Segurança

por Eduardo Almeida Reis 14/11/2012 11:42

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Diverti-me à beça com o substantivo de dois gêneros “segurança” quando trabalhei para um grupo europeu. Patrão riquíssimo, rei da água mineral, do biscoito, do café descafeinado na Itália, chegava aos melhores restaurantes do Rio dirigindo seu carro com a filha, os netos e um ou dois amigos. O empregado seguia num Opalão enferrujado levando a mulher do patrão, que me aconselhava em português italianado: “Edoardo, nunca dê um abraço nele. Na Itália temos milhares de empregados e nenhum chega a menos de três metros. O tratamento é senhor presidente”.

 

Nos restaurantes, sempre me identifiquei com os manobristas: “Sou segurança do doutor”. E o curioso da história é que eles não queriam aceitar minhas gorjetas, talvez maiores que as do patrão. Afinal, segurança deve ser profissão aparentada com a de manobrista de restaurante de luxo.

 

O patrão tinha pavor de sócios, lição que Abílio Diniz não aprendeu. E me dizia: “Mulher, a gente dá um milhão de dólares e fica livre. Sócio é um problema”. No dólar daquele tempo, um milhão corresponderia hoje a R$ 10 milhões ou 12 milhões. Só conheci duas das suas mulheres, a última novinha e apetecível.

 

Quanto ao Opalão, os executivos do grupo ficavam encantados com la macchina e diziam que, na Itália, era considerado carro de época e valia uma fortuna. Hoje tenho veículo relativamente novo, com 5 mil quilômetros rodados, que arriou a bateria por falta de uso. Bateria nova instalada, descobri que o rádio parou de funcionar alegando “segurança” no display. Segurança de quê? Disseram-me que é para dificultar o roubo, porque o rádio e o CD só tocam se a gente teclar um número de segurança, que por sua vez está anotado num livrinho tipo manual do proprietário.

 

Acontece que não tenho um livrinho, mas uma biblioteca relacionada com o tal veículo, que obviamente não li e não vou ler. Meu mecânico, formado em engenharia, fez a caridade de passar aqui em casa para resolver o problema.

 

Desci para a garagem com a chave do carro e a biblioteca, ele localizou o volume e o código de segurança, digitou aquela complicação nas teclas do rádio e o equipamento voltou a funcionar que foi uma beleza. Comentário mordaz do engenheiro mecânico: “De que serve a segurança, se o rádio só funciona com o display do painel?”. Realmente, ou o sujeito rouba tudo, rádio, painel e carro, ou não adianta subtrair só o rádio com o toca-CD.

 

Todo o nariz de cera, que acaba de encantar o leitor de Encontro, serve para voltarmos ao tema violência ou segurança, como queiram. Até os postes da Cemig e os buracos das ruas de BH estão carecas de saber que vivemos, hoje, em um dos países mais violentos do mundo. O quinto mais violento, para ser mais preciso.

 

Cercas eletrificadas, câmeras filmando, carros blindados – cada qual se defende do jeito que pode, quando pode. Sacar dinheiro no banco é quase uma condenação à morte: estão matando por R$ 400 nas saidinhas. Parar ou morar perto de um caixa eletrônico é um risco danado, considerando que os operadores de assaltos a dinamite são amadores na lida com explosivos e podem destruir uma rua inteira.

 

Mesmo residindo em casas blindadas e circulando em carros blindados, os riscos são imensos. É necessário abrir a porta da garagem, permitindo que os assaltantes entrem a pé ou de carro. Os empregados precisam entrar e sair de casa, quando são de absoluta confiança. Quando não são, você só fica sabendo depois que foi assaltado, sequestrado, violentado.

 

Se católico, você pode rezar, mas corre o risco de assistir à missa celebrada pelo “padre” José Francisco de Lima, que não é padre e vive a praticar o estelionato de batina e estola, faixa larga e comprida que os sacerdotes usam em torno do pescoço e cuja cor varia de acordo com o calendário litúrgico.

 

Foi assim em Carrancas, MG, que pertence à diocese de São João del-Rei. A aposentada Maria das Graças Alves, de 63 anos, até hoje se queixa: “Me lembro muito bem dele. Uma fala mansa e muito bonita. Cheguei a me confessar duas vezes e agora ele sabe minha vida toda. Agora fiquei sem chão. Ele me iludiu”. Que diabo teria a senhora Alves contado ao estelionatário? Fiquei curioso.

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