Um brinde à inovação

por João Paulo Martins 17/09/2012 14:21

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Mariana Penaforte/Ascom/Epamig
None (foto: Mariana Penaforte/Ascom/Epamig)

Uma observação feita pelo botânico francês Auguste Saint-Hilaire, que veio ao Brasil no início do século XIX, durante visita à serra da Canastra, em Minas Gerais, foi o esboço para que se conseguisse produzir uva syrah no Sul do estado, por meio de pesquisa da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). O botânico francês presenciou famílias italianas cultivando vinho em pleno outono, e foi justamente essa alteração do ciclo produtivo da planta o que permitiu que, em breve, o mercado receba o primeiro rótulo de vinho fino mineiro produzido com 100% de syrah.

 

Essa uva é originária do Sudeste da França, no Vale do Rhône, e é muito comum no mundo do vinho, especialmente para elaboração dos chamados blends (mistura), sendo cultivada em oito países, incluindo Estados Unidos, Austrália e Chile. No Brasil, está ligada à região tradicionalmente associada à produção de café: Sul de Minas Gerais. O pesquisador Murillo de Albuquerque Regina, da Epamig, em Caldas, Sul do estado, iniciou os estudos para adaptação do ciclo produtivo da syrah em 2001. Como essa uva está pronta para ser colhida em nossa estação chuvosa – no verão, de dezembro a março –, o que gera perda na produtividade e qualidade, foi preciso, por meio de poda, forçá-la a se adaptar à época de seca, ou seja, de abril a setembro. “Partindo do princípio de que uvas bem maduras são indispensáveis para a elaboração de bons vinhos e de que, nas melhores regiões vinícolas mundiais, o clima que antecede a colheita é caracterizado por dias ensolarados e noites frias, invertemos o ciclo da videira”, explica Murillo.

 

O tipo de poda varia ao longo do ciclo produtivo da planta. Quando o vinhedo completa um ano, o corte dos ramos ajuda no crescimento, e até o terceiro ciclo de vida, quando a videira está na fase adulta, as podas são feitas visando ao fortalecimento dos galhos laterais. Mais tarde, os cortes, que devem ser feitos até a morte da planta – que pode durar até 25 anos –, são necessários na formação dos esporões, ou seja, das estruturas responsáveis por abrigar os cachos da uva.
Os testes de poda foram realizados na fazenda experimental da Epamig, na cidade de Caldas, mas hoje a produção de syrah em plena estiagem já é uma realidade. Por meio da aquisição de mudas, vinícolas do Sul do estado, nas cidades de Cordislândia, Três Corações e Andradas, estão em fase produtiva e se preparando para a entrada no mercado. “Tudo leva a crer que, dentro de poucos anos, Minas Gerais fará parte do cenário nacional de produção de vinhos finos de qualidade”, completa o pesquisador Murillo de Albuquerque Regina.

 

 
 

Em termos comerciais, o primeiro rótulo 100% syrah a chegar ao consumidor será o da vinícola Estrada Real, que fica na Fazenda da Fé, em Três Corações. A empresa já produziu 30 mil garrafas, que serão distribuídas ainda este ano. Segundo o sócio-proprietário da vinícola, Marcos Arruda, seu vinho é o único do Brasil indicado para guarda, ou seja, deve ser armazenado em condições apropriadas para maturar e, depois de alguns anos, chegar à sua melhor forma para consumo: “Sem dúvida alguma, vai mudar a história da vinicultura em Minas.”

 

Já na cidade de Andradas, também no Sul do estado, José Procópio Stella aproveitou a experiência centenária de sua família italiana na produção de uvas para pôr em prática o projeto de cultivo de syrah em sua vinícola Vinhatella. Depois de já ter efetuado três colheitas, ele explica que o momento ainda é de teste, e que os vinhos produzidos são usados em degustações com profissionais da área: “A resposta está sendo positiva. Muitos especialistas estão adorando e comparando nosso vinho aos chilenos e até franceses”. Sobre a chegada do rótulo da Vinhatella ao mercado, tudo indica que será no fim do ano, próximo ao Natal, mas a comercialização ficará restrita à região próxima à vinícola.

 

Agora é só aguardar os inovadores vinhos mineiros chegarem às prateleiras para que os enófilos de plantão possam saboreá-los e tirar a prova da qualidade. Quem sabe não estamos vivenciando o surgimento da Borgonha brasileira?

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