Salas multisseriadas e destemperos equivocados

por Claudio de Moura Castro 23/07/2012 11:30

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Como publicado no Estado de Minas, na província das Minas e Campos Gerais, o legislativo houve por bem aprovar uma lei proibindo as aulas em que há alunos de séries diferentes na mesma sala. Eclode um conflito. De um lado, a lei dizendo que não pode. De outro, as autoridades educacionais tendo de operar escolas muito pequenas, em que é antieconômico e pouco prático ter turmas ínfimas, sobretudo em escolas rurais. Pipocam os argumentos e o bate-boca.

 

Mas quem minimamente conhece o panorama da educação pelo mundo afora não pode deixar de perceber que o tiroteio, de ambos os lados, está completamente sem pontaria.

 

O que nos diz a experiência dos países de melhor educação? Neles, todos estão de acordo: a escola multisseriada não é um problema. A qualidade do ensino não precisa sofrer se um único professor ensina a alunos de várias séries na mesma sala de aula.

 

De fato, há escolas assim e ninguém pensa em eliminá-las. França, Estados Unidos e Canadá têm. E, para coroar, também existem na Finlândia, primeiro lugar no Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Alunos]. Thorsten Husen, o mais consagrado educador da Suécia, estudou em uma – com colegas de várias séries diferentes – e afirma que não foi prejudicado em sua educação.

 

A diferença é que, para escolas multisseriadas, o método de ensino não é o mesmo e os professores precisam aprender as técnicas apropriadas para manejar esse modelo. Como aqui não se ensinam essas técnicas aos professores, eles improvisam – com os resultados previsíveis.

 

Na Colômbia, em um experimento capitaneado por Vicky Colbert, o método foi adaptado para escolas rurais multisseriadas, com um sucesso espetacular. Diante disso, o projeto foi ampliado para toda área rural do país, gerando um resultado ímpar no continente: trata-se do único país em que os alunos de áreas rurais mostram resultados superiores aos urbanos em testes de rendimento escolar. Ou seja, os alunos das classes multisseriadas aprendem mais do que os outros que cursam classes convencionais. É a Escuela Nueva, projeto que rendeu à autora vários prêmios internacionais.

 

E não parou por aí. Em um projeto do Banco Mundial, o método colombiano foi adaptado ao norte e nordeste do Brasil. Espalhadas pelo interior, tais escolas operam versões tupiniquins da Escuela Nueva, para quem quiser ver. E os resultados são igualmente expressivos.

 

Por que esses experimentos são ignorados ou desconhecidos? Falta de informação? Quem digitar “aulas multisseriadas” no Google encontrará 34 mil sites. Digitando multigrade classrooms, aparecem 71 mil. Portanto, a informação abunda. Não tenho certeza, mas tenho uma hipótese. Como foi um projeto trazido pelo Banco Mundial, o Satanás de Washington, há um descrédito automático, sem ver, sem medir, sem conhecer.

 

Em contraste, a Escola da Ponte, de Portugal é a queridinha dos nossos educadores, apesar de se mostrar frágil. Curiosamente, nossos líderes se recusam a ouvir o próprio criador, quando este revela que a escola desandou logo que ele saiu.

 

Dentre nós, poucos estão perguntando o que dá certo e o que não dá. Simplesmente ignoram-se as soluções sem conhecê-las, por virem de instituições vistas como contaminadas. E aceitam-se outras que, apesar de meio fracassadas, são decretadas como maravilhosas.

 

Os destemperos com a escola multisseriada são uma controvérsia fora de foco. Não se trata de um problema educativo, mas de uma cegueira seletiva. Uma espécie de daltonismo ideológico.
A lei está errada ao ignorar os conhecimentos acumulados pelo mundo afora, mostrando que, corretamente manejada, a escola multisseriada é tão boa quanto a outra. Mas seus opositores argumentam mal ao não considerarem a experiência acumulada e amplamente publicada, seja nos países mais avançados, seja em outros de desempenho mais modesto. Pior, não ensinaram os métodos para lidar com alunos de séries diferentes na mesma sala.

 

É pena que a educação continue a ser guiada por palavras de ordem, filtros ideológicos e preconceitos, em vez de usar os métodos científicos que permitem verificar, no mundo real, o que funciona e o que não funciona.

 

*Claudio de Moura Castro é economista, pesquisador em educação e autor de diversos livros. Escreve bimestralmente na Encontro

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