Cadê a calçada?

por Arnaldo Viana 06/06/2012 14:43

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Paulo Márcio, Eugênio Gurgel
Planalto, região norte - Antônio Evangelista, 89 anos, na avenida Último de Carvalho (foto: Paulo Márcio, Eugênio Gurgel)

Fabrício Rodrigues Fernandes, 26 anos, interrompe a corrida no calçadão da orla da lagoa da Pampulha e tira os fones do aparelhinho de última geração depois de ouvir a notícia: em matéria de melhores calçadas, Belo Horizonte é a segunda capital do país; só perde para Fortaleza. Olha para baixo e vê um buraco de tamanho razoável causado pela ausência de uma dúzia ou mais de pedrinhas de calcário, a chamada pedra portuguesa. Logo à frente está uma cratera redonda, onde residia uma árvore. No meio, um anel de aço, para proteção da espécie retirada dali por uma necessidade qualquer. A peça sugere uma armadilha, daquelas de prender o pé da caça.

 

O rapaz leva um susto. Pensa tratarse de pegadinha. Não, não era. A informação é séria, ou, pelo menos, supostamente séria. Vem do portal Mobilize Brasil, autor de uma pesquisa feita em 12 cidades, entre janeiro e abril, sobre a qualidade das calçadas brasileiras. E está lá, em número, gênero e grau: BH só perde para Fortaleza, a capital cearense. “É sério, então?”, questiona Fabrício. É. De acordo com o levantamento, a cidade dos botecos e das montanhas maltratadas, adorada em prosa e verso por Roberto Drummond, é vice-campeã em calçadas de qualidade. “De jeito nenhum!”, reage o moço, um motoboy viciado em buscar nas corridas no entorno de 18 quilômetros da lagoa a forma ideal para costurar o lambançado trânsito da cidade.

 

“Já vi muita gente tropeçar em buraco aqui na orla e cair. A última vítima foi uma moça. Para sorte dela, foram só alguns arranhões no cotovelo”, conta Fabrício. Ele se assustou mais ainda ao saber: os locais pesquisados foram Pampulha, centro, região da Savassi, Boulevard Arrudas e o bairro Mangabeiras. Com cuidado, nossa equipe saiu por aí para verificar se a pesquisa do portal tem fundamento ou não, porque os relatos de tropeções e quedas são muitos. O Pronto-Socorro do Hospital João XXIII, para onde corre a maioria das vítimas de tombos, não tem uma estatística específica. Os números de lá se referem a quedas em geral e só nos primeiros quatro meses do ano foram 912 atendimentos de pessoas que caíram da própria altura, ou seja, sem estar propriamente em lugares altos.

 

 Região central de BH - No coração da cidade: corrida de obstáculos na avenida Afonso Pena com rua Tupinambás
 

 

Mas, pelos atendimentos em outros hospitais, nos quais há a possibilidade de se medir a quantidade de pacientes vítimas de queda, dá para se tem uma ideia aproximada do número de pessoas lesionadas por tombos em calçadas. O ortopedista Luiz Fernando Machado Soares, do Hospital Madre Tereza, fala em 10 atendimentos por mês só na unidade na qual presta serviço. Multiplicando isso por todos os hospitais de BH e levando em consideração que o João XXIII recebe muito mais pacientes, dá para se ter uma idéia de que a coisa é feia. Luiz Fernando, é claro, às voltas com os traumas causados por quedas, não concorda com a pesquisa. “Se a avaliação foi feita na porta do Palácio da Liberdade, sim. Caso contrário, não”.

 

De acordo com o ortopedista, as principais lesões causadas por quedas em calçadas são entorse e fratura do tornozelo. Em idosos, é comum a fratura do colo do fêmur. “Em dias de chuva, é pior, e as mulheres de salto alto correm grande risco.” E é bom lembrar: calçada não existe apenas nos locais visitados pela pesquisa. E não raramente, bem maltratadas. Que o diga a dona de casa Rosa Margarida Silva Carneiro, 60 anos, mãe de três filhos. Ela caiu na rua Gabriela Varela, no bairro Jardim Guanabara, região norte, onde mora. Foi atendida no Madre Tereza. Rosa voltava do consultório de um especialista em acupuntura. Fora buscar nas agulhas o equilíbrio espiritual e o alívio para algumas dores. “Na calçada, pisei em um degrau malfeito e caí. Sofri lesões graves no punho e no cotovelo esquerdos.” O acidente foi em 17 de abril e ela ficou mais de um mês longe das tarefas domésticas.

 

“Avaliar locais contemplados com investimentos recentes, como a Savassi e o Boulevard, é fácil. Fizemos um trabalho recente em Venda Nova e ficamos impressionados com a má qualidade das calçadas”, destaca a arquiteta Cláudia Pires, do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que conhece BH como a palma da mão e ficou tão intrigada com a notícia quanto o motoboy Fabrício Rodrigues A falta de cuidado é geral: dos donos de imóveis, responsáveis por suas próprias calçadas como manda a lei; das concessionárias de serviços de telefonia, água e luz; e da prefeitura, à qual é delegado o dever de zelar pelo passeio público.

 

Para ela, as concessionárias, então, abusam das calçadas. Atuam à margem da lei e fazem uma péssima reposição do material quando fazem algum serviço. Cláudia Pires não sabia da pesquisa. Portanto, não tem conhecimento de como ela foi feita, da metodologia aplicada. Mobilize Brasil, autor do levantamento, consultado por e-mail (única forma de comunicação com o portal), não deu a mínima às perguntas até o fechamento desta edição. Então, restou à Encontro sair por aí para saber quem está com a razão. Viu, ouviu e fotografou horrores. Não há, evidentemente, como mostrar tudo. Apenas alguns exemplos.

 

Savassi, região centro-sul - Desmazelo e gambiarra: quebra-molas para pedestres na Getúlio Vargas com Tomé de Souza
 

 

Bem perto da casa de Rosa Margarida há a movimentada e perigosa avenida Deputado Último de Carvalho, bairro Planalto, região norte. Do lado contrário do número 200, onde deveria haver um passeio, há quase um precipício. Por lá passa diariamente Antônio Evangelista Lemos, equilibrando-se sobre os seus 89 anos para não cair. Ele desabafa: “É uma falta de consideração com o cidadão.” Do lado contrário vem Camila Souto, 22 anos, com o filho de dois anos e meio no colo: “Não há como andar por aqui com o carrinho do menino”.

 

Bom. E as calçadas portuguesas? Na Pampulha, o encontro com Fabrício Rodrigues no seu exercício diário na avenida Otacílio Negrão de Lima: “Não dá para contar os buracos e armadilhas na orla da lagoa. São muitos.” E o centro? Para se chegar à Praça Sete, é preciso andar e correr riscos. O vendedor Rodrigo Bruzzi, 36 anos, sobrinho da veterana atriz Íris Bruzzi, ainda em cartaz por aí, escapou de um buraco de um metro quadrado na esquina da avenida Afonso Pena com rua Tupinambás, aberto por uma concessionária e deixado à mostra, sem proteção. Driblou dois ou três buracos na avenida, um deles com o toco de uma árvore abatida, bom para um tropeção.

 

Mas não conseguiu escapar de um buraco na calçada da rua São Paulo. O bico do tênis de Rodrigo se chocou com uma das pedrinhas portuguesas e ela voou longe. “Como os donos dos imóveis não consertam, a prefeitura deveria consertar”, diz ele, indignado. Na região da Savassi, o desmazelo é evidente. Se um cadeirante se aventurar agora a ir da Praça ABC à Praça Diogo de Vasconcelos (ou Diogo Vasconcelos, como reza a lustrosa placa instalada depois da remodelação), vai chegar amanhã. Há muitos obstáculos. Até mesmo um grosseiro quebra-molas na esquina da avenida Getúlio Vargas com a rua Tomé de Souza.

 

Rosa Margarida, 60 anos: "A queda me deixou um mês afastada"
 

 

Calma. Não é um redutor de velocidade para cadeirantes. Trata-se da gambiarra de uma empreiteira para levar água de um hidrante à obra de reconstrução do muro da Escola Estadual Barão do Rio Branco. Uma proteção de cimento para uma mangueira, que se eleva apoiada em um grotesto arco de madeira sobre a rua. Coisa feia para uma cidade que espera 500 mil turistas na Copa do Mundo de 2014. Cruz credo. No entorno da Praça da Savassi estão os piores exemplos de como as concessionárias de serviços públicos tratam as calçadas.

 

Liana Vale é gerente regional de Projetos Ubanos de Requalificação do Hipercentro e da Região Cento-Sul de BH. Sabe tudo de calçada portuguesa, adotada na capital lá pelos anos 1920. Primeiro para cobrir a Praça da Estação. Na época, a prefeitura importou calceteiros portugueses especialistas nas pedrinhas. Eles herdaram a técnica dos mosaicos dos árabes, quando eles não tinham nada melhor a fazer do que passear em invasões pela Europa. Não se sabe se os calceteiros vieram de Lisboa ou do Rio de Janeiro, porque os cariocas já brincavam de dar formas às suas calçadas.

 

 

 

A arte do mosaico com a pedra portuguesa (calcário), segundo Liana, permite a reprodução nas calçadas de desenhos referentes a diferentes estilos de época. Interessante quando bem-cuidadas – o que não é o caso. A demanda da arte da calcetaria vem tanto do serviço público quanto do setor privado da construção civil. E durante um certo tempo, a reposição ou a recomposição das calçadas portuguesas em BH ficaram comprometidas. “Quando houve uma recessão na construção civil na capital, os calceteiros debandaram para outras áreas. Agora, com o reaquecimento do setor, eles voltaram ao ofício”, diz Liana.

 

Mesmo assim, a cidade tem carência dessa mão de obra para cuidar dos passeio públicos. O mesmo ocorre com as concessionárias de serviços essenciais. A demanda é alta. Tanto assim que a prefeitura, em convênio com o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, treinou, recentemente, uma turma de pelos menos 15 trabalhadores na arte da calcetaria. Mesmo assim, são poucos, e a fiscalização para acompanhar os remendos feitos pelas prestadoras de serviço são poucos, como reconhece Liana. E deixa a entender que a fiscalização não é onipresente. Não tem como estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

 

Segundo ela, as concessionárias são orientadas a seguir o padrão da calçada na recomposição, depois da instalação de uma caixa ou por outra necessidade qualquer. Mas e quando isso não ocorre? E quando o serviço é malfeito?  Comum ver as pedras se soltarem, deixando armadilhas para o cidadão. “Ao ver uma irregularidade na calçada, basta a pessoa ligar para o 156. Denunciar é prestar um serviço à comunidade”, diz Liana. Difícil é acreditar que o tal serviço funciona mesmo. Taí um bom teste para os insatisfeitos com a qualidade das calçadas de BH. Linha congestionada? Pode preparar a paciência.

 

 

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