Menina de ouro

por Pabline Félix 14/09/2012 09:06

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Gladyston Rodrigues, Mauricio Kaye, Divulgação
None (foto: Gladyston Rodrigues, Mauricio Kaye, Divulgação)

Se fosse para escolher, a belo-horizontina Fabiana Claudino, capitã da Seleção Brasileira de Vôlei, que conquistou neste ano a medalha olímpica de ouro, não teria se tornado uma atleta. “Quando eu era criança, não queria nem saber de vôlei. Meu sonho era ser modelo. Queria viajar o mundo todo desfilando. Mas minha mãe disse que ia me levar a um jogo e, se eu não gostasse, não precisava ficar”, afirma a jogadora, que desde muito cedo já se destacava pela altura e porte atlético. Mal sabia ela que o esporte a faria conhecer tantos ou mais países que a carreira da moda. Graças à habilidade e à persistência demonstradas em quadra, Fabiana tornou-se uma atleta exemplar: ela é bicampeã olímpica e foi escolhida como a melhor bloqueadora das Olimpíadas de Londres – e motivo de orgulho para o país, em especial para Santa Luzia, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte onde a jogadora cresceu. “Valeu todo o esforço, toda a renúncia, toda a saudade”, diz Fabiana, sobre a medalha.

 

Seleção Brasileira Feminina de Vôlei comemora a conquista do ouro nas Olimpíadas de Londres: Fabiana (esq.) foi escolhida a melhor bloqueadora da competição
 
 

“Agora, sempre tem carro parando para perguntar se a Fabiana mora aqui, querendo vê-la, abraçá-la, ganhar um autógrafo, saber qual a fórmula para jogar bem”, conta a prima Auxiliadora Xavier, que mora em frente à casa da família da campeã. Professora da rede municipal de ensino, Auxiliadora diz que são constantes os pedidos para que leve a jogadora até a escola. “Mas isso é muito difícil, porque ela quase nunca para em casa”, diz.

 

A rotina apertada, dividida entre os treinos nos clubes pelos quais passou e na Seleção Brasileira de Vôlei, quase não permite a Fabiana desfrutar de programas “normais”, como ir ao shopping e namorar. “Tenho sorte pelo fato de o Igor (Igor Braz Vilela, jogador carioca atualmente sem clube, com o qual namora há oito meses) ser atleta também. Ele entende a correria, a falta de tempo, os compromissos. Mas é muito ruim ficar tanto tempo longe, como acontece em época de temporada”, diz ela. Apesar da aparente dificuldade, o namoro resistiu à mudança da jogadora para a Turquia, onde morou por seis meses para jogar no Fenerbahçe Universal, time comandado pelo também técnico da Seleção Brasileira José Roberto Guimarães, e com o qual foi campeã do principal torneio europeu, o Champions League.

 

Os pais da jogadora, o motorista Vital e a dona de casa Maria do Carmo, superaram dificuldades para manter a filha nas escolinhas de esporte
 
 

“A Fabiana é uma menina tranquila, que está sempre satisfeita. A única reclamação dela é mesmo a falta de tempo. Para essas meninas que jogam profissionalmente e ainda servem à seleção, não existem férias”, explica a ex-jogadora, amiga e empresária Ana Flávia Sanglard, responsável por gerenciar a carreira da atleta há oito anos e meio. Nesse período, foram muitas as mudanças pelas quais passou a jovem de 1,94 m e 27 anos. “Da primeira Superliga, disputada ainda pelo Minas Tênis Clube, até esta medalha de ouro, é nítida a evolução dela, tanto física quanto técnica. Acima de tudo, a maturidade que a Fabi adquiriu nesse tempo fez dela uma jogadora completa”, avalia.

 

E se hoje a camisa 1 da seleção é reconhecida nas ruas, dá autógrafos a celebridades (o famoso jogador de basquete americano Kobe Bryant declarou ser fã da morena) e é convidada para ir a programas de televisão, o início da sua caminhada não tem nada de glamouroso. Ao contrário: exigiu da menina responsabilidade e força de vontade para superar as dificuldades, especialmente o cansaço. Ela acordava diariamente às 5h30, tomava o ônibus intermunicipal que ia de Santa Luzia à capital, dedicava-se aos estudos no Colégio Padre Machado, onde tinha bolsa, e, depois do almoço, seguia para uma rotina tripla de treinos no Minas, local onde aprendeu a jogar. Isso mesmo: Fabiana nunca havia sequer brincado de vôlei até chegar ao clube. Segundo ela, foi a estatura de 1,85 m o carimbo de aprovação no teste. “Quando a Fabiana chegou à ‘peneira’, altona e magra, decidimos dar uma chance”, lembra a técnica Yara Ribas, diretora-adjunta de voleibol feminino do Minas e responsável pela seleção dos novos talentos no fim dos anos 1990.

 

Hoje, as lembranças do começo difícil são motivo de orgulho e argumento para defender o vôlei daqueles que o consideram um esporte elitizado: “É justamente o contrário. A maioria das pessoas que joga vôlei no Brasil tem família humilde, teve de ralar para conseguir alguma coisa.”, diz Fabiana.

 

Apaixonada pela família, a jogadora garante que é dos pais o mérito por ela e seu irmão – Bruno, jogador de basquete nos Estados Unidos – terem ingressado e se mantido no esporte. “A gente sempre incentivou mesmo, porque os meninos tinham muita energia. Havia dificuldades financeiras, claro, mas não era exclusividade nossa.  Hoje, eles são motivo de alegria”, afirma o pai, Vital Claudino, aposentado, que sustentou as despesas do início da carreira dos dois filhos com o salário de motorista de ônibus interestadual. À mãe, Maria do Carmo, coube a responsabilidade pelo suporte emocional. Ela sempre ia ao encontro das crias quando a saudade ficava grande demais.

 

A ex-jogadora Ana Flávia Sanglard gerencia a carreira de Fabiana: “Ela é uma menina tranquila e está sempre satisfeita”
 
 

A personalidade extrovertida e o sorriso no rosto são marcas de Fabiana, especialmente fora de quadra. “Muita gente diz que, se me conhecesse apenas dentro de quadra, ia ter medo de mim. Mas é porque a quadra exige da gente uma concentração, uma postura um pouco diferente. Em casa, sou muito palhaçona”, define. “Ela está sempre alegre, sorrindo, para cima. Para agradá-la, um simples bate-papo já é suficiente”, diz o namorado, Igor Vilela.

 

É também a simpatia a arma de Fabiana para enfrentar os resultados ruins e a pressão pelo pódio, que, segundo ela, é pior no Brasil: “Aqui, existe uma cultura muito cruel de achar que ser vice ou ser prata é ser perdedor. Você enfrenta os melhores atletas do mundo, fica em segundo e é como se tivesse ficado em último”, afirma. A maturidade e a garra que demonstra em qualquer circunstância fizeram de Fabiana a escolhida para capitanear o time principal do vôlei feminino brasileiro na última edição das Olimpíadas. Mesmo em situações de extrema tensão, ela é capaz de transmitir ao time tranquilidade e vontade de vencer, qualidades fundamentais para enfrentar adversárias do quilate de russas e americanas, por exemplo, equipes contra as quais as jogadoras protagonizaram os melhores jogos da modalidade. Uma boa parte dessa calma é atribuída à imperturbável confiança em Deus: “É tudo para mim mesma. Eu não deixo de pedir a Deus por cada jogo, cada decisão”.

 

A meio de rede atualmente defende o Sesi-SP e, apesar de estar longe da aposentadoria, já planeja unir, no futuro, três paixões em único projeto: por meio da criação de uma escolinha de vôlei, ela quer beneficiar as crianças de Santa Luzia. “Eu amo crianças, amo Santa Luzia e amo o vôlei. Ainda é um sonho, não sei como viabilizar isso, mas é permitido sonhar, né?” Claro, Fabiana; ainda mais se outras ‘Fabianas’ tiverem a mesma oportunidade de brilhar.

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