À procura de vagas

por Paula Sarapu 11/12/2012 07:33

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Eugênio Gurgel, Samuel Gê, João Carlos Martins
Christina e Regina não encontram local para estacionar o carro, então passaram a ir trabalhar juntas (foto: Eugênio Gurgel, Samuel Gê, João Carlos Martins)

A falta de vagas para estacionar o carro no hipercentro e em outras regiões de Belo Horizonte mudou a rotina de trabalho de duas representantes comerciais ligadas ao setor de joias. Christina Thomaz, de 44 anos, e Regina Lemos, de 59, passaram a trabalhar juntas, dividindo funções: a primeira dirige, e a outra faz o atendimento a clientes e fornecedores. Christina chega a rodar 120 km por dia, levando e buscando Regina.

 

As duas, claro, torceram pela construção dos estacionamentos subterrâneos propostos pela prefeitura e ficaram decepcionadas quando a licitação para a obra não recebeu nenhuma proposta. Agora a PBH vai readequar o edital, na expectativa de atrair empresas para investir no projeto. Christina diz que não perdeu a esperança. Ela ainda sonha com o empreendimento, cuja construção não deu certo porque a projeção de ganhos não atendeu à expectativa dos interessados. “A verdade é que não encontro vagas e acabo multada. BH não suporta mais carros na superfície.”

 

A dentista Renata Santiago paga caro por uma vaga: “O aluguel no prédio onde trabalho chega a R$ 450 por mês”
 
 

O engenheiro civil e mestre na área de transportes Silvestre Andrade Puty Filho prestou consultoria às empresas que poderiam se candidatar para construir os estacionamentos subterrâneos. Especialista em trânsito, ele aponta questões que podem ter levado à desistência, entre elas o custo elevado, de R$ 325 milhões. Caberia à iniciativa privada elaborar o projeto, executar a obra e cuidar da manutenção. O valor a ser pago pelos motoristas seria de R$ 7,90/hora.

 

O edital prevê a construção de vagas subterrâneas na avenida Álvares Cabral, na rua Ouro Preto (próximo ao Fórum), na avenida Pasteur (área hospitalar), Praça 7 (sob as ruas Tupinambás e Espírito Santo) e na Savassi (ruas Paraíba, Fernandes Tourinho e Tomé de Souza), além de um ponto opcional (Assembleia Legislativa). Seriam ao todo 3.895 vagas, somadas às 20.906 do Rotativo, que pode receber até 91.537 carros se for respeitado o tempo estabelecido. A frota na capital, em setembro, era de 1.496.604 veículos – dos quais 1.040.471 automóveis.

 

Na corrida pela vaga, a analista de sistemas Ayecha Tristan, de 38 anos, paga R$ 20 por semana a um “guardador de vaga” a cinco quarteirões da Assembleia, onde trabalha. A caminhada exige a troca do salto alto pelo sapato baixo e fica mais complicada na chuva. “Quando ele não vem, chego a rodar 50 minutos. Já fui obrigada a parar no Gutierrez e pagar R$ 30 em um estacionamento particular. Estou grávida e não sei como vou fazer quando a barriga pesar”, diz.

 

O engenheiro Silvestre Andrade Puty Filho alerta: “Abertura de mais vagas vai incentivar o uso do carro. Por isso, o valor cobrado precisa ser alto”
 
 

Silvestre lembra que obras desse porte exigem remanejamento de redes subterrâneas, como esgoto, telefonia e energia, o que causa impacto no entorno. “Quando a prefeitura faz, ela fala pela sociedade. No setor privado, a população olha torto.” Ele ainda destaca que o mercado de serviços é que regula os preços e que, no caso dos estacionamentos, a própria prefeitura concorre com o Rotativo.

 

“Essa é uma alternativa interessante para o trânsito, mas a execução precisa ser repensada. Um projeto como esse gera um nível de incerteza grande quanto à receita. Não é como a construção da rodoviária, que só tem uma na cidade.” Para ele, quanto mais escasso for o bem, mais caro ele fica. “Existe um preço definido, mas os estacionamentos privados podem cobrar quanto quiserem. Há locais que pedem R$ 12 por hora. Assim, as variáveis passam a ser relevantes para o setor privado”, diz o especialista.

 

 
 

Não fosse a vaga no prédio do consultório na Savassi, a dentista Renata Santiago, de 35 anos, optaria pelo transporte público. O aluguel é caro: R$ 450 por mês. Enquanto isso, pacientes se atrasam e reclamam do preço que pagam na região. “Quando procurei o consultório, a vaga era condicionante. Meu marido era mensalista no Pátio Savassi e, quando saiu, soube que a lista de espera tinha 300 pessoas. Todos aguardam uma solução”, destaca.

 

O secretário municipal de Desenvolvimento, Marcello Faulhaber, admite que o risco de demanda e o valor-teto da tarifa podem ter desestimulado os interessados na concessão de 30 anos. Ele diz que o impacto das obras foi bem controlado no edital e que os estacionamentos não seriam feitos simultaneamente. Mas reconhece que algumas premissas serão revistas. “A crítica, a princípio, é de que fomos muito otimistas em relação às futuras receitas do concessionário. De acordo com o mercado, nas condições de tarifa e da quantidade mínima de vagas que estabelecemos, a receita futura seria insuficiente para cobrir os investimentos e custos operacionais que exigimos.”

 

Para que a construção se torne viável, Silvestre sugere que a PBH participe, numa parceria público-privada, minorando o custo. Ele acha que a cobrança não deve ter valor definido. E faz um alerta: a construção de mais vagas vai incentivar o uso do carro e, por isso, o valor cobrado precisa ser alto. Segundo o especialista, os estacionamentos subterrâneos deveriam prever a ampliação do uso da via, com a supressão das vagas do Rotativo, o que não consta no edital. “Nossa circulação tem problemas sérios e hoje a prioridade é liberar as pistas em razão do trânsito saturado. As vagas subterrâneas são uma solução fora da via, se garantirem a reurbanização das áreas de cima para o transporte público e pedestres.”
 

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