Reverência à infância

por Pabline Félix 12/11/2012 09:13

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Eugênio Gurgel
Apesar da idade, 61 anos, o pintor Ricardo Ferrari mantém o espírito de criança (foto: Eugênio Gurgel)

Foi em um quintal modesto de uma Belo Horizonte antiga e pacata, bastante diferente da atual metrópole, que o artista plástico Ricardo Ferrari foi criado. Foi também nesse quintal que foram concebidas as imagens que ele transforma em pinturas a óleo há mais de 30 anos: brinquedos tradicionais, como peão, perna de pau, corda, pipa e bolinhas de gude; cenários tranquilos, quase interioranos, realidades fantásticas e, claro, crianças dedicadas integralmente à liberdade. Segundo o artista, que tem 61 anos, a sua inspiração vem das memórias da “roça grande”, como chama a BH dos anos 1950 e 1960. “A gente brincava na rua, subia em árvore, desbravava a cidade com um estilingue no bolso. Os meus desenhos são uma homenagem a esse tempo e aos sentimentos bons que tenho”, afirma.

 

 
 

Desenvolvida, a capital já não tem espaço para brincadeiras nas ruas, é verdade, mas Ricardo Ferrari não lamenta o crescimento da cidade e corrige quem pensa que o seu olhar sobre o passado é carregado de saudosismo. Para ele, cada tempo tem sua particularidade e sua beleza. Mesmo assim, não pode negar sua incompatibilidade com os “tempos modernos”. Há 17 anos ele vive em uma chácara no município de Rio Acima, na região metropolitana, a pouco mais de 30 quilômetros da “agitação” de BH. Seu ateliê fica do lado externo da casa onde mora com a mulher e os três filhos e é visitado sempre pela manhã. À tarde, Ferrari se dedica ao cultivo de alimentos na roça e, à noite, à família.

 

“Ferrari é, sem dúvida, um dos maiores artistas de Minas, não só por seu talento, mas porque mostra coerência entre obra e vida. A pureza e a sensibilidade dos seus quadros são consequência dessa rotina preservada no sítio, livre das influências nocivas que temos em ambientes urbanos, como o de BH. Ele está fora do mundo sem sair propriamente dele”, define a curadora da galeria do PIC Cidade, Guiomar Lobato, que acompanha o percurso do artista há quase 20 anos.

 

 
 

Ela destaca ainda a habilidade do pintor, que é autodidata, em transmitir sentimentos através de figuras sem fisionomia: “São fruto de uma dedicação grande ao estudo da forma humana e dos próprios materiais que utiliza. É preciso um cabedal de conhecimento muito grande”. Mesmo assim, Ferrari, modestamente, não se considera um especialista: “A tinta a óleo é um material que a gente nunca domina. Eu ainda não sei pintar com a tinta a óleo, mas a cada dia aprendo um pouco sobre esse material e isso me fascina”, diz.

 

Para o galerista Leonardo Reis, o trabalho de Ferrari ganha destaque nas coleções de arte: “Pessoas com pinacotecas respeitáveis fazem questão de ter um Ferrari em seu acervo”
 
 

Com mais de 30 anos de carreira, o artista e sua obra – formada por telas a óleo e objetos de parede – podem ser considerados singulares não só pela temática, mas também pelo estilo. Segundo Leonardo Reis, dono e curador da Galeria Errol Flynn, única negociadora direta na capital das obras de Ferrari, essa é uma das explicações para o reconhecimento alcançado e refletido nos diversos convites para participar de exposições coletivas e individuais que surgem desde 1979. “Já fizemos exposições de artistas renomados como Aldemir Martins, Sérgio Telles, Enrico Bianco, mas, de todas, a que deu maior repercussão foi a individual do Ferrari, em 2008. Deu engarrafamento de gente! São obras queridas tanto entre o ‘grande público’ quanto entre o público especializado”, diz. “Pessoas com pinacotecas [coleções de obras de arte] respeitáveis fazem questão de ter um Ferrari em seu acervo. É uma prova da qualidade do trabalho desse artista”, afirma o galerista.

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