Os dois lados da disputa

28/08/2012 13:37

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Sérgio F. Martins, Júnia Garrido, Ari Kaye,
None (foto: Sérgio F. Martins, Júnia Garrido, Ari Kaye, )

O inesperado, ou, como desejaria Nelson Rodrigues, o “sobrenatural de Almeida”, entrou em campo no último minuto da prorrogação do segundo tempo do jogo para a definição dos candidatos à Prefeitura de Belo Horizonte. O que seria uma modorrenta eleição, de resultado previsível, com a acomodação na mesma chapa do PT e do PSDB em torno da reeleição do prefeito Marcio Lacerda (PSB), torna-se, agora, um pleito competitivo e emocionante. Petistas, por intermédio do ex-prefeito e ex-ministro de Desenvolvimento Social e Combate à Fome Patrus Ananias, e tucanos, tendo à frente o socialista Marcio Lacerda, voltarão a polarizar a eleição pelo governo municipal, oito anos depois do último enfrentamento, em 2004.

 

A disputa na capital mineira reúne todos os ingredientes para atrair as atenções nacionais. Terra natal da presidente da República, Dilma Rousseff (PT), e do senador Aécio Neves (PSDB), é aqui, este ano, onde se dará uma “prévia” das eleições presidenciais de 2014: os partidos confrontam-se, cada qual ao lado de seu candidato, pela Prefeitura de Belo Horizonte. Mas miram o Palácio do Planalto. Entre os desdobramentos do divórcio entre PT e PSB e o fim da polêmica aliança entre petistas e tucanos está um intenso corpo a corpo por cada voto em Belo Horizonte. Não apenas nas ruas, mas também por detrás das câmeras, as campanhas se armam.  Dilma Rousseff convocou o seu próprio marqueteiro, João Santana, homem que também se ocupará da candidatura de Fernando Haddad (PT) para a Prefeitura de São Paulo e da de Hugo Chaves, para presidência da Venezuela. Pelo lado do socialista, o marqueteiro mineiro Cacá Moreno vai conduzir o programa eleitoral.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os padrinhos políticos estão mobilizados. Além de Dilma Rousseff, Patrus contará com a participação do ex-presidente Lula, do ex-prefeito e atual ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, e do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A eles se somam os peemedebistas Hélio Costa, Clésio Andrade e Newton Cardoso. Sob o comando de Aécio Neves, a candidatura de Marcio Lacerda terá figurões do PSB nacional, como o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, além de Ciro Gomes, ex-ministro da Fazenda de Itamar Franco e ex-ministro da Integração Nacional do governo Lula.  O governador Antonio Anastasia está engajado, e a irmã de Aécio, Andrea Neves, deixou a presidência do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) para se dedicar à reeleição de Lacerda.

 

No mesmo barco desde 2008, quando o então prefeito petista Fernando Pimentel e o governador tucano Aécio Neves juntaram os adversários nacionais PT e PSDB em torno da candidatura socialista,  os dois novos adversários adotarão discursos diferentes. Marcio Lacerda colocará ênfase na gestão e na eficiência, mas sem abandonar as questões sociais. Vai mostrar um conjunto de obras realizadas ao longo de sua administração. Uma das peças que a campanha de Lacerda reserva para ir ao ar: elogios de Dilma Rousseff  antes da implosão da aliança. Em outro eixo de argumentação, mais político, Aécio Neves procurará repudiar a “interferência federal na capital mineira”, procurando  confrontar a nacionalização da campanha com a tese de que o eleitor costuma rechaçar imposições de candidaturas.

 

Além de “pai do Bolsa Família”, carro-chefe do mais bem-sucedido programa social do governo federal, Patrus Ananias será apresentado como um político sensível, demarcando o seu compromisso social e a proximidade com a população. Os feitos das gestões do PT na capital mineira, que se iniciaram com o próprio Patrus em 1993 e evoluíram até o governo Lacerda, serão salientados. A campanha do petista mostrará que as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Copa,  realizadas em Belo Horizonte, por exemplo, são fruto sobretudo de investimentos federais: o governo Dilma aportou R$ 1,23 bilhão; a Prefeitura de Belo Horizonte, 5% deste valor; e o governo do estado, R$ 300 milhões em desapropriações.

 

 
 

O pivô da ruptura súbita entre petistas e socialistas foi um documento surgido no sábado, 30 de junho, último dia para a realização das convenções partidárias. No final da manhã daquele sábado, a convenção do PSB ratificara o nome do prefeito Marcio Lacerda para concorrer à reeleição, liderando uma aliança que juntava, entre outros, PT e PSDB. No evento, além da cúpula do PSB e de diversas lideranças do PSDB, estavam nomes de peso do PT mineiro, entre os quais o de Fernando Pimentel e o do deputado federal Miguel Correa, até então vice na chapa de Lacerda. Às 18h do mesmo dia, contudo, aconteceu o inesperado. Durante a convenção do PT, que deveria confirmar a união, decidiu-se pela candidatura própria e, portanto, pelo fim da aliança entre os dois partidos.

 

A alegação para o rompimento estava na suposta quebra de acordo previsto no referido documento, segundo o qual o PSB e o PT caminhariam juntos nas eleições proporcionais para vereadores em Belo Horizonte (o que acabou não acontecendo). O presidente nacional do PT, Rui Falcão, saiu na imprensa atacando Marcio Lacerda, a quem acusara de ter “rompido um acordo por escrito”. Acontece que o tal “acordo por escrito” nunca aparecera. Tudo não passou de uma grande jogada de parte do PT, insatisfeita com o crescimento da ala ligada ao ministro Fernando Pimentel (a qual Miguel Correa pertence), e que viu no estratagema uma forma de tentar minar a hegemonia de Aécio Neves em Minas Gerais.

 

De fato, o único documento que trata de eventual coligação para o legislativo municipal diz, textualmente: “Com relação ao estabelecimento de coligação proporcional com o PSB, manifestamos nossa aceitação em fazê-la com o PT e os outros partidos aliados …”.  Ou seja, havia manifestação favorável à coligação com o PT, mas também com outros partidos da base (inclusive o PSDB), para a disputa do legislativo municipal. O texto é claro. Não estabelece nenhum compromisso isolado do PSB com o PT.

 

A carta é assinada por Walfrido dos Mares Guia, presidente do PSB mineiro e que sempre foi ligado a Lula (de quem foi ministro do Turismo) e ao PT. Portanto, é de se esperar que não tenha havido nenhuma “pegadinha” para os petistas no documento. Ademais, o texto é datado de 9 de abril. Se havia dúvidas quanto ao seu entendimento, por que não foram suscitadas anteriormente? Uma parte do PT viu, na tal carta, o instrumento ideal que serviria de “bode expiatório” para a virada de mesa. Melhor: a “culpa” para o fim da aliança seria atribuída, maliciosamente, ao prefeito Marcio Lacerda. “O rompimento na política é uma coisa gravíssima”, disse Falcão em referência a Lacerda, à época. Mas tudo não passava de falácia.

 

O acordo foi rompido pelos petistas para a surpresa, inclusive, de muitos petistas, principalmente os ligados a Fernando Pimentel. “Quase ninguém dentro do PT esperava por isso”, disse o deputado Miguel Correa. Há ainda um outro aspecto importante: coligar-se para eleger vereadores seria tão importante ou fundamental para o PT? Claro que não. O PT não precisava do PSB para fazer boa bancada no legislativo da cidade. Trata-se de questão menor, diante de eleição majoritária e que envolve a prefeitura de uma das maiores cidades do Brasil.

 

 
 

No entanto, a forma como o assunto foi explorado na convenção do PT pelos setores mais radicais do partido fez com que se difundisse a idéia de “quebra de acordo” por parte do prefeito. Dessa forma, mesmo as alas do PT mais próximas a Lacerda acabaram por também aceitar a ideia. “Estamos completamente rompidos com o Marcio e ele assumiu um risco que pode lhe custar caro no futuro”, disse Miguel Correa, que coordenou a campanha do prefeito em 2008. Nos últimos anos, já vinha ocorrendo um distanciamento entre o PSB e o PT, em Belo Horizonte, face à conduta do vice-prefeito, Roberto Carvalho. A despeito do cargo, o petista Carvalho vinha sendo um dos mais contundentes críticos de Marcio Lacerda. Reside aí a origem dos problemas que culminaram no rompimento das legendas.

 

Depois de toda essa mudança, o que vai acontecer na política municipal ainda é incerto. O que se sabe é que o clima vai pegar fogo nos próximos dois meses. As pesquisas, até o momento, indicam vantagem para Marcio, apontado recentemente pelo instituto Datafolha como o mais bem avaliado prefeito de capital, no Brasil. Outra certeza é que o grande derrotado de toda essa reviravolta é o grupo do PT ligado ao ministro Pimentel, que se afastou de Marcio Lacerda, e é adversário histórico da turma de Patrus. O espaço desse grupo, contudo, pode ser reconstruído na eleição para o governo de Minas de 2014, que deverá ter Pimentel como candidato petista.

 

Além dos desdobramentos na política local, o racha entre PT e PSB em BH terá, certamente, consequências nas eleições de 2014, seja para governo de Minas, seja para presidente da República. Demonstração disso está na posição adotada pelo PSD,  presidido pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, absolutamente ligado a José Serra. O apoio da legenda é importante pelos dois minutos que agrega no horário eleitoral gratuito. Apesar de em convenção os pessedistas terem aprovado apoio à Lacerda, a executiva nacional, capitaneada por Kassab, interveio no processo e decidiu pelo apoio a Patrus.  A disputa foi parar na Justiça Eleitoral. No primeiro round da briga, ganhou o grupo que apoia Lacerda. Será que há o dedo de Serra por detrás do movimento de Kassab? O tempo, sempre ele, vai clarear tudo isso.

 

Disposta a não perder a capital do estado, que constitui o segundo maior celeiro de votos do país, Dilma Rousseff entrou decidida nos bastidores da briga. Para tirar o seu partido do isolamento, convocou o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), para fazer com que o deputado federal Leonardo Quintão retirasse a sua candidatura, que já havia sido homologada em convenção do PMDB. Temer convenceu Quintão. Ao telefone, Dilma o parabenizou: “Vamos juntos”.

 

A despeito do esforço da presidente, os resultados das últimas eleições na capital não têm sido felizes para o PT. Em 2010, na disputa para a presidência, Marina Silva (ex-PV) ganhou no primeiro turno e Serra (PSDB), no segundo. Já na briga pelo governo do estado, a dupla Anastasia (PSDB) e Alberto Pinto Coelho (PP) teve mais de 70% dos votos em BH. “Querer nacionalizar as eleições municipais é desculpa de quem não tem proposta para a cidade”, afirma Aécio Neves. “Essa foi a forma que o PT encontrou para esconder as suas contradições”. Como se vê, a briga só está começando.

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