Tribo pé-de-serra

por Pabline Félix 12/07/2012 11:10

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Leo Araújo
Flávia Martins e Leonardo Debossan, no Forró do Seis Pistas (foto: Leo Araújo)

Basta que o som da zabumba, do triângulo e da sanfona comece a soar para que os forrozeiros de plantão se mostrem prontos para gastar o solado do sapato nas diversas casas de dança de Belo Horizonte, de segunda a segunda. Os forrós – termo que serve para identificar tanto o gênero musical quanto as festas em que se toca esse tipo de música – são tão numerosos na capital que há pelo menos uma opção de diversão voltada a esse público por dia da semana, feito do qual poucos ritmos podem se gabar.

 

E com as temperaturas mais baixas, dançar a dois se torna um programa ainda mais agradável, o que não impede que, mesmo no verão, os bailes lotem. É que a principal variação na frequência desse público se relaciona mais à época de férias do que propriamente ao clima, fruto da presença maciça dos universitários entre os frequentadores. “Temos uma média de 400 pessoas aos domingos em épocas normais. Já nas férias, alcançamos facilmente a lotação, que é de 600 pessoas, e precisamos trabalhar com o esquema do rodízio”, diz Hélio Braga, gerente do Observatório, que há oito anos organiza um dos mais famosos forrós de domingo.

 

Se hoje a cara do forró é jovem, essa mesma observação não poderia ser feita, por exemplo, no início dos anos 1990, quando o ritmo chegou com força total ao sudeste. É que o perfil dos praticantes da dança de salão mudou drasticamente nas últimas duas décadas, muito por conta do próprio forró. “Havia muito preconceito com esse tipo de dança, que era vista como ‘programa de velho’. O surgimento do forró universitário contribuiu muito para esse rejuvenescimento da dança de salão, o que beneficiou não só a mim, como a todas as escolas e casas especializadas em Minas, São Paulo, Rio...”, afirma Fátima Ramos, dona da 7 e 8 Dança de Salão, na Savassi.

 

“Piolha” de forró, a estudante Ana Clara Vasconcelos não perde um domingo no Observatório: “Para mim, é quase religioso”, conta, antes de mostrar o que sabe junto ao par Pablo Moreno
 

 

Leonardo Debossan, de 25 anos, já foi um desses jovens com pouca intimidade com o ritmo. Oito anos depois da primeira visita, feita a convite de um amigo, ele conta que passou a entender mais da cultura da dança e perceber que ela não tinha nada de ‘senhoril’, como definia. “Eu não gostava de forró, era muito mais de curtir pop rock. Vim a primeira vez porque um camarada insistiu. Mas gostei e vim uma segunda vez, e uma terceira... Não deu para parar de vir. Hoje, eu sou frequentador assíduo e vejo no forró uma expressão popular ímpar”, define.

 

Ana Clara Vasconcelos, de 21 anos, dança forró desde os 15 e conta que desde que pôde passar a frequentar os forrós [a maioria só permite a entrada de maiores de 18 anos] tornou-se uma “piolha do ritmo”: “Para mim é quase religioso; todo domingo estou aqui. Fiz amizade com o pessoal, conheço do pessoal da portaria até o dono, então é uma coisa que, além de me divertir, me relaxa. Não perco por nada”, diz.

 

Outra mudança importante no cenário do ritmo da capital diz respeito à sua localização. Hoje, quase todas as casas de dança estão em regiões elitizadas, como o entorno da Raja Gabaglia e o trevo entre Belo Horizonte e Nova Lima, no bairro Vila da Serra. O único representante no centro, região que abrigou os primeiros bailes em locais como Café São Jorge, Montanhez, Estrela, Elite e Recanto da Seresta, é o Forró da Borboleta, organizado há menos de um ano no Mercado das Borboletas. Para o DJ Fred Lavorato, profundo conhecedor do forró ‘mineiro’ e coordenador do Projeto Juazeiro, que há 13 anos reside no Flashback, na Savassi, a migração dos forrós para a zona sul reflete, em muito, o perfil do público que costuma frequentar esses eventos. “Não há nenhum tipo de preconceito. Na pista, todo mundo é igual. Mas, pela distância e dificuldade de acesso mesmo, os eventos estão ficando mais frequentados por pessoas mais ricas. Outro ponto é que a maioria das casas de shows da cidade está nessa área, não temos muita escolha. Nossa cidade ainda é muito carente de espaços”, diz.

 

Fred Lavorato, organizador do Projeto Juazeiro, no Flashback: “A gente constrói uma cena forte com trabalho duro”
 

 

Mas, para o forró, parece que não há espaço que dê conta. Apesar da variedade de programações, em junho mais um bar passou a contar na agenda semanal do estilo musical: a Marriah, no Santa Lúcia; e em julho, haverá mais uma: a Granfinos, no Santa Efigênia, passará a ocupar a lacuna da terça-feira, até então o único ‘dia morto’ para o ritmo.

 

E se o contato físico é o que se destaca para quem chega pela primeira vez no forró, saiba que isso não significa oportunidade para ‘pegação geral’. “A azaração é muito diferente. Ao contrário do que pensam os não iniciados, o clima é bem mais tranquilo. Se um cara se interessa por uma menina, vai ter de pedir para dançar, ir com calma, conversar bastante e ver se rola ou não. Não tem aquela de ir pegando, como nas outras baladas. Geralmente você sai daqui amigo da outra pessoa”, explica Nicole Costa, de 26 anos, amante de forró desde os 13.

 

Ela esclarece também que não há problema algum que pessoas acompanhadas dancem com outros parceiros, fato que, em outro ambiente, certamente seria motivo para briga. “Quem não é do meio não entende muito bem como isso funciona, mas é verdade: não importo que meu marido dance com outras meninas, nem ele se importa de me ver dançar com outras pessoas. Não tem nada a ver: chamar para dançar é uma coisa, ‘chegar’ é outra, e quando a pessoa está mal intencionada, fica muito claro. É fácil rejeitar”, afirma, com propriedade de quem frequenta forrós sempre na companhia do esposo, Ardyson Carvalho, um dos organizadores do Minas Roots (veja box).

 

Alexandre Ramos, mais conhecido como Gelatina: há 18 anos ele anima a cena do gênero na cidade
 

 

Para Carlos Azevedo – o DJ Du Azevedo, dono do Ziriguidun e frequentador de forrós desde o início do movimento –, esse tipo de festa é, hoje, dos mais tranquilos. “O que vejo é que em outras casas o pessoal bebe muito e dança pouco, enquanto em casas de forró bebe pouco e dança até doer o pé. Tenho uma filha pré-adolescente e, se pudesse escolher, preferia que ela fosse se divertir ali, porque sei que é uma moçada pacata. Todo pai devia ficar sossegado ao saber que os filhos estão no forró”, diz.

 

Brigas, também, são exceção nesses locais. Alexandre Ramos, um dos mais experientes professores de dança de BH e mais conhecido pelo apelido de Gelatina, conta que nunca viu uma ocorrência desse tipo: “Há sempre os visitantes, mas há também a galera que está toda semana aqui. O pessoal se conhece e, quem não conhece, basta estar disposto a conhecer. Garanto que ninguém sai daqui sem fazer amigos. Por isso, arrumar confusão é uma coisa muito difícil. Se rolar, é de gente que não sabe nada do forró, e sempre fora das casas”, relata.

 

O clima também é amistoso entre os organizadores. É comum encontrar donos e produtores de outras casas em bailes “concorrentes”, justamente porque a disputa por clientes quase não acontece nesse tipo de evento. “É cada um em um dia, então podemos aproveitar as outras casas nos outros dias. Não tem muita competição, é mais na base da amizade”, acredita Fernando Evangelista, dono da Casa, no Santa Efigênia, única opção na segunda-feira. Uma prova disso é a presença de Fred Lavorato, do Projeto Juazeiro, na festa junina especial organizada no Forró do Seis Pistas, que acontece às sextas-feiras: “A gente tem uma política superamigável. Foi tão difícil consolidar essa cultura em BH que a gente prefere trabalhar em conjunto. Frequento outras casas, divulgo os eventos e vice-versa. É essa parceria que faz o forró sobreviver em Belo Horizonte”, conta.

 

Se, no futebol, quem não sabe jogar ‘esquenta banco’, no forró, como geralmente não existem cadeiras no salão, os mais inaptos ou tímidos acabam ‘esquentando pilastra’. Para que isso não aconteça, aqui vão algumas dicas dos entendidos: “Coragem; não tem outro jeito. Sabendo ou não sabendo, é só na pista que vai ser possível melhorar”, decreta o professor Gelatina, que avisa que é normal se perder entre as contagens do ritmo nas primeiras vezes. “As meninas certamente vão encontrar rapazes que saibam conduzi-las. Temos muitos professores de forró frequentando as casas. Já os meninos, é bom saber pelo menos o básico”, avisa.

 

As amigas Débora Dias e Camila Fernandes, no Observatório do Vila da Serra: “Aqui tem um pessoal muito bonito, gente boa, animado para conversar”, diz Camila
 

 

Se esse não é o seu caso, não desanime: atualmente, o número de escolas de dança de salão, categoria em que se enquadra o forró, é enorme. É possível encontrar em qualquer bairro, e com opção de escolha. “As academias de dança cresceram muito e se multiplicaram por causa do gênero. É um ritmo que cativa, então todo mundo quer aprender. O público cresceu e cresce muito. É uma das aulas mais procuradas na escola, junto com o samba e o zouk”, diz a professora Fátima Ramos.

 

E mesmo quem não é adepto da dança pode aproveitar as festas. “Aqui dá um pessoal muito bonito, gente boa, animado para conversar. Sempre que vou embora, o meu plano é voltar na semana que vem! Dá para conhecer muita gente interessante”, define Camila Borges, de 23 anos, que frequenta regularmente o Observatório com a amiga Débora Dias.

 

 
 

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