Viniçadas

por Eduardo Almeida Reis 18/12/2012 11:38

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Meu televisor Sony Bravia de 40 polegadas não é aparelho eclético. Se fosse, cuidaria de selecionar o que parece melhor em várias doutrinas, métodos, estilos e programas. Contudo, é um tal de exibir programas idiotas em centenas de canais, que tenho ganas de presenteá-lo e não comprar outro maior, de 60 polegadas, tela em que o onipresente bispo R. R. Soares deve ficar maior do que sua chatura.

 

Noite dessas, havia programa interessantíssimo no GNT e o Sony Bravia não me avisou. O GloboNews das 10 da noite não fazia mais do que espichar o noticiário transmitido de hora em hora desde as nove da manhã. Argentina x Uruguai peleavam no canal 39 ao vivo e em cores, mas desisti de acompanhar a peleja quando o locutor brasileiro aventou a hipótese de um atacante do Figueirense, uruguaio de nascimento, “adentrar” o gramado para defender sua seleção. Só os locutores esportivos e os policiais militares, quando entrevistados pela televisão, usam o verbo adentrar de etimologia esquisita: a- + dentro + -ar. O resto da humanidade usa entrar, que é puro latim e apareceu em nosso idioma no ano de 1114.

 

O programa do GNT chama-se Casas Brasileiras e focalizou a arquitetura de Jorge Hue, além de alguns trabalhos de seus filhos como arquitetos e designers de interiores. Talento imenso. Casas e apartamentos belíssimos, fazendas novas ou reconstruídas, meia hora de pura estesia. Apareceram até uma filha e um neto de Vinicius de Moraes, que morou num edifício projetado por outro gênio de nossa arquitetura, Lucio Costa, onde mora o próprio Hue no bairro das Laranjeiras, com uma vista espetacular.

 

A lembrança do Poetinha remeteu-me às festas de minha juventude no Rio, chamadas Viniçadas, em que a turma se reunia num apartamento, cada qual levando seu litro de uísque para aguardar Vinicius, que não tinha hora para chegar.

 

Peço ao leitor de Encontro que não espalhe, mas levei um Drury’s e o escondi no armário da pia da cozinha, apartamento imenso do Sr. Nuta Strozenberg, pai do jornalista e publicitário Armando. Cavalheiro de posses, o Sr. Nuta engraxava os seus próprios sapatos, como vi nos muitos pares alinhados num dos gigantescos banheiros. Fiquei impressionado com a sapataria, porque sempre recorri aos italianos que engraxavam sapatos nas ruas do Rio. De lá para cá, engraxei poucos pares, invariavelmente com nenhuma competência.

 

Vejo no Google que o Drury’s ainda existe e o litro pode ser comprado por R$ 24. Mamei o meu inteirinho, sempre escondido sob a pia da cozinha, porque numa Viniçada uísque exposto era uísque entornado pela rapaziada. O dia clareou sobre a praia de Copacabana e o Poetinha não apareceu. Poetas, o leitor sabe como são: têm esquisitices, a menor das quais é combinar e não aparecer. Ponto para o Drury’s: saí da festa inteirão e fui dormir em casa sem dores de cabeça.

 

No programa Casas Brasileiras muitos moradores não se acanharam de aparecer, coisa rara nestes dias de assaltos e sequestros. Todos explicaram as relações que têm com os projetos de Jorge Hue & Filhos, depoimentos engraçadíssimos pelo alto filosofar dos moradores para explicar coisas simples como o projeto é lindo, o ponto é agradável, é um conforto morar aqui.

 

Fui dormir sem saber se os Hue mandam instalar bidês em seus projetos, mas sou capaz de apostar que instalam. Bidê com esguicho é basilar em toda e qualquer arquitetura que se proponha honrar a profissão de Zanine, Cláudio Bernardes e Alfredo Brandi – por sinal, arquitetos sem diplomas.

 

Niemeyer, Hue e Lucio também devem ter sido anteriores às escolas de arquitetura. Em 2008 havia 184 escolas de arquitetura no Brasil, mas os estudiosos não se entendem quanto à primeira. Parece que em 1930 a Universidade de Minas Gerais instalou a sua; Niemeyer tem 104 anos, Hue beira os 90 e Lúcio Costa teria hoje 110.

 

Em matéria de arquitetura, só uma coisa é certa: o bidê é indispensável. Já em 1950, um tio meu operou-se de hemorroidas em Nova York com o mais famoso cirurgião americano, que lhe disse: “Se os Estados Unidos tivessem bidês, eu mudaria de profissão”. Não há nada, absolutamente nada que justifique um banheiro sem bidê e esguichinho. Tenho dito e philosophado.

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