Indígenas

por Eduardo Almeida Reis 13/09/2012 09:08

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Jânio Quadros teria dito a um dos irmãos Villas-Bôas que “brasileiro não gosta de índio”. Desconcordo do ex-presidente. Tive no Mato Grosso do Sul um amigo de etnia cadiuéu, o bugre Celestino, então um dos raros índios com o curso científico completo. Diagnosticado aos 30 anos com um problema cardíaco grave, jogava futebol o dia inteiro. Da última vez que dele tive notícia, Celestino estava com 93 anos.

 

Jânio da Silva Quadros mudaria de opinião sobre os brasileiros se conhecesse, como conheci, lindíssima jornalista mineira de etnia maxacali. Era um pitéu e hoje deve orçar pelos 50 aninhos. Só não deveria dizer onde a conheci, mas não resisto, porque não tenho segredos para os leitores de Encontro: foi numa festa junina ali perto de Sete Lagoas, MG. Ninguém é perfeito. Penitencio-me das festas caipiras em que andei metido, nada que se comparasse, é verdade, ao ridículo daquelas promovidas pelo casal Lula da Silva na Granja do Torto, negócio de envergonhar um continente.

 

Quentão, chapéu de palha com as abas desfiadas, roupas fingindo que foram remendadas e músicas do gênero sertanejo deveriam ser proibidos por lei, se o Piscinão de Ramos tivesse leis respeitáveis e respeitadas. Mas é a tal coisa, como diz dos ministros do STF o historiador Marco Antônio Villa: “Um deles chegou a ‘abrir sua casa’ para uma reportagem e tirou uma foto, deitado na cama, ao lado da sua esposa! Tem ministro poeta, outro é empresário de ensino, tem ministro que foi duas vezes reprovado em concurso para juiz – e, mesmo assim, foi alçado ao posto maior da carreira, mas sem concurso, claro –,  tem ministro que chegou lá devido à sorte de quem era vizinho da sua mãe”.

 

Falávamos de índios, não é? Pois fique o pacientíssimo leitor sabendo que estive entre os xavantes no fim da década de 1960. Sócio de um escritório de projetos agropecuários, fui ver as terras de um grupo europeu situadas em uma área reivindicada pelos índios, cuja aldeia distava cerca de dois quilômetros do acampamento europeu. Havia um riacho, profundidade média de metro e meio, separando os xavantes do pessoal não indígena.

 

E o jumento que compõe estas bem-traçadas cismou de tomar banho no riacho quando clareava o dia. Por elitismo, defeito de fabricação ou sensibilidade podal (relativa ao pé), não sei andar descalço. E o caminho de terras péssimas, bem como o leito do riacho, era um mar de pedrinhas. Fui de chinelo de dedo, short, toalha e sabonete, sem óculos. Mesmo sem eles enxergo razoavelmente.

 

Ao entrar no riacho, temperatura agradável, um dos chinelos fugiu boiando. Joguei o sabonete na margem e disparei, entre correndo e nadando, para pescar o chinelo fugitivo. Pesquei-o, calcei-o, retomei o banho e só então percebi que o imbecil de um dos europeus havia filmado em Super-8 a cena da pesca ao chinelo, pescador branco, gordo, nu em pelo, metido num riacho mato-grossense. Tive o desprazer de assistir ao filme depois de revelado na Inglaterra. O investidor europeu era gerente, no Rio, de uma companhia inglesa de aviação.

 

Em favor de minha ousadia deve ser dito que trabalhava para o grupo europeu um cavalheiro chamado Chico, afrodescendente de quase dois metros de altura, conhecido em todo o Mato Grosso como grande exterminador de silvícolas. Os índios morriam de medo do Chico.

 

Por isso, quando os xavantes vinham conversar com os europeus sobre a titularidade das terras, a cena resultava divertida. Armados com suas cartucheiras de diversos calibres, os guerreiros chegavam em grupos de meia-dúzia. Quando se aproximavam dos europeus, retiravam os cartuchos e os guardavam nos bolsos dos calções, sinal de respeito pelo Chico, que lá estava escondido no rancho, metralhadora municiada para o que desse e viesse.

 

Durante a estada na região do conflito, fui formalmente apresentado ao conselho de anciãos da aldeia, uns 30 índios em semicírculo, que cumprimentei, um a um. Ali pelo terceiro da lista, notei que me falavam em seu idioma algo que deveria corresponder a “muito prazer”, motivo pelo qual adotei o grunhido para apertar as mãos dos demais. Até que um deles me disse: “Muito prazer. Como tem passado o senhor?”. Fui apurar e soube que o xavante estivera três vezes em Londres, levado por etnólogos.

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