Garrucha e gramofone

por Eduardo Almeida Reis 11/10/2012 09:39

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Tio Alberto era o cobrador dos Peres na Leopoldina de antigamente. Se um sujeito devia e não pagava, tio Alberto era escalado para a cobrança. Amanhecia no curral do inadimplente, ajudava a tirar o leite e a embarcar os latões no caminhão, picava o capim e misturava com o farelinho para tratar das vacas, aceitava o almoço das 10 da manhã, ajudava a apartar os bezerros, soltava a vacada nos pastos, entardecia na roça. Quando o devedor receava que tio Alberto ficasse para dormir, puxava o assunto da dívida com os Peres. O cobrador era admirável: “Não sendo garrucha e gramofone, eu aceito”.

 

Lembrei-me do tio dos meus velhos e queridos amigos diante das encomendas de Encontro. Noite dessas, a encomenda urgente foi de um texto sobre luxo para o menos luxento dos cronistas. Ninguém se lembra de me pedir 700 palavras sobre gado leiteiro, assunto que manjo ou manjei à beça. Receio que me peçam algo sobre conhecer os outros, porque ninguém conhece ninguém.

 

Você pode conviver 30 anos com uma senhora, que só vai conhecer na hora do divórcio. Daí o conselho que dou, de graça, aos maridos que me leem: namorar, se preciso for; divorciar-se, nunca! Sei que ficou parecendo com a divisa atribuída ao marechal Rondon sobre os índios. Divisa que teria sido desrespeitada no MT, quando encontraram índios ferozes. Daí o nome do Rio do Sangue, que, por sinal, conheci bastante.

 

Já que o tema indígena veio à balha, o que é mais chique do que vir à baila, achei divertidíssima a imensa foto colorida de Guito Moreto, estampada na capa de uma edição do Globo durante a famigerada Rio+20. Nela, dois seguranças do BNDES se escondem atrás de um muro, ameaçados de levar uma flechada de um guerreiro indígena.

 

Pelo visto, segurança do BNDES não entende de índio brasileiro. Nossos irmãos silvícolas são perigosos com as bordunas, mas flechada não acertam uma. Sei disso porque estive entre os xavantes do tempo em que havia guerreiros ainda virgens, isto é, que já guerreavam antes do primeiro contato com o homem dito civilizado, fosse branco, mulato ou negro.

 

Pedi aos anciãos da aldeia, velhos de mais de 35 anos, que flechassem um toco a 15 ou 20 metros de onde nos encontrávamos. Tentaram uma porção de vezes e não acertaram uma. Com os tacapes são perigosos, porque a bordoada é de perto.

 

Praza aos céus que, diante desses parágrafos indigenistas, os editores de Encontro não me peçam texto sobre etnologia. Etnólogo supimpa era o Lévy-Strauss, que descobriu coisas curiosíssimas em suas andanças mato-grossenses, como, por exemplo, duas tribos da mesma etnia distantes pouco mais de 100 quilômetros uma da outra. Uma desconhecia o homossexualismo masculino, enquanto a outra faria sucesso nas paradas de Orgulho Gay.

 

De qualquer maneira, a foto serviu para retratar a patacoada que foi a Rio+20. Só perdeu em originalidade para pequena foto, na mesma página, dos guerreiros Lula e Maluf trocando cafunés nos jardins da casa do paulista de origem árabe. Não muçulmano, porque tem reputada adega e é suposto de entender de vinhos.

 

Venham de lá as encomendas, que a gente dá um jeito. Escrevo para ganhar dinheiro atento à lição de Ivan Lessa: “Quem não escreve por dinheiro, não é digno da profissão”. E vou mais longe: se o texto não leva meu nome, nos trabalhos como ghost-writer escrevo contra ou a favor de qualquer coisa. É um trabalho como outro qualquer. Médico de pronto-socorro, quando tenta salvar o recém-chegado, não quer saber se o paciente é o Nem da Rocinha ou o presidente nacional de um partido político. Só não dá para entender o que deve ser feito com o hífen de ghost-writer, que tem no Houaiss e não tem no dicionário do doutor Bill Gates.

 

Nessas emergências linguísticas, o sujeito espicha o texto e fatura duas dúzias de palavrinhas, que sempre ajudam no pagamento dos charutos. De que vale ganhar dinheiro se não for para comprar charutos? Dir-se-á que os cobres também servem para levar ao restaurante uma gata cheirosa, mas os nossos restaurantes andam rivalizando em preço com os londrinos, e a esterlina ainda vale mais que o real.

 

E assim se conta como foi possível chegar às 714 palavras sem espaço para falar da virtude de fumar charutos, depois que Belo Horizonte foi diagnosticada como a mais poluída capital brasileira. Se é para respirar poluição, que venha purificada pela fumaçada de belos charutos.

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