A cortada que vem de Minas

por Renan Damasceno 13/06/2012 14:44

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O time campeão da Superliga 2012: Cruzeiro montou, em apenas três anos, um grande time para vencer
O time campeão da Superliga 2012: Cruzeiro montou, em apenas três anos, um grande time para vencer (foto: O time campeão da Superliga 2012: Cruzeiro montou, em apenas três anos, um grande time para vencer)

Os gritos de “caipira” ecoavam pelo Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, tornando quase inaudíveis as instruções do técnico sul-coreano Young Wan Song, que orientava os jogadores do Minas Tênis Clube à beira da quadra, num dialeto que misturava espanhol e português. Do outro lado, os assobios e provocações refletiam a euforia dos 20 mil torcedores, que já decretavam a equipe carioca da Atlântica, base da Seleção Brasileira, campeã nacional de vôlei masculino. O dia: 22 de janeiro de 1985. Os mineiros, apaixonados pelo esporte e acostumados às conquistas, sabem que é preciso guardar bem esta data, pois foi o momento em que Minas Gerais entrou definitivamente para o mapa do voleibol.

 

Pouco mais de 27 anos depois, no dia 21 de abril deste ano, o Cruzeiro conquistou o título da Superliga Masculina ao vencer o paulista Vôlei Futuro por 3 a 1, trazendo de volta o troféu de campeão que estava há cinco temporadas longe das Alterosas. Foi o oitavo título de um time mineiro e o primeiro não conquistado pelo Minas Tênis Clube, duas vezes tricampeão (1984-1986 e 2000-2002) e que venceu pela última vez em 2007.

 

Apesar de ter vencido apenas duas vezes nos últimos 10 anos, Minas Gerais esteve presente nas últimas oito decisões da competição entre homens. Os resultados positivos ajudaram a lotar as arenas e o esporte ganhou mais espaço nas rodas de discussão. “Mineiro é apaixonado, entende do jogo. E esse amor é movido a títulos. Eu fui motivado pela geração campeã na década de 1980, e creio que as últimas conquistas vão influenciar as próximas gerações. O vôlei está no DNA dos mineiros”, afirma o líbero Serginho, recordista de finais da Superliga (nove), tricampeão com o Minas e vencedor com o clube celeste.

 

Pelé, o grande herói do tricampeonato do Minas, hoje auxiliar

técnico: “Eu tinha de matar um leão por dia”

 

 

A continuidade do domínio do voleibol mineiro no país passa pelos saques e ataques potentes dos celestes Maurício e Wallace e do minas-tenista Ricardo Lucarelli. Convocados pelo técnico Bernardinho para a Liga Mundial, os três são as principais armas ofensivas de suas equipes. Aos 20 anos, Lucarelli foi uma das revelações da Superliga, ajudando o Minas a ficar em terceiro lugar. Ele ficou feliz por ser convocado. “A expectativa é a melhor possível”, comentou o jogador, que terá de cavar sua vaga no meio de gigantes como Giba, Murilo e Dante. Além dele e do central Otávio, o Minas prepara uma nova safra vinda da base.

 

Já Maurício foi a cereja do bolo para o Cruzeiro chegar ao título, depois de ser vice-campeão na temporada anterior. Nascido em Maceió, mas revelado pelo Minas, o ponteiro de 23 anos foi a única aquisição de peso do time celeste, que conta com uma base sólida, sem estrelas. O destaque da equipe é o oposto Wallace, também convocado por Bernardinho. Servidos pelo levantador William e ao lado dos experientes Douglas Cordeiro, Acácio, Filipe e Serginho, formaram um ataque temido, que ajudou o Cruzeiro a fazer a melhor campanha da fase de classificação (16 vitórias e seis derrotas) e atropelar os rivais na fase final.

 

Na última edição da Superliga, foram cinco representantes mineiros entre os 12 times no masculino – Cruzeiro, Minas, Olympico, Montes Claros e UFJF (Juiz de Fora) –, e três no feminino – Minas, Mackenzie e Praia Clube (Uberlândia).

 

O técnico coreano Young Wan Sohn, que deixou saudade: ele trouxe um novo estilo de comandar e dirigiu o Minas no tricampeonato nos anos 1980
 

 

A identificação do mineiro com o vôlei é tão grande que ela não se resume a BH. Em 2010, quando o Montes Claros chegou à final em seu ano de estreia, a média de público do Pequi Atômico foi de 5,5 mil torcedores. Na última edição, o novato UFJF precisou trocar de casa para abrigar mais torcedores, que lotaram o Ginásio do Tupynambás (cerca de 2 mil lugares). Há 50 anos, quando a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) organizou a primeira competição de clubes, a Taça Brasil, a realidade era diferente.

 

Ainda na fase do amadorismo, o vôlei mineiro comemorou o primeiro título em 1964, no mesmo ano em que o voleibol foi incorporado ao calendário olímpico. O time de Belfort, Pavão, Urbano, Décio Viotti, Clésio Dolabella e Nelson Barteis venceu o Sport-PE na final da segunda edição do torneio. No ano seguinte veio o bicampeonato, com Adolfo Guilherme no comando. Até a extinção do campeonato, em 1976, os minas-tenistas foram vice-campeões em 1968 e 1972.

 

O Minas foi o único clube a representar o estado nas 10 edições da Taça Brasil, que também teve a presença de Sete Lagoas (1974) e Juiz de Fora (1975). O vôlei passou a se profissionalizar com o Campeonato Brasileiro a partir de 1976. Em 1980, o Atlético, do presidente Elias Kalil, montou uma forte equipe, com Pelé, Helder, Cacau e Luiz Eymard, reforçados por jogadores da Seleção Brasileira, como Badalhoca e José Roberto Guimarães, treinados por Radamés Lattari. O departamento de vôlei, chefiado pelo atual mandatário alvinegro, Alexandre Kalil, foi extinto em 1983, conquistando quatro títulos estaduais e um terceiro lugar no Nacional.

 

 Serginho e Filipe, dois dos grandes jogadores do Cruzeiro na temporada: um ataque que fez a equipe atropelar os rivais
 

 

Hélder, Henrique Bassi, Pelé, Cacau, Zé Eduardo e Elberto (heróis da conquista de 1984) formavam uma geração talentosa, mas ainda sem título. Tudo mudou quando um coreano, pacato e disciplinador, revolucionou o jeito de o mineiro ver o voleibol. Young Wan Sohn, que morreu no ano passado, chegou ao Minas em 1983. Aos poucos, mudou a rotina: dispensou veteranos para trabalhar melhor os jovens, implantou treinos em dois períodos e introduziu a ginástica olímpica.
No entanto, foi o trabalho psicológico o que mais influenciou os atletas mineiros. “O Sohn, tecnicamente, não fez tanta diferença, mas o trabalho psicológico nos tornou gigantes. Ele falou que éramos melhor que Renan, Bernard e Montanaro, e nós acreditamos. Era um grupo tão unido e confiante que, se ele falasse para os jogadores pularem de cabeça em uma piscina vazia, a gente pulava”, lembra Pelé.

 

A vitória sobre a Atlântica foi uma batalha de 4 horas e 15 minutos. O favoritismo era todo da equipe carioca, de Bernardinho, Bernard, Castellani, Martinez, Rui e Badalhoca, ainda mais depois de abrir 2 a 0. A torcida delirava a cada saque “Jornada nas Estrelas” de Bernard. Mas a resistência dos mineiros fez a diferença. Após duas horas de jogo, a Atlântica caiu de produção e o Minas melhorou com um sistema de rodízio na rede, deixando o rival desorientado. Venceu os três sets seguintes sem deixar a Atlântica chegar aos dois dígitos no placar: 15/9, 15/6 e 15/9.

 

 

 

“Marcou muito ver -Bernard e Bernardinho sentados no meio-fio chorando pela derrota”, lembra Pelé. Filho de um ferroviário com uma lavadeira, José Francisco Filho foi o herói do tricampeonato do Minas, que chegou ao título nos dois anos seguintes. Negro, recebeu o apelido de Pelé logo na infância. Vencer Pirelli e Atlântica era fichinha perto dos adversários que Pelé teve de driblar na vida. Aos 5 anos perdeu o pai, vítima de alcoolismo. Dos 6 aos 12 anos, foi interno da Febem e, aos 16, já trabalhava como trocador de ônibus. Para acompanhar a irmã, que treinava vôlei no Olympico, ia a pé de Santa Tereza até a Serra. Enquanto esperava, brincava de manchete e passe. Foi tomando gosto e, aos 21 anos,  era destaque da Seleção Brasileira de Novos. "Fui o primeiro negro a jogar no Minas. Eu tinha de matar um leão por dia", conta o ex-jogador, hoje com 54 anos, auxiliar técnico da equipe principal do Minas.

 

Passa por Minas Gerais a história vitoriosa da Seleção Brasileira. No ouro da Olimpíada de Barcelona’1992, os mineiros foram representados pelo itabirano Talmo e o juiz-forano Giovane. No bicampeonato, em Atenas’2004, subiram ao degrau mais alto do pódio Anderson (Contagem) e André Nascimento (Juiz de Fora), além de outros atletas que fizeram história no segundo tricampeonato do Minas, como Giba, Maurício e Dante. Henrique foi cortado às vésperas do Jogos Olímpicos, mas sua camisa subiu ao pódio empunhada pelo amigo André Nascimento.
Na Seleção Brasileira Feminina, atual campeã olímpica, quatro mineiras conquistaram o ouro: Sheilla Castro, revelada pelo Mackenzie, Walewska (ex-Minas), Fabiana, campeã da Superliga em 2002, e Sassá, de Barbacena. Na década de 1990, Minas cedeu várias atletas que ajudaram a fortalecer o esporte entre as mulheres. Do time campeão da Liga Nacional em 1993 despontaram Ana Flávia, Hilma e Arlene. No título de 2002, Érika e Fabiana.

 

Minas Gerais já tem candidatos a ídolo para as próximas Olimpíadas. No feminino,  Gabi, de 17 anos, trocou o Mackenzie – que brilha no vôlei desde a década de 1960 –, pelo Rio de Janeiro, de Bernardinho, e segue os passos de Sheilla. “Sempre me espelhei na carreira dela", conta Gabi, que enfrentou sua inspiradora na última Superliga.

 

Entre os homens, o Minas prepara uma nova safra. Dois jogadores foram fundamentais para levar o time de Marcelo Fronckowiak ao terceiro lugar brasileiro. Além de Lucarelli, outro destaque é o meio de rede Otávio, 21 anos, presença constante na Seleção de Novos. Assim como a história de outros jogadores, o garoto de família humilde passou por dificuldades, viajando todos os dias, de Esmeraldas a Belo Horizonte, para treinar. Apontado como uma das revelações da última Superliga, o central que sonha em comprar um caminhão para o seu pai, Otaviano Donato, almeja um lugar entre os grandes nomes do vôlei. “É uma vitória ter chegado até aqui, conquistado o meu espaço. O vôlei mudou minha vida e da minha família desde que cheguei ao Minas, com 14 anos. É um orgulho ser mineiro, receber o carinho da torcida e representar o estado Brasil afora.” 

 

 
 
 

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