Ônibus de primeira classe

por Vicente Cardoso Jr. 17/07/2012 12:52

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Leo Araújo, Eugênio Gurgel, Divulgação
O sociólogo Rudá Ricci ( à esq.), que usa o ônibus para ir ao Rio e a São Paulo toda semana (foto: Leo Araújo, Eugênio Gurgel, Divulgação)

Recostado no conforto da poltrona, o sociólogo Rudá Ricci gosta de ler até o sono vir. Quando as pálpebras começam a pesar, apaga a pequena luminária portátil e adormece. Os olhos fechados, ainda nas proximidades de Belo Horizonte, só se abrem em São Paulo, após atravessar a madrugada e os cerca de 600 quilômetros que separam as duas cidades. A cena se repete quase semanalmente, nas frequentes viagens a trabalho que Rudá faz à capital paulista e ao Rio de Janeiro, a bordo do ônibus tipo leito. “Trago minha matula: livro, luminária, caderno, um lanche... Mas, depois que durmo, não vejo nenhuma parada”, conta. O estresse com os voos e atrasos frequentes já o fizeram desistir do avião há muito tempo. 

 

Não é novidade que o crescimento do poder econômico do brasileiro fez muitos passageiros habituais dos ônibus serem seduzidos pelas empresas de transporte aéreo. No entanto, o transporte rodoviário de passageiros também foi beneficiado pela ascensão da economia. “A classe C passou a viajar mais de avião, mas também entre as classes C e D aumentaram as viagens de ônibus”, afirma Paulo Anselmo, gerente de vendas da Gontijo.

 

Há quem não troque a pontualidade e o conforto do ônibus pelos risco de longas esperas nos aeroportos, muitas vezes distantes. Para manter esse público fiel e ainda expandi-lo, as empresas de transporte rodoviário têm investido em novos serviços e promoções – muitos deles inspirados em estratégias do setor de transporte aéreo. E o apelo tem funcionado: levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros mostra que a satisfação dos usuários de transporte rodoviário intermunicipal e interestadual cresceu de 4 para 4,5 entre 2000 e 2010, numa escala de 1 a 6.

 

Para o diretor executivo da Viação Cometa, Anuar Helayel, o setor aéreo não chega a ser considerado um concorrente, já que muitos de seus trajetos não são realizados pelas empresas de aviação. Segundo Anuar, a estratégia da empresa estaria baseada em dois fatores que se completam: “Os passageiros buscam não somente preços justos e boas condições de pagamento, mas também conforto durante a viagem”, destaca.

 

O empresário Giuliano Laucas gostou de viajar de BH a São Paulo: “Nem era um ônibus leito e a poltrona é infinitamente melhor que a do avião”
 

 

Os dois conceitos são aliados, em diferentes níveis, no novo veículo GTV, lançado no ano passado e que faz a linha São Paulo-Curitiba. Quem prioriza conforto pode escolher uma das nove poltronas dianteiras, do tipo leito, numa espécie de primeira classe, tradicional nos aviões. Quando a opção for por maior economia, 24 lugares do tipo executivo completam o veículo, que oferece ainda serviços de televisão, DVD e frigobar.

 

Para o professor de administração da UFMG e da Fumec Carlos Alberto Gonçalves, por mais que as empresas de ônibus reinventem seu marketing, sempre terão um fator externo que não podem controlar: as estradas, que no Brasil são um grande ponto desfavorável para o transporte rodoviário. “O principal atrativo ainda é o preço, que tem de ser no máximo metade do avião para conseguir competir”, avalia o professor. Além disso, ele aposta na necessidade um marketing misto, que alie conforto, preço, logística e ganho de tempo.

 

Um dos novos diferenciais que algumas empresas têm buscado oferecer são as salas VIP nas rodoviárias, espaço exclusivo onde o cliente pode esperar seu ônibus em assentos mais confortáveis e com ar-condicionado, televisão, revistas e água disponíveis. Belo Horizonte ganhou sua primeira sala VIP há poucos meses, da Viação Útil. Como a concorrência tem se acirrado principalmente nas linhas de longa distância, a Útil também já fez uma experiência com rodomoças (inspiradas nas aeromoças) e serviço de bordo em seu trajeto mais extenso, do Rio de Janeiro a Brasília. No entanto, retirou o serviço em menos de um ano, alegando pouco retorno dos passageiros. “A maioria não via grandes vantagens, já que dormia boa parte da viagem e preferia se alimentar nas paradas”, avalia o gerente de marketing da Útil, Luiz Carlos Jardim.

 

Anuar Helayel, da Viação Cometa: novas estratégias para aumentar o número de passageiros e a quantidade de viagens
 

 

As promoções de passagens aéreas, cada vez mais atraentes, foram sem dúvida as principais responsáveis pela migração de alguns passageiros do transporte rodoviário para o aéreo. No entanto, Luiz Carlos Jardim ressalta a limitação dessas ações promocionais. “São poucos assentos disponibilizados, fora a necessidade de comprar com semanas de antecedência. De maneira geral, os ônibus ainda são bem mais baratos”, destaca. Além disso, as empresas também têm apostado em políticas semelhantes: “Nós estimulamos a compra antecipada por meio de promoções, pois isso nos ajuda em termos operacionais. Se um ônibus lota três dias antes, posso disponibilizar outro carro facilmente”, explica Jardim.

 

Com o acirramento do mercado, a informatização do sistema de vendas tornou-se inevitável. “Enxergamos que era preciso facilitar a compra de passagens de conexão ou retorno antecipadamente”, explica Paulo Anselmo, da Gontijo. A criação de programas de fidelidade, como o cartão de crédito próprio lançado pela Viação Cometa, também mostra que estratégias comuns no setor aéreo estão sendo incorporadas.

 

Sala VIP da Útil na rodoviária de BH: assentos confortáveis, ar-condicionado, televisão, revistas e água para quem vai viajar pela empresa
 

 

Mesmo com tantas ações e serviços inovadores, poucas vantagens se comparam à praticidade de se comprar a passagem em cima da hora. O empresário Giuliano Laucas, diretor da Cultura Inglesa, se beneficiou disso há menos de um mês, quando seu voo de volta a Belo Horizonte foi adiado indeterminadamente em São Paulo. O ônibus foi a única alternativa para não perder os compromissos do dia seguinte, e não decepcionou: “Foi uma ótima surpresa. Nem era um ônibus leito e a poltrona é infinitamente melhor que a do avião”, diz. Quando precisar novamente, ele já sabe o que fazer. 

 

 

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