Em casa com JK

por João Paulo Martins 10/12/2012 11:30

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Samuel Gê
O telhado borboleta da Casa Kubitschek é o mesmo do Iate Tênis Clube: a diferença é o acabamento (foto: Samuel Gê)

Depois de participar ativamente em frentes de batalha na Revolução Constitucionalista de 1932, o médico Juscelino Kubitschek de Oliveira, filho mais ilustre de Diamantina, no Norte de Minas, entra para a política e torna-se prefeito de Belo Horizonte, em 1940. Com a visão de futuro que lhe é peculiar – a mesma que em 1960 resultaria na construção de Brasília –, contrata o escritório do jovem arquiteto carioca Oscar Niemeyer para a criação do maior complexo modernista do Brasil, no entorno da lagoa da Pampulha, e que incluía um cassino, uma igreja, um clube e uma casa de baile. Para incentivar a urbanização da região, que era considerada muito afastada – uma verdadeira viagem, se levarmos em conta os 13 quilômetros de distância até o centro da capital –, o então prefeito solicita a construção de sua moradia, que devia ficar bem próxima ao espelho d’água. Hoje, ela está prestes a se tornar o museu Casa Kubitschek e deve ser aberta à visitação pública no fim do primeiro semestre de 2013.

 

Em 1943, com projeto de Niemeyer e paisagismo de Burle Marx, a residência modernista da Pampulha é entregue a JK e sua mulher, Sarah. Porém, a atraente política faria com que o prefeito permanecesse na casa só até 1945, quando partiu para o Rio de Janeiro como deputado federal e, mais tarde, presidente do Brasil. Depois de ficar um período ocioso, o imóvel foi vendido a Joubert Guerra, amigo de infância do político mineiro. Ele e a mulher, Juracy, passaram a ser anfitriões da família Kubitschek em suas visitas a Belo Horizonte. “Eu só fui morar com Juscelino e Sarah quando tinha 5 anos, em 1947, e ele já era deputado federal. Portanto, não tenho lembranças da casa como sendo de papai, e sim de Joubert, que era muito amigo da nossa família”, diz Maria Estela Kubitschek Lopes, irmã mais velha de Márcia e filha adotiva do casal. Apesar da pouca vivência no lugar, ela se mostra animada com a abertura do museu: “Eu acho importante que sejam feitas ações culturais na casa. Devia ser um lugar para exibição de filmes de época, transformando-se num ponto de referência para a população aprender como foi a saga da construção do complexo arquitetônico da Pampulha.”

 

Álvaro Sales, gestor da Casa do Baile e da Casa Kubitschek: “Todos os móveis que estamos reformando são modernistas e dialogam muito bem com a arquitetura da residência”
 
 
 

Adquirida pela Prefeitura de Belo Horizonte em 2005, a casa de 680 m² demandou investimento de R$ 1,5 milhão em sua reforma – com projeto da Diretoria de Patrimônio da Fundação Municipal de Cultura –, que foi finalizada no início de 2012. Este ano, foram iniciados também os trabalhos de restauração dos 93 móveis modernistas que pertenciam à família Guerra e que farão parte do acervo do museu, numa espécie de retrato da vida urbana daquela época. “Grande parte dos móveis é da década de 1950. Segundo a ex-proprietária, eles foram projetados por Leopoldo Bloch. Todos são modernistas e dialogam muito bem com a arquitetura da casa”, explica Álvaro Sales, gestor da Casa do Baile e da Casa Kubitschek. A ideia é que o espaço seja atraente para a população, e que não represente apenas uma coleção de objetos. Para tanto, na parte dos fundos será construído um anexo, que funcionará como reserva técnica para guardar peças que não estejam expostas e funcionará também como sala multiuso. No quintal também existe uma pequena edificação que, curiosamente, foi feita à semelhança da fachada principal do imóvel – telhado borboleta e decoração em madeira – e que será restaurada para abrigar um café. “Como equipamento cultural, teremos também exposições temporárias que relembrem o modernismo, seja o da arquitetura, o da literatura ou da arte. Queremos fazer com que as pessoas retornem ao imóvel”, diz Álvaro.

 

O publicitário Marcos Guerra aproveitou a casa quando os avós eram proprietários: “Juscelino tinha a casa à sua disposição quando vinha de Brasília descansar ou se ‘esconder’ na Pampulha”
 
 

Basta dar uma caminhada pelos ambientes para perceber o diferencial da arquitetura modernista, especialmente com relação à ideia de setorização do imóvel em três áreas: social, que compreende as salas de estar, de jantar e de jogos; serviços, com a cozinha, banheiro e dependência de empregados; e íntima, mais reservada, com os três quartos. Essa lógica também é vista em outras casas da cidade, que pertencem ao mesmo estilo, são tombadas pelo patrimônio e se encontram nos bairros São Luiz e Cidade Jardim. “A ideia de Niemeyer era construir uma residência diferente das que existiam na cidade. Ele usou uma linguagem parecida com a do Iate Tênis Clube. O telhado borboleta é visto nas duas obras. Só que na Casa Kubitschek o arquiteto incorporou madeira no acabamento da fachada do telhado, para dar uma sensação de conforto”, explica Flávio Lemos Carsalade, professor de arquitetura da UFMG. Os metais, lustres e piso em pastilhas sextavadas dos banheiros são originais e conservam as marcas de uso, que dão charme ao ambiente modernista. Há também um longo corredor que leva à área íntima e que, curiosamente, não possui janelas. O arquiteto carioca lançou mão de tijolos de vidro, que favorecem a iluminação natural.

 

Os móveis com pés palito, a coluna de madeira que divide ambientes, a escada com corrimão revestido em cobre, as torneiras, lustres e registros marcam os anos 1940 e 1950, auge do modernismo em Belo Horizonte
 
 

O grande banheiro da suíte principal tem uma particularidade: o chuveiro fica no meio do caminho, como uma passagem entre o quarto e o lavabo. Além disso, para surpresa do visitante, existe uma porta que dá acesso à parte de trás, onde se encontra a piscina de 10 metros, que tem até raias e era muito suntuosa para a época. “Juscelino tinha a casa à sua disposição quando vinha de Brasília descansar, ou se ‘esconder’ na Pampulha”, conta Marcos Guerra, neto de Joubert e Juracy.

 

O publicitário, na época um menino, brincava em meio ao importante patrimônio arquitetônico e gostava de apreciar a paisagem da lagoa através da varanda comprida que percorre toda a frente da casa e que leva às portas de correr em vidro e esquadrias de alumínio. “Como esquecer o lindo painel em azulejo de Alfredo Volpi, retratando, a meu ver, a história do mundo, meio mítica?”, diz Marcos. Saindo pela cozinha, é possível encontrar também uma mesa de concreto e azulejos desenhados, com pés de cano, chumbados e trançados. Atrás dela está um painel feito em pastilhas: obra de Paulo Werneck, artista que deixou sua marca na Igreja de São Francisco de Assis.

 

 
 

Juscelino, que ficou conhecido como presidente bossa nova – era também um apaixonado pelas serestas –,  chegou a dizer que não se arrependia do que fez, nem “de ter levado em consideração o interesse de preservar o nosso dia de amanhã: o futuro da pátria brasileira”. Nada melhor, então, que homenageá-lo com a criação de mais um museu, e, neste caso, situado num lugar muito especial, o ponto de partida de seu afã desbravador. A Casa Kubitschek vai ajudar a reviver a história de nosso maior político e do movimento artístico que ajudou a fortalecer. “Quero visitá-la depois que estiver pronta e acho que ficarei muito emocionada, não só por ver a preservação do patrimônio, mas também por saber que papai morou lá”, diz, emocionada, Maria Estela.

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