Vitrine no estrangeiro

por Marina Dias 30/08/2012 09:51

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
João Unzer; Geraldo Goulart; Flavio Christo
Artesanato brasileiro à venda nas lojas americanas Macy's: muitos artigos provinientes de Minas (foto: João Unzer; Geraldo Goulart; Flavio Christo)

Sozinha em seu ateliê, a belo-horizontina Mônica Maria dos Santos Lima trabalha diariamente transformando argila em figuras folclóricas, bonecas com roupinhas de pano, animais e outros objetos decorativos. Ela começou a aprender o ofício ao tentar criar figuras de histórias infantis e, hoje, especializada em cerâmica, faz sem ajudantes pelo menos 2.500 peças por ano, que vende no Palácio das Artes, no Mercado Central e sob encomenda. A cerca de 500 km dali, em Turmalina, no Vale do Jequitinhonha, Ana Adir Francisco divide a mesma paixão pelo manuseio do barro e criação de formas coloridas. Há 30 anos ela faz moringas, potes, enfeites, flores e bonecas, todas coloridas com o próprio barro, com o qual trabalha no quintal de sua casa. Por meio de uma associação de artesãos locais, ela vende para lojas e feiras de outras cidades do país, tendo capacidade de produzir 80 unidades por mês.

 

Apesar da expertise para o ofício, de uma rotina estabelecida de produção e da rede já firmada para venda dentro do país, o trabalho de Ana, Mônica e de outros 500 mil artesãos e produtores artesanais mineiros durante muito tempo não ultrapassava as fronteiras do Brasil. As peças de Minas só eram compradas por estrangeiros que visitavam o país e levavam artigos em menores quantidades. Contudo, essa situação tem mudado nos últimos anos e os números das exportações de peças artesanais vêm crescendo em Minas. Há dez anos, a maior central de cooperativas de artesãos de Minas Gerais, a Mãos de Minas, exportou US$ 10 mil em artesanato. No ano passado, esse valor ultrapassou os US$ 4,9 milhões, e a expectativa é de que a cifra chegue a US$ 6 milhões em 2012.

 

Mônica dos Santos agora cogita até contratar ajudantes: “Se os pedidos aumentarem demais, não conseguirei fazer sozinha”
 
 

Um dos acontecimentos que coroaram a maior visibilidade do artesanato mineiro foi a homenagem ao Brasil promovida pela cadeia varejista norte-americana Macy’s, entre maio e julho deste ano. Diferentes artigos brasileiros foram colocados à venda em suas lojas, como roupas, acessórios e artesanato. Dos 10 mil produtos de artesanato, 90% vieram de Minas Gerais. E se esgotaram rapidamente. “Os produtos artesanais foram os únicos que precisaram de nova leva, e o estoque foi reposto duas vezes”, conta a presidente da Mãos de Minas e da Associação Brasileira de Exportação de Artesanato (Abexa), Tânia Machado. Segundo ela, as peças – que foram cedidas sob regime de consignação – ficaram expostas nas lojas Macy’s de Nova Iorque, São Francisco e Miami. Os negócios gerados no evento devem atingir US$ 400 mil. Mas o melhor é que se abre a perspectiva de novos pedidos de compra no futuro.

 

O fato de o país estar sob os holofotes lá fora é um dos motivos para o aumento da exposição do artesanato brasileiro – algo que começou com a inclusão dos produtos na Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (Apex-Brasil), em 2001. “O país está na moda e as nações que querem nos homenagear costumam fazê-lo divulgando a música, a gastronomia e também o artesanato”, diz Tânia. Além da diversidade e qualidade dos artigos mineiros, a organização do setor no estado possibilitou a participação dos artesãos no evento da Macy’s. Como os produtos foram entregues em regime de consignação, poucos tinham condição de aguardar por até cinco meses para receber. O Mãos de Minas, então, procurou um banco e abriu uma linha de crédito, pagando um adiantamento de 30% do que cada artesão entregou. “Nenhum outro estado se organizou para fazer isso”, afirma Tânia.

 

Um dos mais novos artesãos a enviar produtos para Macy's, Júnior Mapa, 24 anos, que trabalha com pedra-sabão, está otimista: “Tomara que isso signifique novos compradores” 
 
 

O mesmo aconteceu no ano passado, quando a rede espanhola El Corte Inglés fez uma proposta no mesmo estilo da rede varejista norte-americana. Em março daquele ano, 14 compradores visitaram quatro capitais brasileiras – Belo Horizonte inclusive – e compraram US$ 800 mil em artesanato nacional. Desses, US$ 700 mil foram gastos em produtos mineiros (cerca de 45 mil itens), que ficaram à venda em Madri, Barcelona e Ilhas Canárias. “O objetivo inicial dos espanhóis era gastar 4 milhões de euros, mas não tínhamos condições de vender tudo isso. O país tem os produtos, mas ainda não tem a estrutura para esse processo”, diz Tânia.

 

Além dos bois da manta feitos por Mônica dos Santos em Belo Horizonte e dos enfeites de duas caras de boi produzidos por Ana Adir no Vale do Jequitinhonha, Francisco da Silva foi outro dos dez artesãos escolhidos pela Mãos de Minas, com apoio da Apex e Abexa, para enviar artigos à Macy’s. Sua loja, a Arte Pássaros, mandou à rede americana cerca de 3.500 itens, entre araras e tucanos de madeira, mexedores de drink adornados com passarinhos e ímãs de geladeira. Com uma produção de 50 mil peças anuais, Francisco e sua família já tinham clientes fora do país e costumam exportar cerca de 1.500 itens por ano para os Estados Unidos, Portugal e Espanha. “Mas o nosso contato é sempre com pessoas que vivem aqui, compram as peças e enviam para parentes que vendem lá fora. Nunca tivemos tido um pedido desse tamanho antes”, conta o filho de Francisco, Genival, que administra o negócio. Otimista com a exposição do artesanato mineiro, ele garante a presença da Arte Pássaros se houver nova leva de produtos em lojas estrangeiras. “Não só a venda, mas a visibilidade que isso gera é muito boa para os negócios. Quanto mais divulgado for nosso produto, melhor”, diz.

 

 
 

Um dos mais jovens artesãos a ter seus produtos enviados à Macy’s é Júnior Mapa, de Santa Rita de Ouro Preto. Aos 24 anos, ele administra e ajuda na produção dos artigos de pedra-sabão da Art Pedras, ateliê de sua família. Segundo Júnior, foram enviados aproximadamente 134 artigos para a rede norte-americana, incluindo dominós, saleiros, garrafas para vinhos e porta-joias. “Nós não tínhamos exportado dessa forma ainda. O máximo que aconteceu foram clientes comprarem na nossa loja e levarem para seus países. Com a exposição que estamos tendo hoje, além da Copa do Mundo e Olímpiadas que vamos sediar, esperamos que isso signifique novos compradores para nosso negócio”, diz.

 

E ainda há mais oportunidades por vir. A rede de lojas norte-americanas TJ Maxx fechou neste mês o primeiro pedido de US$ 1 milhão para a compra de artesanato mineiro. A exposição dos produtos nas lojas será feita em maio de 2013 e há perspectiva de ampliação do investimento para US$ 10 milhões até o final de 2013. Além disso, outra rede de lojas, a multinacional Seven & i Holding Japonesa, com 41.200 lojas espalhadas em 16 países, também criará um espaço para o artesanato de Minas em 2014, mas os valores ainda não foram fechados. A Mãos de Minas ainda abrirá, em novembro deste ano, um centro de distribuição com pronta-entrega em Nova Jersey (EUA) para venda no atacado e um site de vendas no varejo para produtos que saíram de linha. Os artesãos mineiros que se preparem!

Genival e o pai, Francisco da Silva, da Arte Pássaro. A empresa exporta cerca de 1.500 objetos por ano, eteve encomenda de 3.500 peças: “Nunca tínhamos recebido um pedido tão grande assim”
 

Últimas notícias

Comentários