O túnel que liga a burocracia ao descaso

por Arnaldo Viana 29/08/2012 09:31

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Juarez Rodrigues; Cláudio Cunha;
Novela da reconstrução do túnel do Ponteio se arrasta por mais de sete meses (foto: Juarez Rodrigues; Cláudio Cunha; )

A história do túnel do Ponteio se parece com a expansão do metrô: promessas e promessas, mas nada de concreto. Mais de sete meses depois que as chuvas de verão do ano passado obstruíram a passagem subterrânea na BR-356, nada foi feito. A paciência da população se esgotou e houve até protesto, no mês passado, para cobrar do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit) menos descaso e mais rapidez na execução das obras de recuperação. Afinal, a história começou mal, pois somente em maio, cinco meses após o problema, o órgão publicou o edital para a recuperação do túnel. O tempo passou e nada ainda foi feito.

 

O coro de descontentamento encontrou eco no movimento de reação organizado pelo deputado estadual Fred Costa, que luta para resolver o problema desde o início do ano. O parlamentar ainda está revoltado com a desinformação do Dnit. “Eles mostraram desconhecimento do Decreto 7.257, que regulamenta a Medida Provisória 494, de agosto de 2010, determinando a imediata transferência de recursos para ações de socorro, assistência às vítimas e reconstrução de áreas atingidas por desastres naturais. Então, tinha respaldo legal para buscar o dinheiro e fazer a obra”.

 

A chuva destruiu o túnel em 15 de dezembro. A enxurrada derrubou um muro de contenção da passagem subterrânea, arrebentou a tubulação de esgoto da Copasa e destruiu a escada de acesso à passagem de pedestres. Desde então, o retorno naquele trecho da BR-356 à avenida Nossa Senhora do Carmo ficou impraticável para carros e pedestres. Túnel interditado e xingação, dirigida primeiro à Prefeitura de BH. Povo é assim: esculacha quem está mais perto. Achava que o buraco estava na via urbana. Mas não. É na rodovia, uma BR. Nesse caso, a responsabilidade é do Dnit. Aí, a carga de impropérios subiu direto da esfera municipal para a federal.

 

Deputado Fred Costa está indignado: “No Japão, reconstruíram uma cidade inteira em seis meses. Aqui, é bem diferente”
 

O retorno na via passou a ser feito dois quilômetros adiante, no trevo de acesso a Nova Lima. Quatro quilômetros a mais: dois na ida e dois na volta. Ninguém merece. Ainda mais porque o movimento no trevo nos horários de pico é de roer os nervos, bem lento. Para taxistas, então, o drama é maior: deixa o passageiro no Ponteio e gasta pelo menos meio litro de gasolina nos quatro quilômetros a mais.

 

Viagem para voltar com o táxi vazio não compensa, mas tem de ser feita. José Eustáquio da Cruz deixou um cliente em frente ao centro de compras e lançou um olhar desolado para o túnel interditado. Deixa de economizar pelo menos R$ 1,30 (meio litro de combustível) a cada corrida ao shopping se volta “batendo banco”, como dizem quando andam sem passageiro.

 

Se o motorista perde a entrada do viaduto perto do BH Shopping para fazer a volta, só pode virar quatro quilômetros acima, depois do trevo do bairro Olhos D’água. Aborrecimento dobrado. E não adianta o povo xingar o Dnit. Como o órgão é federal, com matriz em Brasília, não entende o sotaque mineiro. Ou finge não entender. Não conhece aquele ditado do Vale do Jequitinhonha: “Uai, sô, o buraco é mais embaixo!”. E há sete meses e meio obriga o cidadão de BH a subir a 356 para infernizar ainda mais aquela conturbada virada para Nova Lima ou a procurar o buraco mais acima. Esperança no fim… do túnel?

 

Depois de execrado, o Dnit publicou edital de licitação para a obra de recomposição do túnel do Ponteio. Mas como foi difícil fazê-lo entender tal necessidade. Foi preciso até a interferência do Legislativo estadual. E quem bateu o pé na Assembleia pela recuperação da passagem foi Fred Costa. E o deputado ainda cospe cobras e lagartos, mesmo depois de informado de que máquinas e operários podem entrar em ação ainda este ano, para devolver o retorno subterrâneo à cidade, possivelmente em novembro.

 

Protesto em frente à passagem subterrânea teve até bolo: ironia e crítica pelo tempo que a população aguarda as máquinas do Dnit
 

No início do ano, quando Fred Costa convocou audiência pública para discutir o problema, foi o sotaque mineiro que não entendeu os argumentos do Dnit. “Falaram que precisavam de R$ 4 milhões e alegaram que não tinham verba nem quadro (pessoal) para fazer a obra, e que talvez a iniciassem só no fim do ano. Até ironizei e disse que, se fosse preciso, a Assembleia emprestaria funcionários. Fiquei ainda mais indignado quando me lembrei de que no Japão reconstruíram uma cidade em seis meses.” Essa proeza japonesa ocorreu depois do terremoto seguido do tsunami no começo do ano passado.

 

O deputado riu como menino quando ouviu que o Dnit não entende ou não quer entender o sotaque mineiro, porque não dá a menor bola também para os gritos de socorro que vêm das BRs 381 (Rodovia da Morte) e 040. Isso sem falar no Anel Rodoviário. “A frase retrata o desrespeito com a população. Acho que é também questão de incompetência.” E pede a recomposição do túnel o mais rápido possível. “Segundo a BHTrans, mais de 80 mil carros passam por dia pela Nossa Senhora do Carmo. Em breve, a Prudente de Morais vai ser fechada para obras e os reflexos no tráfego serão sentidos até o Belvedere.”

 

A esperança para a devolução da passagem ao trânsito de BH, cidade de mobilidade deficiente, está em um comunicado que chegou à redação de Encontro, por e-mail. Nele, o Dnit informa que lançou edital para obras na 356, incluindo a recuperação do túnel do Ponteio, mas na abertura da licitação as três empresas interessadas foram inabilitadas por problemas na documentação.

 

As empreiteiras ganharam prazo para regularizar a papelada, mas uma delas desistiu do processo, e até o fechamento desta edição o Dnit esperava a resposta das duas que continuaram concorrendo. A estimativa é de que, logo depois da assinatura do contrato, as obras sejam iniciadas e concluídas em “aproximadamente  60 dias”. E se não passar de mais uma falsa promessa? “Se não for cumprida, a OAB, seção de Minas Gerais, já se colocou à disposição para entrarmos com ação no Ministério Público”, responde Fred Costa.

Últimas notícias

Comentários