Preservar é preciso

por João Paulo Martins 06/11/2012 10:19

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Samuel Gê
None (foto: Samuel Gê)

“Pode-se olhar a cidade, e se deve dizer: belo horizonte!”. A célebre frase foi dita pelo papa João Paulo II durante a celebração de uma missa na praça Israel Pinheiro, bairro Mangabeiras, em sua visita à capital mineira em 1980. Mal sabia ele que o entorno da cidade também reservava paisagens de tirar o fôlego. É o caso da região da serra do Gandarela, distante apenas 40 km de BH e que abrange as cidades de Barão de Cocais, Caeté, Itabirito, Nova Lima, Ouro Preto, Raposos, Rio Acima e Santa Bárbara. Situado no chamado Quadrilátero Ferrífero, no Sudeste de Minas Gerais, sua riqueza geológica e ambiental – descrita em diversos estudos, como a dissertação de mestrado em geografia de Wanderson Lopes, de 2009, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – serviu de base para o pedido de transformação do local em parque nacional. O órgão responsável pela instalação da unidade de preservação é o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) – braço do Ministério do Meio Ambiente responsável pela proposição, criação e manutenção de áreas de proteção ambiental.

 


Integrando a chamada APA-Sul (Área de Proteção Ambiental da região Sul de BH) e com previsão de contemplar 38.210 hectares de natureza preservada, o Parque Nacional da Serra do Gandarela possui peculiaridades que favorecem sua criação. Além de ter a segunda maior reserva de mata atlântica do estado, a região comporta uma extensa rede hidrográfica, com mais de mil nascentes, em especial a do ribeirão do Prata, que faz parte da bacia do rio das Velhas e é um importante recurso para os moradores de Raposos.

 

 
 

Cercado pelas serras do Curral, da Piedade, da Moeda, de Ouro Branco e do Caraça, o relevo acidentado é rico em minerais, especialmente bauxita, ouro e ferro. Este último proporciona uma formação geológica rara, as chamadas cangas: como a superfície do solo é rica em minério de ferro, ela fica mais suscetível às variações climáticas e se torna porosa, favorecendo a infiltração da água da chuva. Com isso, muitas montanhas da região, como a serra Água Limpa, próxima a Rio Acima, são importantes reservatórios aquíferos, ou seja, têm grande volume de lençóis freáticos. “É o último manancial da região metropolitana e a única parte do Quadrilátero Ferrífero que ainda não foi afetada pela mineração. Estima-se que exista cerca de 1,6 bilhão de metros cúbicos de água debaixo das cangas”, explica Paulo Baptista, professor da UFMG. Morador de BH, ele tem casa de campo em condomínio particular perto dos limites propostos para o parque e é um dos articuladores do movimento Águas do Gandarela, que reúne centenas de pessoas e entidades em prol da implantação integral da área da reserva natural. “A gente vem mobilizando a população para conscientizá-la sobre a importância de se preservar a região, sobre seu patrimônio socioambiental e como ele está ameaçado pela mineração”, diz Baptista.

 


Neste ano foram realizadas seis consultas públicas em cidades envolvidas no projeto, com a participação de quase 2 mil pessoas, no processo para instauração do pedido de criação da área de conservação do Gandarela. O ICMBio só não deu continuidade ao processo porque, ao fim das audiências, surgiu a demanda de se criar uma reserva de desenvolvimento sustentável próxima ao parque, para suprir os interesses de algumas comunidades locais. “Houve toda uma preocupação de se conciliar as atividades econômicas que já existem na região com a criação da unidade”, diz Mario Douglas Fortini, coordenador do ICMBio em Minas. O instituto deve, agora, encaminhar as duas propostas – parque e reserva – ao Ministério do Meio Ambiente. Apesar do bom andamento do processo, ainda não se fala em datas nem qual será a área final, já que, neste caso, depende da análise das solicitações das empresas mineradoras – e isso não diz respeito ao ICMBio.

 

José Gouveia, aposentado, vive na Serra da Água Limpa há 75 anos: o fazendeiro é favorável à criação do parque
 
 

A região da APA-Sul de BH é rica em jazidas de minério de ferro, o que pode ser comprovado, por exemplo, com as extrações que estão em andamento na serra do Curral, especialmente na parte que pertence a Nova Lima. Com isso, parte dos mais de 38 mil hectares da área proposta para criação do parque está também na mira de muitas empresas mineradoras. Uma delas, a Vale, quer implantar a Mina Apolo na Serra da Água Limpa, onde se encontra a nascente do ribeirão da Prata, contrariando ambientalistas e participantes do movimento Águas do Gandarela, como o professor Paulo Baptista. Em nota à imprensa, a Vale diz que “o empreendimento está em fase de licenciamento, seguindo rigorosamente os trâmites legais”, e que seus representantes participaram de grupo técnico e nele foram discutidas as formas mais adequadas de se aproveitarem os recursos naturais em compatibilidade com a preservação ambiental.

 


Polêmicas à parte, a criação do Parque da Serra do Gandarela tem apoio da população local, mesmo entre aqueles que possuem propriedades dentro de sua área. Um exemplo é o aposentado José Gouveia, de 75 anos, que vive com o irmão na Fazenda Água Limpa, pertencente à família há gerações e que dá nome a um dos principais conjuntos de montanhas da região. “Nasci e fui criado aqui. Para mim, a instalação do parque não tem problema”, diz Gouveia. Com seu jeito mineiro, simples e decidido, ele explica que o único cuidado que se deve ter é com a liberação da mineração, para que não seja feita nas áreas particulares. “Não estragando a região, tudo bem”, diz.

 

O professor Paulo Baptista, um dos defensores do Gandarela: “É o último manancial da região metropolitana e a única parte do Quadrilátero Ferrífero que ainda não foi afetada pela mineração”
 
 

Quem também apoia a criação da unidade de conservação é o governo de Minas. De acordo com Adriano Magalhães, secretário de Estado de Meio Ambiente, o Gandarela deve ser entendido num contexto maior, já que está inserido em corredores ecológicos significativos: Reserva Particular do Patrimônio Natural do Caraça, Parque Estadual do Itacolomi e a Floresta Estadual Uaimií. “Defendemos não só a instalação do parque, mas de um mosaico ambiental de 90 mil hectares, interligando os parques existentes desde a Serra de Ouro Branco”, explica o secretário. Além da preocupação com a natureza, para ele a unidade de conservação deve permitir a visitação pública, com a construção de estruturas para receber a população, incluindo espaço destinado às pesquisas acadêmicas. “Como isso tem um alto custo, é preciso envolver também as mineradoras, por meio de parceria público-privada”, diz Adriano Magalhães.

 


A abundância de água na área proposta para o parque chamou a atenção também do Projeto Manuelzão, vinculado à Faculdade de Medicina da UFMG e que desde a sua fundação, em 1997, está à frente da luta pela preservação da bacia hidrográfica do rio das Velhas – alguns de seus afluentes se encontram na área do Gandarela. A preservação das nascentes, como a do ribeirão da Prata, é essencial para manter a qualidade da água que abastece a Região Metropolitana de BH. “Esse é um dos poucos locais que tem água de qualidade para as futuras gerações. Contaminar ou modificar um potencial hídrico dessa natureza não tem justificativa”, diz Marcus Vinícius Polignano, coordenador do Manuelzão. Para ele, é possível conciliar os interesses econômicos – imobiliário e minerador – com a conservação do meio ambiente, desde que se respeitem os limites do parque. “Podemos ainda usufruir do turismo sustentável, que não deixa de ser uma opção de ganho de capital, e que é pouco explorado. Há que se ter um novo olhar”, diz.

 

O segundo do Brasil

 

 
 

Quem visita o Sul do estado do Ceará, na região chamada Cariri, em pleno semiárido nordestino,  depara com uma surpresa: em vez de um cenário inóspito, encontra paisagens de tirar o fôlego, com extensas chapadas e grande rede hidrográfica, com rios e cachoeiras. A natureza farta, somada a importantes sítios paleontológicos e à cultura típica do lugar, representaram os fatores decisivos para que se criasse o Geopark Araripe, o primeiro do país. Agora é a vez de Minas, com o projeto de criação do Geopark Quadrilátero, compreendendo a área formada pelas serras do Curral, Piedade, Moeda, Ouro Branco e Caraça, e que tem como característica as formações rochosas de minério de ferro e quartzito.

 


Criado pela Unesco – órgão da ONU para a educação e cultura – em 2008, o conceito de geoparque surgiu para classificar uma área com limites territoriais predefinidos e que engloba sítios geológicos de grande valor científico e regiões que representem patrimônio ecológico, arqueológico, histórico e cultural. Apesar do nome, o local que recebe esse título não se torna um parque. “Existe muita confusão a respeito dessa palavra. Algumas pessoas acham que queremos um parque do tamanho do Quadrilátero Ferrífero. Na verdade, o que se tem é um programa que visa ao desenvolvimento sustentável do lugar”, diz Renato Ribeiro Ciminelli, presidente do Instituto Quadrilátero e que está à frente do comitê gestor do projeto de classificação do geoparque mineiro.

 


O pedido de criação do Geopark Quadrilátero foi enviado à Unesco em 2011 e conta com o apoio de diversas entidades e universidades, como Fapemig (Fundação de Apoio à Pesquisa do estado de Minas Gerais), UFMG, UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) e PUC Minas. Segundo Ciminelli, a ideia é que, tal qual se vê em Araripe, no Ceará, a região se torne referência para o país – com o favorecimento das atividades econômicas por meio do aumento do turismo e o desenvolvimento social, com investimentos públicos e privados. “Estamos trabalhando para que o título seja concedido no próximo ano”, diz.

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