Comprei na C&A

por Carolina Lenoir e Ana Cláudia Esteves 31/08/2012 11:03

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Emmanuel Pinheiro; João Carlos Martins; Divulgação
"Gosto de garimpar peças bacanas com preços camaradas", diz Nathalia Lima. (foto: Emmanuel Pinheiro; João Carlos Martins; Divulgação)

Houve um tempo em que muitas pessoas, quando perguntadas sobre a origem de uma determinada peça do seu vestuário, eram acometidas por um súbito e providencial “esquecimento”. Ou então respondiam com o clássico “um presente”. Tudo isso para não revelar que a roupa foi, na verdade, comprada em uma loja de departamento. Esse tempo tem ficado cada vez mais para trás. Grandes cadeias de varejo, também conhecidas como lojas de fast fashion, têm apostado em estratégias para conquistar um público antenado em moda e ávido por tendências, independentemente da classe social.

 

O mercado brasileiro tem vivido um período de burburinho intenso, especialmente no que se refere a duas gigantes no setor de fast fashion no mundo, concorrentes da já bem estabelecida Zara, precursora desse conceito de negócios. A chegada da badalada grife britânica Topshop ao país – por enquanto, com uma loja em São Paulo – e os rumores da vinda da sueca H&M já no próximo ano mostram que as lojas de departamento caíram mesmo nas graças dos fashionistas nacionais, que também “redescobriram” velhas conhecidas como C&A, Renner e Riachuelo.

 

O designer Vitor Formiga, 24 anos, mantém em seu estilo um vínculo forte com a época em que era skatista. Camisas xadrez e com estampas de bandas caracterizam bem seu vestuário. “Procuro sempre roupas mais simples, sem muitos detalhes. Eu também gosto de calças mais justas e, na Zara, de tempos em tempos, consigo encontrar modelagens e peças com as quais me identifico.”
 
 

Os principais ingredientes de uma receita que tem dado certo são diversidade de opções, preço acessível e parcerias com estilistas renomados. Coleções exclusivas assinadas por designers como Stella McCartney e Reinaldo Lourenço, com preços muito menores que os praticados por suas marcas próprias, são não só uma forma de atrair um público novo, como também de democratizar o acesso à moda. Elio França, diretor de marketing da C&A, explica que já foram lançadas 15 coleções nesses moldes desde 2009. “Quando convidamos um estilista, expandimos a sua tradução da moda para mais pessoas, que vão poder consumir produtos com um design mais sofisticado por um preço mais competitivo.”

 

Para Elio, o que mudou não foi o poder aquisitivo, mas a postura dos consumidores. “O que percebemos é que o consumidor de moda tem buscado uma compra mais racional. Se hoje é possível adquirir um produto com informação, qualidade e com um valor interessante, ele não vai hesitar nessa escolha.” Para colocar tudo isso na balança, o público tem contado com aliados mais recentes. São jornalistas e blogueiros de moda que dão dicas de uma maneira menos complexa e mais divertida. “O acesso à informação de moda está cada vez mais facilitado, o que contribui para que as pessoas percebam que é algo pessoal. Não tem mais uma ditadura. O que importa é estar bem, com autoestima elevada, e isso é mais fácil de ser conquistado se mais opções estiverem disponíveis.”

 

O produtor de moda Marcelo Brasiliense, 27 anos, que tem o estilo como sua profissão, mostra inúmeras possibilidades ao se vestir. Ele mescla algumas peças-conceito de marca com outras garimpadas em brechós e lojas de departamento. “Meu estilo é bem minimalista e monocromático e, como sou bem skinny, privilegio marcas que me vestem melhor. Não só no ramo de departamento, a Zara é uma das minhas lojas favoritas.”
 
 

Marcella Kanner, gerente de marketing da Riachuelo, também acredita que as mudanças percebidas nas araras das lojas de departamento surgiram a partir de demandas dos consumidores. “Melhor informados, eles passaram a exigir que isso se refletisse também nas peças. Antes, a roupa tinha uma função básica, que era a de cobrir; hoje, há preocupação com tendências e design. Está cada vez mais comum o high-low, que é combinar peças mais caras com mais baratas em um único look, algo que já acontece há bastante tempo lá fora.”

 

Marcella explica que a ideia das coleções de estilistas famosos serve tanto para servir o cliente fiel da loja quanto para atrair novos consumidores. “Às vezes, eles nunca tinham entrado em uma loja e passaram a comprar não só as coleções dos estilistas, como também os produtos próprios da nossa marca.” A coleção do Dia dos Pais, assinada por Lorenzo Merlino, conhecido por seu trabalho com alfaiataria, vai atender também a uma reclamação da clientela masculina que gosta de moda e se importa com questões como a modelagem das roupas.

 

 
 

As coleções são esporádicas, para não perder o fator surpresa e evitar cair na previsibilidade. Aliás, cair na rotina é algo difícil para quem está inserido no universo das lojas de fast fashion. Peças novas, de produção própria, desembarcam nas unidades com frequência mínima de três dias por semana, podendo chegar a ser diária em lojas de maior fluxo. Isso requer um investimento alto em pesquisas. “Temos uma equipe de estilo com cerca de 60 pessoas e mantemos um estilista no nosso escritório em Xangai, na China”, conta Marcella.

 

Na C&A não é diferente. São 214 lojas, de Porto Velho a Pelotas, o que significa uma diversidade de dimensões continentais. “É preciso se adequar às expectativas de cada público, por isso o desenvolvimento de produtos é constante, levando em consideração as estações e as questões regionais”, explica Elio.

 

A Renner ainda não apostou na parceria com estilistas famosos – com exceção da criação de um perfume exclusivo da estilista venezuelana Carolina Herrera –, mas criou um referencial que se diferencia das outras lojas. Por meio do conceito lifestyle, seis das 15 marcas próprias de vestuário têm espaços específicos nas lojas, definidos de acordo com estilos de vida, desde casual até neotradicional, passando por contemporâneo e jovem. A ideia é que o cliente possa encontrar com mais facilidade um guarda-roupa para situações variadas, o que otimiza o tempo de compras. Há também coleções completas, definidas por ocasiões de uso, como infantil, esporte e gestante.

 

Laura Guimarães tem preferência por peças-curinga e abusa nos acessórios. “São eles que realmente incrementam um look”, diz a gestora cultural, 26 anos. E foi na busca por diferentes opções que ela se identificou com as lojas de departamento. “O leque de possibilidades me surpreende a cada estação. É preciso estar atenta. Nas araras, encontra-se de tudo um pouco, mas quase sempre acho ótimas peças – e o melhor, com preço justo. Atualmente, a maioria das minhas meias-calças, óculos escuros e bolsas foi comprada na Renner.”
 
 

Para viabilizar e manter toda essa estrutura, é preciso que a equipe de criação pesquise temas e cores para cada marca e estilo, além de acompanhar desfiles e feiras nacionais e internacionais e traduzir as tendências urbanas dos grandes centros consumidores. Só assim é possível prender a atenção de quem é inundado por novas informações e must have ininterruptamente. Para a consultora de imagem Julia Bello, o grande apelo das lojas de fast fashion é a capacidade de reproduzir as tendências em tempo recorde e de torná-las acessíveis. “Essa democratização da moda tem mais a ver com o estilo, inclusive comportamental, das pessoas do que com a classe social na qual ela se insere. A ideia de que lojas de departamento fazem parte de um universo popular é algo nosso, brasileiro.”

 

Julia atenta para outra questão: “A moda no Brasil é cara e os preços das peças das lojas de departamento estão mais altos que antes. Quem quer ou precisa comprar roupas realmente baratas teve de migrar para outras opções, como as lojas Pernambucanas, Americanas e supermercados.” Seja da origem que for, as compras de moda são preciosas para a economia de qualquer lugar. “O consumidor fashion tem um volume de compra enorme. Independentemente do preço dos itens, a quantidade é muito maior que em outros setores. Isso se deve ao fato de que esse tipo de consumo é muito determinado pelo lado emocional.”

 

Segundo a consultora, especialmente as mulheres encaram a moda como uma válvula de escape. Um elemento novo no look influencia a forma de agir. “A moda hoje tem até mesmo um caráter lúdico, de experimentação, de mudança. A possibilidade de variar a sua própria imagem fica mais fácil ao se gastar menos com mais peças ao seu alcance. As marcas de luxo entenderam isso e estão optando pela democratização. Creio que essa tendência de dar mais acessibilidade a itens de designers tenha vindo de cima, como um movimento desencadeado pelas grandes maisons que chegou às lojas de departamento.”

 

De fato, se o consumo de luxo e o fast fashion já tiveram significados quase opostos, o novo cenário em que as lojas de departamento estão inseridas permite parcerias antes nunca imaginadas. Exemplo disso é o anúncio que a Riachuelo vai lançar, ainda neste segundo semestre – uma coleção de verão assinada pela Daslu, a maior butique de luxo do país. Foram quase quatro meses de negociações e o acordo prevê que as peças a serem comercializadas serão desenhadas por estilistas da Daslu e fabricadas pela Riachuelo.

 

Os produtos serão exclusivos – ou seja, não vão ser vendidos nas lojas da butique paulista. Especula-se que os preços dos itens sejam próximos aos da coleção da estilista britânica Stella McCartney para a C&A, no ano passado, em que era possível comprar um vestido por menos de R$ 200. As marcas, porém, não entraram em detalhes sobre a coleção. De acordo com Marcella Kanner, a parceria tem tudo para ser um marco para a Riachuelo. “Conseguir levar uma marca como a Daslu para o nosso cliente é reafirmar o compromisso de democratizar cada vez mais a moda.” Em nota, Patrícia Cavalcanti, diretora de marketing da Daslu, afirma que ampliar os canais de acesso à marca sempre esteve nos planos. “É incrível saber que vamos difundir a nossa moda a um público tão grande. Este sempre foi um desejo da Daslu.”

 

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