Sucesso talhado na madeira

por Pabline Félix 09/10/2012 09:58

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J. C. Martins, Arquivo Pessoal,
O fundador da Líder, João da Mata, e a mulher, Luziara (foto: J. C. Martins, Arquivo Pessoal, )

Quando João da Mata Nogueira, fundador e dono da Líder Interiores, entrou na ampla sala de reuniões da sede da sua empresa, em Carmo do Cajuru, interior de Minas Gerais, nem percebeu que, no centro da extensa mesa de 10 lugares, havia dois potes de biscoitos amanteigados caseiros, daqueles que derretem na boca. Seus olhos treinados imediatamente encontraram as irregularidades nos cortes de madeira maciça que formavam o tampo do móvel, mantidos em estado bruto não por descuido, mas por escolha decorativa. Para Seu João, que aprendeu o ofício nos anos 1940 entre caprichosos artesãos, o acabamento meticuloso precede o estilo das peças: “São os detalhes que diferenciam um móvel do outro. Foi pelo cuidado que tive com esses detalhes que ganhei fama, fiz clientela. A minha vontade é lixar essa borda aqui, agora. Gosto das coisas bem lisinhas”, revela, passando as mãos inquietas sobre a superfície da mobília.

 

Com 85 anos de idade e 67 de dedicação à marcenaria, Seu João pode dizer com orgulho que construiu um legado que reflete, em muito, as suas melhores características. Perfeccionista, ele transformou o nome da Líder Interiores em sinônimo de móveis de qualidade. Trabalhador incansável, seus produtos ultrapassaram os limites de Carmo do Cajuru – cidade que tem hoje 20 mil habitantes e onde nasceu, foi criado e ainda reside – e conquistaram o status de referência nacional quando o assunto é bom gosto para mobiliário de ambientes internos. Empresário corajoso, é dele a responsabilidade por descobrir no ramo moveleiro a vocação econômica cajuruense. “Se hoje temos uma economia forte e emprego para todos, muito disso se deve a Seu João, que inaugurou a indústria de móveis na cidade. A Líder é a maior e mais moderna fábrica da região e abre caminho para várias outras”, afirma o prefeito Geraldo César da Silva. A cidade é o segundo polo moveleiro do estado – Ubá, na Zona da Mata, é o primeiro –, com 116 marcenarias e fábricas de móveis que empregam mais de três mil funcionários e respondem por 70% da economia municipal.

 

Tiago Nogueira, neto de Seu João e gerente de marketing: “Ele é um apaixonado por política e não havia como detê-lo”
 
 

A opulência da atual estrutura da Líder – que tem uma unidade fabril de 100 mil metros quadrados, 22 lojas distribuídas por cinco estados e Distrito Federal e 1.400 empregados – não lembra em nada o início tímido da oficina do Seu João. Segundo ele, era uma “porta” inaugurada em 1955 perto da praça da igreja matriz da cidade. Insatisfeito com o salário recebido na marcenaria do Tóti, seu primeiro patrão e o responsável por lhe ensinar a profissão, decidiu pedir demissão e abrir sua própria loja de consertos e móveis sob encomenda. “Eu fazia a mesma coisa que outros marceneiros faziam, mas sem ‘faltar pedaço’. Se eles faziam cristaleiras, entregavam sem aqueles ‘narizinhos’ que dão o toque. Já eu, não: o que eu mais gostava era de fazer os detalhezinhos. Móvel sem isso é a mesma coisa de gente pelada: não tem graça”, define, brincalhão.

 

O nome, explica a mulher Luziária, surgiu junto com o sonho do negócio próprio, reflexo da preocupação em oferecer o melhor serviço e, com isso, tornar-se destaque: “Desde o início, quisemos o nome Líder porque confiávamos muito no que era feito, no trabalho do João e das pessoas que estavam com ele. Claro que eu ficava pensando se isso um dia ia ser verdade, mas ainda bem que deu tudo certo”, comemora ela.

 

 
 

Por algum tempo, Seu João trabalhou com apenas dois companheiros, mas a chegada de funcionários da rede ferroviária aos municípios próximos – especialmente Azurita, distrito pertencente a Mateus Leme – fez com que a clientela aumentasse no início dos anos 1960. De personalidade expansiva e gosto por festas, ele logo formou uma ampla rede de contatos em Itaúna, Divinópolis e Belo Horizonte, que garantiu trabalho e renda para uma quantidade cada vez maior de empregados. Nessa época, a Líder ainda não contava com um catálogo e a produção era feita com base em “modelos externos”, como fotos de móveis produzidos em outros países, levados pelos próprios clientes. “As pessoas traziam fotos, páginas de revistas com móveis franceses, e eu ia tomando aquilo por base. A cadeira Luís XV é um desses produtos que comecei a fazer naquela época e ainda consta no catálogo atual”, afirma.

 

Em 1976, a fim de atender melhor a clientela da capital, ele abriu sua primeira loja em Mateus Leme, município que fica exatamente entre BH e Carmo do Cajuru, e designou como administradora Augusta Nogueira, a filha mais velha. Com a fama disseminada, o crescimento da marca foi exponencial. “Só fui contratar secretária muito tempo depois, então no domingo enchia de gente na porta da fábrica para eu atender. Eu ia almoçar já de noite, porque não dava tempo de parar”, lembra.

 

Fábrica da Líder ainda no início da empresa, em Carmo do Cajuru: atenção aos detalhes dos móveis fizeram a diferença
 
 

O crescimento da Líder só não foi maior porque Seu João decidiu enveredar pelos caminhos da política. Por 10 anos, ele se dividiu entre a administração da empresa e a da cidade, tendo ocupado os cargos de vereador e prefeito. “Isso com certeza afetou a maneira como meu avô levou os negócios. Não era raro ele doar coisas para a cidade. Mas ele é um apaixonado por política e não havia como detê-lo”, conta Tiago Nogueira, neto e gerente de marketing da Líder.

 

O crescimento dos negócios levou à abertura de cinco unidades, cada uma especializada na produção de uma linha de móveis e ficando sob a administração de um filho. Mas, se por um lado a ideia parecia boa e evitaria atritos internos, por outro gerava problemas para o consumidor, que recebia retornos diferentes. “Apesar de ostentar o mesmo nome, era como se a pessoa tivesse comprado produtos em cinco lojas diferentes. Gerava gastos internos diferentes, contava com prazos diferentes, atendimento diferente. Isso provocou desencontro para o cliente e um desgaste muito grande da imagem da empresa”, explica Cláudio Nogueira, diretor executivo. Foi então que, em 2005, a empresa iniciou a reestruturação de processos, com o objetivo de unificar produção e administração, fase que está sendo encerrada neste ano. A mudança no nome – inicialmente chamava-se Mobiliadora Líder – em 2007 é fruto desse reposicionamento, explica Tiago.

 

José Geraldo Nogueira, empregado da Líder há 33 anos: “Seu João sempre foi um chefe exigente, mas muito justo”
 
 

Apesar da escala industrial, a Líder faz questão de manter alguns processos quase artesanais, para não perder uma característica de produção que remete ao início da empresa. O setor de acabamento das cadeiras Luís XV e Luís XVI, por exemplo, ainda conta com o trabalho de artesãos munidos de formões e lixas. É nele que trabalha José Geraldo Nogueira, empregado da Líder há 33 anos. “Entrei aqui sem saber nada e fui aprendendo ao longo do tempo. Hoje, cuido da pintura das cadeiras, trabalho que exige muito cuidado. Mas isso aqui é regra para qualquer área. Seu João é um chefe exigente, mas muito justo. Depois de tantos anos aqui, o capricho já virou uma cultura geral”, garante ele.

 

Atualmente, o patriarca não ocupa nenhum cargo oficial no quadro de diretores da Líder. São dos cinco filhos os principais cargos de direção: Augusta, a mais velha, responde pela diretoria de decoração; Célia, pela financeira; Célio dirige o setor de estofados; Aurélio é o diretor comercial; e Cláudio, com perfil analista, responde pela diretoria executiva, onde tenta imprimir os ensinamentos do pai: “Sempre foi muito marcante o esforço dele em deixar claro para nós o que era certo e o que era errado. Ele nunca foi desses que passou por cima das pessoas para crescer, nunca quis tirar vantagem da situação. Sempre nos ensinou a respeitar os concorrentes”, diz.

 

Interior da fábrica da Líder hoje: em rtimo industrial, mas sem perder o charme das linhas artesanais
 
 

Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Mobiliário e Artefatos de Madeira de Minas Gerais (Sindimov-MG), Carlos Alberto Homem, a trajetória da empresa é orgulho para o setor em nível estadual: “A Líder é a menina dos olhos do nosso setor, pois atrai atenção nacional para a região, que tem muito potencial. Seu João, sem um alto nível de educação formal, colocou muito empresário no bolso por ver no oferecimento de produtos variados a oportunidade para se destacar”, diz.

 

Ainda hoje, Seu João não deixa de “bater ponto” na fábrica: diariamente, percorre os principais corredores do pátio fabril, vistoriando o funcionamento e garantindo que ninguém faça “corpo mole”, como ele mesmo diz. “Meu pai é muito trabalhador; então, se existe alguma coisa no mundo que realmente o chateia é gente descompromissada com o trabalho”, conta Cláudio. Aos sábados, faz questão de visitar as lojas de Belo Horizonte, quando leva queijo e doces tradicionais para os funcionários e aproveita para conquistar alguns clientes. “Eu sei que existem bons vendedores nas lojas, eles dão conta do recado, mas eu ainda acho que sou melhor. Sei vender o meu peixe”, garante, confiante, um senhor que parece longe de se aposentar.

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