Ele quer entrar para a política

por Sergiovanne Amaral 14/09/2012 09:46

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Cláudio Cunha, Eugênio Gurgel
O empresário Mário Valadares com alguns dos jovens apadrinhados no Projeto Providência (foto: Cláudio Cunha, Eugênio Gurgel)

O empresário mineiro Mário Valadares gosta de surpreender. A julgar pelas apostas que fez nas últimas décadas, há quem diga que, no fundo, ele sente certo prazer em fazer o que ninguém espera. Depois de uma vida lançando empreendimentos nos mais diversos segmentos – o mais famoso deles é o Shopping Oi (Oiapoque), o primeiro shopping popular de Belo Horizonte –, resolveu entrar para política, lançando-se este ano como candidato a vereador pelo PSB. Não haveria surpresa nisso – muitos empresários resolvem meter-se no Executivo ou no Legislativo – se não fosse a promessa, documentada em cartório, de doar o salário de quatro anos de mandato para projetos sociais. A atitude não chega a ser uma novidade, tendo em vista que há campanhas Brasil afora convocando os candidatos a se comprometerem da mesma forma, mas tem despertado a curiosidade de parte da população. “Nunca fui político e nem tenho vocação, mas tenho colocado em prática algumas ideias de interesse da sociedade”, conta. Aliás, não só por isso o empresário vem chamando a atenção há um bom tempo.

 

Filho de um militar e uma dona de casa, Mário Valadares Resende Costa, hoje com 54 anos, deixou o Brasil quando era jovem para estudar ciência da computação nos Estados Unidos. Mais tarde, de volta a Belo Horizonte, conseguiu emprego como programador no Banco Mercantil. Ficou lá alguns anos e, quando os mais próximos pensaram que ele seguiria carreira nessa área, decidiu abrir um bar na Savassi. Não era um negócio inovador, mas o novo empresário focou seu investimento em um público pouco explorado na capital: as mulheres. Com Max Resende, seu irmão mais velho, inaugurou o Aloha e passou a servir coquetéis coloridinhos e docinhos para as mocinhas que frequentavam a Savassi. Em pouco tempo, o bar virou um point e a dupla abriu também uma boate.

 

A computação havia sido deixada de lado e agora Valadares seria um empresário da noite, certo? Errado. Ele e o irmão venderam o bar e a boate e, em 1988, investiram em uma transportadora, a Meridional Cargas. “Compramos duas Kombis, agregamos dois caminhões e fomos à luta”, conta Valadares. O negócio deu certo. A Meridional cresceu, abriu filiais em outros estados e chegou a ser a maior empresa de transporte de cargas fracionadas de Minas Gerais.

 

Marlene Martins, uma das primeiras a investir no centro de compras: “Foi a salvação da lavoura”
 
 

Da computação para a night belo-horizontina, da night para o ramo de transporte de cargas, e do transporte de cargas para... os camelôs. Não. Mário Valadares não virou camelô. Ele decidiu investir nesses vendedores marginalizados do centro de Belo Horizonte e, mais uma vez, surpreendeu família, amigos e outros empresários, mudando novamente de ramo.

 

Para entender a grande jogada que fez com que Valadares descobrisse uma mina de ouro desprezada e ficasse conhecido internacionalmente, é preciso pular para meados de 2002, quando um impasse envolvia um grande imóvel na avenida Oiapoque, no baixo centro de BH, uma conhecida zona boêmia com botecos sujos e reduto noturno de bandidos. O prédio onde funcionaram algumas fábricas de cerveja estava abandonado e havia sido condenado, depois de constatado que estava em avançado estado de demolição. Valadares vendeu suas cotas na Meridional, sua parte em um imóvel alugado por uma grande loja de roupas, acrescentou algumas economias que havia feito ao longo de décadas e arrematou o prédio em leilão da cervejaria Antarctica. “Era um lugar invadido, caindo aos pedaços, no meio da prostituição de Belo Horizonte. Quando fiz isso, minha mulher até chorou”, brinca. O valor pedido era R$ 1,5 milhão, mas ele conseguiu levar por R$ 350 mil a menos.

 

Um ano depois, a Prefeitura de Belo Horizonte aprovou Código de Posturas que tinha como mudança mais radical a remoção dos vendedores ambulantes das ruas do centro da cidade. Com um grande imóvel em mãos, mas sem saber ao certo o que fazer, Valadares assistiu à grande crise entre camelôs e prefeitura, e preferiu chamá-la de oportunidade. A prefeitura já preparava um projeto de revitalização do centro de Belo Horizonte, chamado Centro Vivo, e a proposta que o empresário fez caiu como uma luva para os interesses do governo: criar um shopping popular para que os camelôs pudessem trabalhar. De camelôs eles passariam a lojistas.

 

Éverson Lacerda, jogador de basquete e campeão nos Estados Unidos: “Eu não era ninguém, mas com a ajuda dele hoje falo inglês fluentemente e tenho curso superior”
 
 

A prefeitura topou e, inclusive, ajudou o empresário a levantar verbas para reformar o que seria o mais novo camelódromo de Belo Horizonte. A empreitada foi um sucesso. Em pouco tempo, outros shoppings populares foram aparecendo, como o Xavantes, o Caetés e o Tupinambás – esse último também de Mário Valadares e do irmão, Max. “Sem sombra de dúvida, BH é hoje a única grande metrópole do Brasil que não tem camelôs nas ruas do centro”, afirma Valadares.

 

Marlene Martins Cataldo, 48 anos, vendia brinquedos na rua e foi uma das primeiras a migrar para o Shopping Oi. Satisfeita com o rendimento do seu empreendimento, ela vê o shopping como um divisor de águas. “A verdade é que isso aqui foi a salvação da lavoura”, comemora a dona da Mel Presentes. Wilson Romaldo Santos, 41 anos, o Baiano, faz coro com Marlene. “Minha primeira reação foi achar que não iria dar certo. Nos primeiros meses, já tinha mudado de opinião”, conta.

 

Mas nem todo mundo que trabalha no Shopping Oi está satisfeito. “Hoje, o preço dos aluguéis é um absurdo. Era um valor praticamente simbólico, mas depois ficou caro demais”, afirma Aladias de Oliveira Gomes Grillo, 45 anos, vice-presidente da Associação dos Camelôs, Feirantes e Vendedores Ambulantes do Estado de Minas Gerais. “Começaram cobrando aluguel de R$ 100 e hoje são cobrados, em média, R$ 1.700. Somando isso ao valor do condomínio, que é de R$ 377, passamos de R$ 2 mil no total. O valor do metro quadrado do Shopping Oi chega a ser mais caro do que o valor cobrado nos shoppings tradicionais, com infraestrutura bem melhor”, diz Grillo.

 

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Paralelamente aos negócios, Valadares tem se engajado em projetos sociais. Criou uma escolinha de basquete para crianças carentes no bairro Havaí, região Oeste de BH, hoje com 68 crianças. Também apadrinhou 25 crianças do Projeto Providência, iniciativa social criada pelo padre Mário Pozzoli. Quase 3 mil crianças de três favelas da capital – Vila Maria, Taquaril e Fazendinha – são atendidas por esse projeto. Elas recebem formação integral em atividades educativas, religiosas e culturais. “Temos um custo de R$ 5 milhões por ano. A prefeitura e o estado ajudam, mas, geralmente, ficamos no vermelho. Ajuda de pessoas como o Mário faz toda a diferença”, explica Rosilene Patrício Neves, assessora do padre Pozzolli. As crianças apadrinhadas pelo empresário são matriculadas em escolas particulares e têm todas as despesas pagas por ele.

 

Éverson Lacerda, de 25 anos, é um dos que recebeu uma mãozona do empresário. Em 2007, aos 20 anos, ele jogava basquete no Ginástico, um clube da capital, quando seu treinador o apresentou a Valadares, que jogava com os veteranos e até hoje é apaixonado e entusiasta do esporte. “Ia parar de treinar para trabalhar, mas o Mário me arrumou um emprego no Shopping Tupinambás e, depois, uma bolsa para que eu fosse jogar basquete e estudar nos Estados Unidos. Mal pude acreditar.”

 

Éverson estudou nos EUA e chegou a começar um mestrado em comércio exterior, mas voltou ao Brasil este ano para reencontrar a família. “Eu não era ninguém. Hoje falo inglês fluentemente e tenho curso superior. Ele nunca me pediu nada em troca”, diz.

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