“Vivemos na sociedade da comilança”

por Pabline Félix 13/11/2012 06:30

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J. C. Martins
None (foto: J. C. Martins)

Mais de 12 milhões de brasileiros devem ser diabéticos, de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). “Devem”, porque metade desse número, 6 milhões de pessoas, ainda não sabe da presença da doença, que pode se manifestar como tipo 1 ou tipo 2 (entenda a diferença no quadro). Quem afirma isso é o presidente da SBD, o médico gaúcho Balduíno Tschiedel, que esteve em Belo Horizonte em outubro para o 1º Curso Internacional de Endocrinologia e Diabetes, realizado pelo Centro de Diabetes de Belo Horizonte (CDBH), com apoio do Hospital Mater Dei.

 

Fundador do Instituto da Criança com Diabetes do Rio Grande do Sul, organização social que acompanha 2.500 pacientes com o tipo 1 da doença na capital sul-rio-grandense, ele é um defensor da atuação preventiva como medida para minimizar as consequências da doença. Com um serviço de saúde completo, Balduíno conseguiu reduzir em 80% o índice de internação de crianças e adolescentes nos ambulatórios do instituto. “Damos todo o apoio necessário para que as crianças possam ter uma rotina o mais saudável possível”, afirma. O médico também alerta que somente a prática de esportes aliada à alimentação saudável pode postergar ou mesmo evitar o surgimento da doença.

 

 
 

1 | ENCONTRO – Estima-se que metade dos diabéticos ainda não sabe da presença da doença. A que riscos estão expostas essas pessoas?
BALDUÍNO TSCHIEDEL –
Esse perfil “silencioso” do diabetes é típico de casos do tipo 2. Ao contrário do tipo 1, que se manifesta de forma aguda e pode chegar a causar o coma diabético rapidamente, o tipo 2 tem evolução lenta e pode manter-se sem produzir sintomas por anos, causando estragos graves e permanentes à saúde. Por exemplo, o diabetes é a maior causa de amputação de membros inferiores e cegueira em pessoas entre 20 e 74 anos no país. Junto com a hipertensão, é uma das maiores causas de infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs). Por isso, é importante que pessoas com perfil de risco – que tenham histórico familiar de diabetes, estejam acima do peso e sejam sedentárias – façam testes de glicemia ao menos uma vez por ano e procurem ter hábitos saudáveis.

 

2 | Quais as principais evidências da presença do diabetes?
Em ambos os tipos, é comum sede excessiva, aumento da frequência de idas ao banheiro e perda de peso, apesar da alimentação regular. O tipo 2, mais comum em adultos, pode provocar ainda cansaço extremo e propiciar o surgimento de coceiras intensas no corpo, feridas que demoram a cicatrizar e os chamados “fungos de repetição”, isto é, doenças fúngicas que, uma vez curadas, voltam a aparecer, especialmente nos órgãos genitais.

 

3 | Por que tem se tornado mais comum o aparecimento do diabetes tipo 2 em crianças e jovens?
O aparecimento do tipo 2 da doença está ligado ao sedentarismo e à obesidade, problemas que são cada vez mais comuns nas crianças e nos jovens. Isso é reflexo da nossa mudança de cultura: a violência e o trânsito acabaram restringindo o espaço das pessoas, especialmente das crianças. Hoje, os mais novos gastam horas entre a TV, o computador e outros eletrônicos. Outra coisa é que vivemos na sociedade da comilança: comemos mais e alimentos mais calóricos. A falta de exercício físico e os péssimos hábitos alimentares adiantam doenças que só deveriam surgir no fim da fase adulta.

 

4 | Qual o peso da genética no surgimento do diabetes?
O peso genético no aparecimento do diabetes tipo 1 é pequeno. É uma doença autoimune (as células de defesa atacam o pâncreas, órgão que produz a insulina) que ainda não sabemos por que surge. Já o tipo 2 tem relação direta com a genética. Não há como pesar a influência desse fator, mas é certo que ele existe. Todavia, as condições de saúde são igualmente decisivas: se a pessoa tem boa saúde e é ativa fisicamente, poderá ao menos postergar o aparecimento do diabetes, se não for possível evitá-lo completamente. Uma coisa é quase matemática: sedentarismo mais condição genética mais obesidade é igual a diabete tipo 2.

 

5 | Há pesquisas que associam o alto nível de estresse ao surgimento do diabetes. É verdade?
Sim. Os hormônios liberados em condições de estresse tem ação anti-insulínica, tornando o organismo mais resistente à ação da insulina e construindo uma situação similar à do diabetes. Se essas situações se tornam comuns, fazem o corpo propenso ao surgimento da doença.

 

6 | Em que medida a cirurgia bariátrica pode ajudar no tratamento do diabetes? É extensivo aos dois tipos?
Ela só é recomendada para diabéticos do tipo 2 e, mesmo assim, se forem esgotados os recursos de tratamento clínico. Recorrer a uma cirurgia é decisão muito séria, na qual vários riscos são embutidos. Outra condição é investigar se a pessoa ainda produz insulina e, em caso positivo, a redução de peso consequente da cirurgia bariátrica ajuda no controle da glicose no sangue, revertendo o caso de diabetes. Depois disso, é preciso que a pessoa se mantenha magra e saudável, ou o quadro pode voltar a se complicar.

 

7 | O transplante de pâncreas é a única solução para o diabetes tipo 1? Por que ele não é recomendado para todas as pessoas?
Transplantes de órgãos são sempre soluções heroicas para situações em que já não há alternativa. Eles só são recomendados para pacientes com insuficiência renal crônica, totalmente dependentes de hemodiálise, quando a qualidade de vida está totalmente comprometida. Nesse caso, é preciso fazer um transplante duplo, de pâncreas e rins.

 

8 | Há muitas pesquisas com células-tronco que prometem a cura do diabetes tipo 1. O senhor vê isso como uma projeção palpável ou ainda é uma promessa?
Ainda há um longo caminho a ser trilhado nas pesquisas com células-tronco, mas estamos bem mais próximos de resultados palpáveis do que já estivemos. Na Unicamp de Ribeirão Preto (SP), por exemplo, há um experimento que tenta “refazer” o sistema imunológico para que o corpo pare de desenvolver anticorpos contra o seu pâncreas. Pode ser uma solução para quem está ainda bem no início da doença, mas hoje ainda é totalmente experimental. Se der certo, levará quase 10 ou 20 anos para estar disponível como tratamento.

 

9 | Com a chegada do verão, muitas pessoas recorrem a dietas extremas para alcançar o corpo ideal. Quais os riscos da restrição repentina de alimentos?
Dietas malucas, que não contemplam o consumo de todos os grupos alimentares, só servem para o alcance de resultados rápidos. Em longo prazo, podem sobrecarregar órgãos, causar danos irreversíveis e deixar o organismo suscetível a invasores, além do fato de que elas não sustentam os resultados. E, clinicamente, ceder ao efeito sanfona é mais desastroso para o corpo do que manter-se gordo. Do ponto de vista da saúde, o mais importante é mudar os hábitos e investir em alimentação equilibrada e rotina com exercícios físicos.

 

10 | Atletas diabéticos podem se envolver em atividades com alto gasto de energia?
Sim, desde que tenham uma boa organização para ter sempre à mão substâncias de rápida absorção e fácil consumo, como gel de glicose ou barras de carboidratos simples. O alto gasto de energia precisa ser reposto; também é importante que façam controle pré e pós-atividade física. Se a pessoa é atleta, certamente tem atenção com isso. Preocupante mesmo são os esportistas de fim de semana, que geralmente não têm planejamento e ignoram a variação das condições corporais.

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