O Zé de todos os amigos

por Daniela Costa e Aníbal Penna 14/09/2012 12:39

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Samuel Gê, Arquivo pessoal
José Aparecido com os filhos Maria Cecília e José Fernando, em 1980 (foto: Samuel Gê, Arquivo pessoal)

Certa vez, em frente à antiga redação do Estado de Minas, na rua Goiás, em Belo Horizonte, o jornalista, político e intelectual mineiro José Aparecido de Oliveira foi apresentado a um repórter que estava no início de carreira. Franco e direto, respondeu sem pensar muito: “Infelizmente, ainda não o conheço. Contudo, tenho certeza que sou amigo do seu pai”. Dito e feito. A amizade com o pai foi confirmada pelo jovem repórter que, fisgado no coração, acabou se tornando “o mais novo amigo do Zé”.

 

A personalidade cativante era, de fato, uma de suas características mais marcantes – e por essas e outras é que o cartunista e escritor mineiro Ziraldo o definiu como “o melhor mineiro do mundo”. Como poucos, Zé Aparecido desenvolveu a rara arte de colecionar amigos e admiradores. Do dia em que nasceu (17 de fevereiro de 1929, em Conceição do Mato Dentro) até a sua morte (19 de outubro de 2007, em BH), José Aparecido foi, nas palavras de retribuição dos amigos, uma pessoa abençoada. Afinal, ele mesmo dizia: “Nada pode me atingir, sou descendente direto de Nossa Senhora Aparecida”. O Aparecido do nome foi uma homenagem que a mãe fez à Padroeira do Brasil.

 

Agora é a história dele que ganha uma homenagem toda especial, com o lançamento, em novembro, do livro O Melhor Mineiro do Mundo, que mostra a trajetória do mineiro que, segundo o também jornalista e intelectual Millôr Fernandes, era “o centro de uma espontânea confraria de pessoas ilustres, importantes, talentosas ou até mesmo pura e simplesmente belas”. Se os amigos nunca faltaram, a política, bem ao estilo mineiro, também sempre esteve presente, com uma rara capacidade administrativa e conciliadora.

 

A ideia do livro, organizado pelo escritor e jornalista Petrônio Souza Gonçalves, 39 anos, foi dos familiares e da Y.C.O. Promoções e Produções de Eventos, que decidiram revelar, por meio de fotos e depoimentos de parentes e amigos – entre eles o arquiteto Oscar Niemeyer, o cartunista Ziraldo e o vice-governador de Minas, Alberto Pinto Coelho –, toda a vida de José Aparecido, trazendo à tona fatos pouco conhecidos.

 

Um deles foi a criação da TV Minas. Articulista nato, José Aparecido foi um dos responsáveis pelo seu funcionamento. “Na época, o governo de Minas possuía a concessão de um canal educativo e cultural que havia 10 anos não conseguia viabilizar. Quando a concessão estava prestes a se findar mais uma vez, em 1984, José Aparecido conseguiu a doação de um transmissor vindo do Rio Grande do Norte. Com isso, ele cumpriu o prazo determinado e depois investiu na ampliação da rede”, diz Petrônio Gonçalves.

 

O jornalista e escritor Petrônio Souza Gonçalves se orgulha da missão: “Fui encarregado de organizar o livro que faz um retrospecto da  vida de José Aparecido. É uma grande honra”
 
 

A vida pública de José Aparecido é extensa e importante. Além de deputado federal, foi secretário estadual de Cultura do governo de Hélio Garcia e ministro da Cultura no governo de José Sarney. Participou da fundação da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), que premiou em julho, com o troféu que levou seu nome, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por sua contribuição na divulgação da língua portuguesa. Quando governador do Distrito Federal em 1985, José Aparecido teve participação direta na decisão da Unesco de dar a Brasília o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Logo depois, assumiu a Embaixada do Brasil em Portugal, no governo Itamar Franco, tendo sido ainda assessor especial de Relações Internacionais no Governo de Minas. Como jornalista atuante, trabalhou em rádios e jornais diários, tendo sido orador oficial do Primeiro Congresso Mundial de Jornalistas realizado em Santiago do Chile, em 1953.

 

Pela primeira vez, o homem que é conhecido por tantos feitos é mostrado não só como político, mas também como um jovem sonhador e apaixonado, um pai amoroso e parente dedicado, além de um amigo para todas as horas. O menino do interior de Minas desde cedo aprendeu a seguir os conselhos da mãe, Dona Araci Pedrelina de Lima Oliveira. Logo nas primeiras páginas do livro, o leitor vai encontrar uma frase escrita por ela em um diário: “Seja exemplar na pontualidade, na eficiência, na iniciativa, na boa vontade e na educação”. Os conselhos, seguidos à risca, levaram o garoto, que perdeu o pai aos 11 anos de idade – Modesto Justino de Oliveira morreu em um acidente de carro –, a assumir todas as obrigações de chefe de família junto à mãe e aos quatro irmãos caçulas. A responsabilidade seria apenas a primeira das muitas assumidas por José Aparecido ao longo de seus 78 anos de vida.

 

As fotos mostram o extenso currículo de amizades e admiradores, como o ex-presidente Tancredo Neves, o papa João Paulo II e Nelson Mandela, que governou a África do Sul e, com sua luta contra o apartheid [regime de segregação racial que, entre 1948 e 1990, vigorou na África do Sul], ganhou o Nobel da Paz. As histórias também estão presentes, como a participação ativa em vários governos. José Aparecido foi secretário particular de Jânio Quadros, quando participou de um dos mais importantes momentos da história brasileira: a renúncia do então presidente e a posse do vice, João Goulart. Há ainda memórias do coração, como a ocasião em que conheceu Maria Leonor Gonçalves de Oliveira, a futura mulher. “Ele estava em um restaurante com uma namorada. Quando viu Leonor, disse em alto e bom som, para todos ouvirem,  que ela seria a mãe de seus filhos”, conta Petrônio.

 

Mesmo com tantas revelações, segundo o organizador, a obra não deve ser considerada uma biografia: “Minha vida se resume a antes e depois de conhecer José Aparecido. Ele me levou ao mundo literário. Por isso, não tenho a pretensão de fazer uma biografia, mas sim um relato das facetas de um homem que, por sua generosidade, é praticamente impossível de ser descrito”.

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