Aulinha de turismo em Singapura

por Claudio de Moura Castro 05/11/2012 10:49

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Conversava com um taxista de Singapura. Segundo ele, atrair turistas para o país é até fácil. O desafio é fazer com que voltem. Chequei os números: com 3,2 milhões de residentes, o país recebe anualmente 10 milhões de turistas, muitos de retorno (o Brasil, com 200 milhões de habitantes, mal que mal recebe cinco milhões).

Com a Copa, Minas Gerais receberá um bando de turistas. Será que partirão decididos a voltar? O que dirão a seus amigos? Quantos outros virão pelo seu boca a boca?

A lista de providências para que voltem é alentada. Apesar de seus atrativos únicos e abundantes, Minas ainda é um destino turístico precário. Mas, aqui, discuto apenas um assunto: é diminuto o número dos que falam português; assim sendo, temos de falar a língua universal da época. Foi latim, passou pelo francês e hoje é inglês.

Nos anos 1980, visitei uma fábrica na China, da japonesa Seiko. Em que língua se comunicavam os funcionários chineses com os supervisores japoneses? Inglês! Visitei também um curso sobre telecomunicações, com professores e alunos chineses. Era em inglês. Nos hotéis visitados, todos os funcionários estavam fazendo cursos de inglês. O Airbus é fabricado em Toulouse (França). Língua oficial da fábrica? Inglês.

Em uma missão do Banco Mundial, visitei uma escola rural na Palestina. Tivemos uma reunião com uns 15 ou 20 professores. Todos entendiam o inglês e a metade era capaz de se comunicar com fluência.

Na Europa, há 3.701 mestrados oferecidos em inglês. Na Escandinávia, quase todos já são assim. Aliás, na década de 1970 conheci um sueco que havia feito seu doutoramento em Estocolmo. Quando entregou seu primeiro paper, o professor olhou a página de rosto e fuzilou: “Que futuro você pensa que terá escrevendo em sueco?”.

As vaidades francesas sofreram diante da constatação de que dois terços das publicações da sua base de dados de pesquisa são em inglês. Causou também mal-estar quando as Atas do Instituto Pasteur passaram a ser publicadas em inglês. Mas engoliram em seco e aceitaram os novos tempos. A China tem políticas agressivas de fazer com que seus cidadãos falem inglês. Uruguai e Chile vão pelo mesmo caminho. Aqui, nas terras tupiniquins, não será surpresa se algum deputado propuser o Nheengatu como segunda língua.

Estima-se que apenas 5% dos brasileiros possam minimamente se comunicar em inglês. Mesmo nas universidades mais famosas, os talentos linguísticos são modestos. Durante a Segunda Guerra, proibiu-se o ensino em língua estrangeira, temendo levantes na colônia alemã ou japonesa. Mas alguém precisa lembrar aos legisladores que a guerra acabou. Salvo alguma exceção que desconheço, não há cursos ou disciplinas sendo oferecidas em inglês.

Checando dados para este ensaio, digitei no Google “Singapore tourism”. Apareceram 69 milhões de sites. Digitando “Singapura turismo”, aparecem 2,6 milhões. Ou seja, quem lê inglês está 26 vezes mais bem informado.

O Ciência sem Fronteiras quer enviar 100 mil brasileiros ao exterior. Contudo, não há um tal número de candidatos para as bolsas falando inglês com proficiência.

Como vamos receber turistas que queiram voltar, com o pouco que sabem de inglês as pessoas com quem eles lidarão? Começa no aeroporto, pois uma boa parte dos cartazes e avisos da Infraero exibe um péssimo inglês. Com tantos aeroportos internacionais, já era para haver na empresa alguém capaz de não maltratar a língua inglesa.  

Nos bons hotéis, as comunicações até podem fluir. Mas e nos restaurantes? E nos táxis? E os guias, cuja maioria mal dá conta do recado em português?

Quantos policiais podem se comunicar em outra língua? Fico imaginando a cena na delegacia de polícia: o gringo tentando preparar um boletim de ocorrência, após ter sua carteira furtada no Mercado Central.

Se não houver uma guinada considerável para reduzir nossas misérias linguísticas, continuaremos a ser um local para o qual os poucos turistas só vêm uma vez. Singapura foi um areal pestilento que até água precisava importar. Mas os turistas voltam sempre. São todos tâmeis, malásios ou chineses. Qual a língua oficial? Inglês. 

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