Palavras

por Eduardo Almeida Reis 28/08/2012 14:47

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Conto o reencontro com Encontro sem recontro, passados seis anos. Gosto de palavras e constato que recontro não está no Houaiss, mas está no Aurélio e no Aulete/digital: combate, peleja, embate de pouca duração, conflito, choque. Não houve embate, portanto a duração é irrelevante; mas demorou seis anos desde quando saí amigavelmente desta bela revista. A vida tem muitas voltas, sempre que nos afastamos de uma publicação sem brigas. Sou de pouco brigar e geralmente peço o chapéu, ou o boné, antes que me mandem embora.

 

A exceção foi com a Folha de S.Paulo, quando me desavim com o imbecil do editor agropecuário. Imbecil completo, que perguntava: “Você vai escrever assaz?”. Informado de que o advérbio estava em nosso idioma desde o século XIII, o idiota retrucava: “Mas o Manual de Redação diz que não pode”. Mereci telefonema de meia hora do então diretor de Redação, o excelente Matinas Suzuki Jr., que, apesar do nome de motocicleta, sempre foi cidadão educado e brilhante. Matinas explicou-me que a decisão fora do Conselho Editorial, do qual fazia parte um irmão do editor cretino.

 

Ao contrário do que se possa imaginar, há editores idiotas e nunca foram poucos. Matinas contava que, ao contratar novos jornalistas, mandava que escrevessem exceção. Se o profissional acertasse, mandava escrever paralisação. Se acertasse de novo, o diretor dizia: “E acaba de ser promovido a editor”. O diabo é que o sujeito e a sujeita, nomeados editores, ficam muito importantes e querem mostrar serviço. E desandam a procurar chifres nas cabeças de cavalos imaginários, censuram textos que não têm competência para avaliar, acham que são os reis da cocada-preta, hoje politicamente incorreta: é melhor escrever rei da cocada-puxa, doce feito com coco ralado e açúcar mascavo ou melado, de consistência algo pastosa e elástica. Doce que se presta, outrossim, para caracterizar o puxa-saquismo de suas excelências, de olho no diretor que teve a infeliz ideia de nomeá-las.

 

Ainda outro dia, em São Paulo, o cartunista Art Spiegelman, Prêmio Pulitzer, dizia aos jornalistas: “Desculpem se alguns de vocês são editores, mas editores geralmente são idiotas”. Tenho larga folha de desavenças com editores de meia-tigela, como também tenho saudades dos bons editores, um deles hoje no expediente desta Encontro: o jornalista Aníbal Penna.

 

Em minha infinita ignorância, estive para escrever que o primeiro Aníbal foi o Rei dos Hunos, mas parece que huno foi o Átila. Aníbal deve ter nascido em Cartago cerca de 247 a.C., general e estadista considerado por muitos como um dos maiores táticos militares da história. Cruzou os Alpes no ano 218 a.C. à frente de 35 mil homens. Não posso jurar, até porque não estive presente, mas consta que levou elefantes em sua travessia alpina. Que têm Aníbal, Átila e os hunos com as palavras de que gosto? Em rigor, nada. Mas Aníbal Penna, durante séculos editor de O Estado de Minas, sempre respeitou as tolices escritas por seus editados, que delas dependem para viver.

 

Voltando às palavras, cometi aí atrás um advérbio que dava demissão no Ministério da Educação, no tempo em que os ministros eram Ministros. Assumindo a pasta, o barbacenense Abgar Renault advertiu os funcionários do seu gabinete sobre o risco de demissão se usassem os advérbios outrossim e adrede. Poeta maior, Abgar sabia lidar com as palavras e disse das que não empregaria jamais, em nenhuma circunstância: credenciar, categorizado, alhures, nenhures, parabenizar, adrede, nímio, maquinário, solta (substantivo), papo (bater o), outrossim, gabarito, gabaritado, audiência (por auditório no sentido de público), postura, diálogo, talonário e muitas outras igualmente indignas de qualquer pessoa de bem.

 

Dizia também que “algum é das palavras mais feias de nossa língua, alcaguete é a pior de todas, nem mesmo nenhures pode competir com essa”. Vou consultar os arquivos aqui do computador para ver se já escrevi nenhures; creio que não, mesmo porque nunca soube que o advérbio, conhecido em nosso idioma desde o século XIII, significa “em lugar algum”.

 

Instruído pelo saudoso e eminente amigo, jamais escrevi “menores detalhes”. Fiel aos ensinamentos de outro amigo saudoso, o engenheiro Antônio Meurer Rosa, mineiro de Juiz de Fora, uso opções em lugar de alternativas. Diante de um fato, o cavalheiro pode ter uma alternativa ou diversas opções. E o negócio vai por aí, mas meu espaço felizmente zé fini.

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