Shakespeare à mineira

por Tereza Rodrigues 19/07/2012 14:12

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Encantamento está no script das encenações no Globe Theatre inglês (foto: Divulgação)

Se tem uma coisa que o típico mineiro faz bem é noticiar seus grandes feitos somente quando as cortinas do espetáculo estão prestes a se abrir para a plateia. Não foi diferente com a conquista da chancela do Shakespeare Theatre Association para que a Arte Brasil Produção Cultural, que tem sede em Belo Horizonte, promova em terras mineiras um dos mais ambiciosos projetos de artes cênicas em curso no país.

 

Depois de mais de quatro anos trabalhando para tornar real o “Globe Theatre Brasileiro”, o produtor cultural Mauro Maya, fundador da Arte Brasil e do Instituto Gandarela (criado com esta finalidade), acaba de assinar o convênio que o torna representante da associação shakespeariana na América Latina. “É uma conquista sem precedentes, porque não é simplesmente uma permissão para construir a réplica do teatro fora de Londres. O projeto promove um intercâmbio espetacular entre Brasil e Inglaterra, além de expandir a universalidade da obra de Shakespeare”, explica Maya.

 

De fato, o que a dramaturgia de William Shakespeare permite para a formação do ser humano vai além de um intercâmbio de culturas – e agora esta representação ganha forma em Minas Gerais. A ideia é abrir um “corredor cultural” que circunda a Serra da Gandarela, abrangendo cerca de 25 municípios próximos a BH, e trazer, além de espetáculos teatrais, formação.

 

O diretor Gabriel Villela, com atores do Galpão no ensaio de Romeu e Julieta: “Para nós, Shakespeare é deus, e agora teremos uma capela”
 

 

O projeto tem como frente a construção de um segundo Globe Theatre, previsto para ser inaugurado em 2016, quando serão celebrados os 400 anos da morte do grande mestre do drama. Mas o foco recai, principalmente, em ações que começam a sair do papel já no mês que vem, em agosto: o treinamento de atores, diretores, cenógrafos, iluministas, designers, marceneiros, músicos e administradores de extensões desse universo. Ou seja, a parceria está sendo firmada para dar condições de se produzir por aqui espetáculos tão grandiosos e emocionantes quanto os que podem ser vistos atualmente na terra da rainha – é o que garante Mauro Maya. “Estamos reunindo uma equipe de primeira para fazer jus ao compromisso de oferecer, antes de tudo, qualidade”, diz o idealizador.

 

Segundo ele, ainda estão sendo definidas a programação e a equipe de professores que conduzirá as oficinas na primeira fase (que envolve cursos e apresentações). Representantes da Shakespeare Theatre Association estarão presentes em praticamente todas as etapas do projeto; e, entre os brasileiros, o projeto já conta com a colaboração de nomes como Aimara Resende, Gabriel Villela, Babaya, Orquestra de Ouro Preto e Alceu Valença.

 

Perspectiva do complexo cultural que será erguido em Ouro Preto ou em Rio Acima: o plano é construir teatros e escolas e desenvolver projetos culturais e educacionais
 

 

Paralelamente, está sendo pensada a curadoria para promover em Belo Horizonte, em data próxima à Copa do Mundo de 2014, o festival Globe to Globe, que reúne grupos teatrais de diferentes países para apresentar peças de Shakespeare em suas línguas nativas. “Entraremos em uma rota inédita. Além de receber as companhias que melhor encenam os espetáculos shakespearianos, queremos dar todas condições de despontarem daqui peças imperdíveis também. Por isso a formação não é só para os atores, mas contempla técnicos, figurinistas e toda a equipe que pensa e faz o teatro”, explica Mauro Maya. 

 

O diretor, cenógrafo e figurinista Gabriel Villela (que dirigiu o Grupo Galpão nas duas montagens do grupo da premiada peça Romeu e Julieta) se mostra animado com a ideia e conta que o que está sendo conseguido pelo Instituto Gandarela é bem mais que a conquista de um palco: É uma escola ambiciosa, um conceito renascentista de fazer teatro. O Mauro é parecido comigo, quando põe uma coisa na cabeça vai até o fim”, conta o diretor.

 

O produtor Mauro Maya entre os ingleses Jon Greenfield, arquiteto, e Peter Mccurdy, engenheiro: união de esforços pela construção do Globe Theatre brasileiro
 

 

Ele compara o Globe Brasileiro ao trabalho que é feito na Escola do Teatro Bolshoi, que chegou a Joinville (SC) em 2000 e, ainda hoje, é a única escola do Bolshoi fora da Rússia. “Mudou a completamente a forma de conduzir a formação dos jovens bailarinos no Brasil”, exemplifica. Nas palavras de Villela, o que está vindo para Minas é mais que a arquitetura e a experiência da equipe de um dos teatros mais importantes do mundo, é a transferência de um conceito. “Para nós, Shakespeare é deus, e aqui teremos uma capela”, sintetiza.

 

Arquiteta responsável pela construção da “capela”, a (também) mineira Du Leal esteve por dois meses em Londres estudando de perto as particularidades do Globe. “Para ter a chancela deles, precisamos respeitar regras minuciosas, mas daremos brasilidade ao espaço. Teremos cores nossas, o pau-a-pique, e referências ao barroco”, conta a arquiteta, que planeja um complexo cultural com pelo menos dois teatros – um com 1.500 lugares e outro com 300 – e uma escola.  Também “encantada” com o projeto, Du Leal destaca o que mais a impressionou: “O Globe permite um encontro mais próximo com a plateia. Trará experiências únicas para os atores e para os espectadores”.

 

Ainda não foi definida a localização do teatro maior, que pode ser construído em Ouro Preto ou em Rio Acima, na região metropolitana de BH. A primeira proposta foi para Rio Acima, onde o Instituto Gandarela já conseguiu um terreno de 20 mil metros quadrados. Mas como ambas são consideradas cidades-polo do corredor cultural, o interesse por Ouro Preto também é grande, com a possibilidade de aproveitar o terreno onde antes funcionava a fábrica de tecidos Ouro-Pretana, e devido à infraestrutura já existente na cidade para receber turistas. “Não chega a ser uma disputa; estamos trabalhando várias possibilidades para levantar o complexo, mas o polo de formação está acertado para começar em Rio Acima”, diz Mauro Maya.

 

A secretária de Turismo e Cultura de Rio Acima, Jordânia Iglesias, comemora a parceria: “A cidade tem paisagens belíssimas, um circuito de 84 cachoeiras e um potencial enorme para o turismo, a ser alavancado pelo trenzinho que começa a funcionar no final de julho. Mas um projeto como este com certeza tem muito a acrescentar”, diz. Em Ouro Preto, o ex-secretário de Cultura e Turismo, Chiquinho de Assis, é um dos maiores entusiastas do Instituto Gandarela. “Ganha o turismo, a educação, o meio ambiente e a sociedade como um todo. Imagine trabalhar dramaturgia, folclore, música... ancorados em Shakespeare, Guimarães Rosa e Drummond?” Segundo Chiquinho, a cidade tem recebido visitas de representantes do teatro elizabetano: “Eles já fizeram contato com mestres de ofícios da região e se interessaram pelo que temos de rico também, especialmente o nosso Teatro Municipal”. E não é por acaso, a Casa da Ópera de Vila Rica é considerada a mais antiga sede de teatro em funcionamento das Américas – foi inaugurada em 1770.

 

Para o mais representativo teatro mineiro também faz planos Mauro Maya, que, antes de ser empresário e publicitário, é ator por formação. Ele participou do primeiro Oficinão do Galpão, em 1998, e pretende voltar a vestir a roupa do inesquecível tio Tobias, o personagem bêbado que o aproximou do universo shakespeariano na peça Noite de Reis: “Meu plano é viabilizar uma ótima estrutura para as artes cênicas em Minas e poder atuar nos palcos que estimulam que eu corra atrás de sonhos como este”, diz.

 

 

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