Ele quer ser o barão da madeira

por Sergiovanne Amaral 29/08/2012 12:24

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Cláudio Cunha; Léo Araújo; Paulo Márcio
Quando comprou a fazenda e decidiu plantar mogno, Ricardo sabia que a aposta era inusitada (foto: Cláudio Cunha; Léo Araújo; Paulo Márcio)

Não é de hoje que o empresário Ricardo Tavares é tido como um Midas. Esse mineiro de Ponte Nova, Zona da Mata, ganhou fama e muito dinheiro por transformar todos os negócios que assumiu nas últimas três décadas em empreendimentos milionários. Primeiro foi o Café 3 Corações, empresa que ia mal na década de 1980, mas que, depois de sua intervenção, foi vendida para a israelense Strauss-Elite por US$ 41 milhões. A grande virada chamou a atenção do mercado e o que veio em seguida mostrou que tudo não havia sido apenas um golpe de sorte. A criação e a venda da marca Sucos Mais para a Coca-Cola, em 2005, deixou claro que esse mineiro sabia muito bem o que estava fazendo.

 

Em pouco mais de três anos, ele já era um dos líderes do mercado de sucos naturais no Brasil e ameaçou concorrentes gigantes, como a Del Valle. Na venda da Sucos Mais para a Coca-Cola,  embolsou nada menos que R$ 110 milhões. E o que é melhor, depois da negociação, fechou contrato com a Coca-Cola para continuar fornecendo a polpa para a Sucos Mais, por meio da Trop Frutas do Brasil, empresa que criou com sede em Linhares, no Espírito Santo. Aos 50 anos, Ricardo Tavares agora agita o mercado com sua mais nova e grandiosa aposta: o cultivo do mogno africano. “O objetivo é substituir o mogno nacional pelo africano, que também é uma madeira nobre”, diz, enquanto sobrevoa sua fazenda em Pirapora, onde 500 hectares de mogno dividem espaço com plantios de café e banana e criação de gado.

O que ninguém imagina é que esse negociante nato, quando garoto, não era muito chegado nos estudos e gostava mesmo é de vender frutas com o pai e os irmãos na cidade em que nasceu. “Ricardo não era um aluno aplicado. Quando nossa mãe estudava conosco, ele sempre errava no ditado. O negócio dele era vender”, lembra a irmã, Luciene Tavares. E foi isso que acabou acontecendo, graças ao incentivo constante de seu Aprígio, pai de Ricardo, e o apoio da mãe, Maria Mazzarello.  “Meu pai, comerciante de longa data, sempre procurou despertar o interesse dos meus irmãos para os negócios. Às vezes enchia caminhões de abacaxi e os levava para vender na feira, aos domingos, na nossa cidade natal”, recorda o empresário.

 

Viveiro de mudas clonadas de mogno africano: conhecimento de trabalhadores de Pirapora, aliado à tecnologia para obter e comercializar plantas com alta produtividade
 
 

Assim que a família mudou-se para Belo Horizonte e Ricardo terminou o ensino médio, seu Aprígio o levou para ajudar nos negócios. Era 1980 e o pai comercializava café.  Ele comprava dos produtores e vendia para as indústrias em BH. O maior cliente dos Tavares era o Café 3 Corações, que acabou mergulhado em dívidas.  A única esperança para ter o dinheiro de volta era assumir a empresa e tentar salvá-la. E foi o que fizeram, em 1984. À frente da empresa, renegociaram dívidas, mudaram a estratégia de mercado, diversificaram os produtos oferecidos e, em 2000, quando Ricardo decidiu vender a marca para o grupo israelense,  o Café 3 Corações já era um dos cinco maiores do Brasil.

 

Os quatro filhos de Aprígio cuidavam da empresa. Depois da venda, cada um tomou seu rumo, mas desenvolveram alguns negócios juntos, como é o caso de Luciene e Ricardo, que têm sociedade nos Armazéns Leste de Minas, de estocagem e rebeneficiamento de grãos, e na Trop Frutas do Brasil, especializada em processamento de frutas e produção de polpa.  Essa última, inclusive, foi um desdobramento de outra grande empreitada que viria na sequência.

 

 
 

“Tive a ideia de fazer uma fábrica de sucos”, diz o empresário. O nome da nova marca já estava na cabeça dele, mas tentaram convencê-lo a mudar, o que não adiantou. “Queria que se chamasse Sucos 3 Corações Mais”. As agências de publicidade disseram que ele deveria tirar o nome “Mais”, mas Ricardo não concordou. Como acabou vendendo o café, decidiu simplificar. “Vai se chamar Sucos Mais”. E foi dito e feito.

 

Quem tem boas lembranças dessa fase é Carlos Alberto Ferreira, 52 anos, que esteve ao lado de Ricardo nas duas empresas, como gerente. A Del Valle era a líder no mercado mineiro. “Foi incrível. A Del Valle já estava há 15 anos no mercado e nós chegamos como um rolo compressor”, diz Ferreira. Ele conta que o Sucos Mais dominou Minas Gerais, depois Espírito Santo, e enfrentou uma concorrência acirrada no Rio de Janeiro e em São Paulo. A essa altura, um apelido para Ricardo Tavares já começava a se espalhar. “Brincávamos, falando que ele era um Midas. Tudo que pegava para fazer dava certo. Além disso, tinha o carisma e o senso de responsabilidade que contagiava toda a equipe.”

 

Carlos Alberto Ferreira foi gerente de duas empresas de Ricardo Tavares e acompanhou a trajetória de crescimento do empresário:  “Brincávamos, falando que ele era um Midas. Tudo que ele pega para fazer dá certo”
 
 

No fim das contas, a briga pelo mercado de sucos entre as grandes marcas terminou de forma até irônica: a Coca-Cola comprou as duas empresas e inundou o mercado com os sucos Del Valle Mais. Ricardo não sossegou. Fundou com o filho uma transportadora e estruturou a holding Montesanto Tavares Participações e Investimentos S.A., com uma nova e inusitada aposta: centenas de hectares de florestas de uma espécie que pouca gente conhece, a Khaya Ivorensis, ou mogno africano. Um empreendimento relativamente de baixo custo, altíssimo retorno, mas de longo prazo. “O retorno é alto, mas não é todo mundo que vai plantar mogno para colher daqui a 15 anos. Eucalipto você colhe com seis ou sete anos, mas o rendimento é bem menor.”

 

Quando Ricardo fala em 15 anos, não está exagerando. Essa espécie de mogno, nativa da África, chega ao ponto ideal de corte em um prazo de até 17 anos. Comparado ao mogno nacional, com severas restrições em relação à sua colheita, o africano é mais resistente a pragas e cresce bem mais rápido.

 

“O Brasil é o maior consumidor de madeira tropical do mundo. Não vamos ter dificuldade de vender essa madeira”, fala Ricardo. De acordo com relatórios da Organização das Nações Unidas, a demanda por madeira serrada deve estar próxima dos 3 bilhões de metros cúbicos nos próximos anos. Em 2010, a demanda cresceu 18% e a tendência é de que esse índice continue aumentando.

 

 
 

Mulher de Ricardo, Izabella Montesanto Tavares acha que o marido é movido por novos desafios e, quando “cisma” com algo, não tira da cabeça até conseguir. “A plantação de mogno é um bom exemplo. Pouca gente faz isso hoje”, comenta ela, que é mãe de Leonardo, 22 anos, e Marcela, 19, que também trabalham com o pai.  “Quando comprei a fazenda em Pirapora, há quatro anos, queria plantar madeira. Cada hora chegava um e falava que eu tinha de plantar teca, cedro e mogno nacional. Saí pesquisando pelo Brasil, conheci muita gente que também estudava o assunto e, quando voltei, criei um campo experimental”, diz Ricardo. Com o velho hábito de não dar ponto sem nó, ele queria saber, na prática, qual tipo de madeira se desenvolvia melhor em suas terras. O mogno se saiu melhor.

 

A Atlântica Agropecuária, empresa do grupo Montesanto Tavares, é que administra os plantios, além da criação de gado. Como era difícil encontrar mudas do mogno africano para expandir as áreas plantadas, Ricardo decidiu clonar as melhores plantas e criou um viveiro que, só etse ano, deve comercializar 600 mil unidades. O desenvolvimento desse viveiro é, para o engenheiro agrônomo João Emílio Duarte, gerente geral da Atlântica Agropecuária, um dos fatores determinantes para o desenvolvimento rápido do projeto, além de mais uma fonte de renda. “Quando decidimos plantar 500 ha, praticamente ninguém vendia. Buscamos sementes, pesquisamos tecnologias e partimos para a clonagem. Agora, vendemos mudas para produtores de todo o Brasil.”

 

Ricardo Tavares, os filhos Marcela e Leonardo, e a mulher Izabella, que é pianista. “Quando ele cisma com algo, não tira da cabeça até conseguir”, diz Izabella
 
 

“Ricardo é muito dinâmico e, se precisar, corre o mundo todo atrás de soluções para o que precisa. Ele viu meu nome em uma matéria de jornal em 2008 e veio me procurar. Até hoje trabalhamos juntos”, conta o agricultor Antônio Serrati Massini, um dos pioneiros no plantio do mogno africano. Ele saiu do Espírito Santo para ter o primeiro plantio irrigado de mogno do Brasil, também em Pirapora. Desde o início do projeto, ele é um dos consultores de Tavares.

 

O pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, Ítalo Falesi, 80 anos, que foi quem plantou a primeira semente em território nacional, não duvida de que a aposta de Ricardo é acertada. “Parece que o Ricardo adivinha onde as coisas estão. Viu meu nome na internet há cinco anos e desde então não tenho sossego”, brinca o professor. “Quando meu telefone toca no domingo, às 17h, já imagino que é ele querendo tirar alguma dúvida. Ele não para. Viramos grandes amigos”.

 

Se as empresas e o dinheiro costumam ser os principais fatores para atrair os holofotes para Ricardo, uma amiga antiga prefere destacar um lado mais solidário do empreendedor, que criou também uma ONG, o Instituto Café Solidário, que realiza projetos com 140 crianças carentes na cidade mineira de Buritizeiro.  “Era um sonho dele”, conta Patrícia Fonseca, amiga de Ricardo e superintendente do instituto.

 

A aposta em florestas tem tido boa repercussão em outros segmentos do mercado de madeira. O sócio-proprietário da Palowa, maior madeireira do estado, Edgard Cançado Filho, vê o plantio de florestas em Minas Gerais como um facilitador para seu trabalho. Atualmente, ele e outros distribuidores precisam comprar madeira do Sul e de outras regiões do país. “Em alguns anos, o estado vai ser um dos grandes produtores de madeira nobre, com florestas de qualidade por perto. No entanto, ainda é cedo para fazer previsões precisas”, observa.

 

Antônio Tarcizo de Andrade, diretor-superintendente da Associação Mineira de Silvicultura, também partilha da opinião de Edgard Cançado. “Não há dúvidas. Quanto mais perto a madeira estiver da fábrica, melhor. Boa parte do preço cobrado pelo produto é usada para cobrir custos com transporte”, esclarece.

 

Há tanta gente interessada no que pode ser considerada uma aposentadoria verde, que foi criada até a Associação Brasileira dos Produtores de Mogno Africano (ABPMA). “Queremos oferecer suporte e descobrir as melhores soluções. A partir de 2019, quase todos os produtores terão bastante madeira para vender. Temos de pensar em atrair clientes, fazer peças de móveis e organizar feiras”, afirma Ricardo, tentando adivinhar o que vai acontecer no futuro. Pelo que esse mineiro simples e de jeito tranquilo tem mostrado nos últimos anos, há quem diga que, na verdade, ele já sabe. É esperar para ver.

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