Da arte de entender números

por Claudio de Moura Castro 17/01/2013 06:31

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Embora os números não mintam nem digam a verdade, finórios usam a estatística para iludir. O lado bom é que só engambelam quem não é capaz de lê-la corretamente.

 

Se quero ter meu peso, subo na balança. Para saber se sou mais pesado que meu amigo, ele sobe e comparamos. Até aqui, não há mistérios ou embromações. Mas, para descobrir se a população da nossa cidade está obesa, a coisa se complica. Pesar todos é o de menos. Mas o que fazer, olhando para a montanha de números colecionados?

 

Precisamos da estatística quando há números demais. Ao longo dos anos, inventaram-se formas de substituir a pletora de números por valores únicos, resumindo o que poderiam estar dizendo. Por exemplo, a média aritmética é um desses “representantes” de coleções de números.

 

Muito do conhecimento que ilumina decisões críticas vem de dados estatísticos. Crescimento, inflação, saúde, educação e nutrição são conceitos abstratos, traduzidos em fórmulas estatísticas aplicadas aos números. Algumas são complicadas e, infelizmente, muito vulneráveis a interpretações inadequadas. Há mentiras e engodos. Nos jornais, são mais frequentes os erros resultantes da ignorância – e não são poucos. Vejamos exemplos tirados de jornais de boa reputação.

 

“Metade dos alunos tem notas abaixo da média”, proclama manchete de um dos melhores jornais do país. Ora, a média é justamente uma medida definida para estar próxima do meio da distribuição. Portanto, não é notícia de jornal se a metade dos alunos estiver abaixo.

 

Outra tolice de primeira página: “[A população do] Brasil cresceu muito... com um crescimento de 1,6% (sic) em relação ao Censo de 2010...”. Na verdade, desde que há dados demográficos, a população nunca cresceu tão pouco!

 

Diz a manchete na mesma página: “Brasil tem 3,7 milhões de jovens sem escola”. Dá a impressão de que o problema é de construção civil. No entanto, lá na página 10, ficamos sabendo que são “3,7 milhões fora da sala de aula”. Ou seja, o problema não é falta de prédios.

 

“Minas registrou o maior avanço percentual na mortalidade por acidentes de trânsito (...). O aumento chega a 80%.” Número alarmante. Se, hipoteticamente, de um acidente, em MG, passássemos para dois, o aumento seria ainda maior, de 100%, mas continuaria com a menor taxa do Brasil. Ou seja, faltou mencionar quantos morreram.

 

Vamos agora a dois exemplos de um problema mais técnico, entortando um sem-número de interpretações.

 

“A renda [dos negros] continua desigual em relação à de um branco.” É quase uma denúncia de discriminação no mercado de trabalho, sugerindo a necessidade de eliminá-la. Mas imaginemos o caso de uma empresa de dois funcionários que contrata sem considerar raça e pagando mais a quem é mais capacitado. Ao se contratar um negro menos capacitado e um branco mais capacitado, desavisados poderiam pensar que o negro foi discriminado, pois ganha menos.

 

Para saber se há discriminação no mercado, precisaríamos comparar brancos e negros com o mesmo nível de educação e outros indicadores de status. Muitos pesquisadores brasileiros já fizeram isso, com métodos complicados e cuidadosos. Os resultados mostram que, para os mesmos níveis educativos, há pouquíssima diferença de rendimento que pudesse ser atribuída à raça. Ou seja, se os negros têm piores resultados, é por terem menos escolaridade – fruto de um sistema educativo historicamente capenga. Se é assim, o enguiço está nas escolas dos pobres – de qualquer raça.

 

“[Mulheres] passam muito mais tempo na escola que eles, mas ganham menos...” O argumento é frágil, por depender de etapas não mapeadas. Por razões culturais e reprodutivas, as mulheres parecem entrar e sair mais da força de trabalho, enquanto os homens raramente interrompem suas carreiras. Essa descontinuidade atrapalharia sua ascensão profissional. Se tomarmos as jovens, hoje entrando no mercado, tendo mais escolaridade, levam vantagem na contratação para as posições mais cobiçadas. Além disso, hoje interrompem menos suas carreiras. Parece que se caminha na direção oposta. Em suma, a afirmativa do jornal é precipitada.

 

Concluindo, lidar inteligentemente com estatística tornou-se uma condição de plena cidadania.

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