entendido de forma errada e gerar um clima ruim. Como existe uma curiosidade muito grande nessa rede social, prefiro manter a comunicação institucional e não ter perfil nela”.

 

O uso do site de relacionamento com intuito profissional é o mais recomendado, segundo Dárcio Namaro, advogado e consultor em desenvolvimento profissional. Para ele, as pessoas têm de se adaptar à modernidade, que exige o uso das ferramentas sociais online, mas de forma correta: “Vejo que muita gente compartilha apenas o que gosta, e esquece de divulgar aquilo que os outros querem saber delas. É preciso quebrar esse paradigma e deixar de publicar assuntos íntimos, passando, então, para notícias construtivas, vinculadas ao trabalho”, diz Namaro.

 

O perfil se torna, então, mais atraente para os demais usuários e também para empresas que estão de olho no Facebook, em busca de profissionais mais adequados às suas expectativas. Além disso, muitos esquecem que o uso da rede social pode afetar o relacionamento com a empresa em que está trabalhando. “Deve-se evitar falar mal de outro colega ou de outras empresas. Costumo comparar esse site de relacionamento a uma faca. Se usada corretamente, é uma ferramenta de força incrível. Mas tal qual o utensílio da cozinha, pode ser um instrumento de ameaça e até de crime”, explica Namaro. Ou seja, o que se coloca na internet acaba sendo um espelho do que se faz na vida real. “É um meio de se criar uma espécie de portfólio e conseguir oportunidades profissionais”, diz o consultor.

 

Curiosamente, pesquisa realizada pelo Boston Consulting Group, no início deste ano, apontou que 12% dos internautas brasileiros preferem se dedicar à internet a ter relações sexuais. O fascínio das redes sociais também faz com que 8% deles prefiram checar comentários de amigos nos seus perfis do que tomar banho. Se por aqui o mundo virtual está querendo se sobrepor ao real, na China a mesma pesquisa mostrou que 36% dos entrevistados não acham problema deixar de fazer sexo para usar a rede mundial de computadores.

 

 

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