História que vem a galope

por João Paulo Martins 23/01/2013 11:13

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Geraldo Goulart, Eugênio Sávio
O mangalarga tem como diferenciais o porte físico, a docilidade e, principalmente, seu típico galope (foto: Geraldo Goulart, Eugênio Sávio)

“Sou mangalarga marchador! Um vencedor, meu limite é o céu! Eu vim brilhar com a Beija-Flor... Valente guerreiro, amigo fiel!” O refrão do samba-enredo do carnaval 2013 da Beija-Flor de Nilópolis, uma das principais escolas de samba do Rio de Janeiro – seu desfile será dia 11 de fevereiro –, já mostra qual o tema retratado em seu enredo: a raça de cavalos mangalarga marchador. Em 2012 foram celebrados os 200 anos de sua criação, no Sul de Minas Gerais, e a festa se completou com dois presentes: um museu em sua homenagem na cidade mineira de Cruzília e o desfile na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro.

 

A história desse cavalo, de passadas famosas, cuja marcha suave o distingue das demais raças, remonta a 1812, na fazenda Campo Alegre, Sul do estado, onde hoje é a cidade de Cruzília. Nessa época, o fazendeiro Gabriel Francisco Junqueira, o barão de Alfenas, recebeu como presente de Dom João VI um exemplar da raça alter, que era criada pela família real portuguesa. Ao fazer a mistura com cavalos típicos da região onde se encontrava a fazenda, foi gerado um cavalo diferente: dócil, resistente e de galope suave.

 

O antigo casarão na cidade de Cruzília, onde hoje funciona o Museu Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador: antiga sede da fazenda Bela Cruz  pertencia à família do barão de Alfenas
 
 

“O Brasil possui uma raça de cavalos originalmente brasileira, com qualidades que a distingue de qualquer outra, ou seja, pela comodidade, andamento, por se adaptar a qualquer tipo de clima e solo e por poder ser montada por crianças, jovens, adultos e idosos. Uma de nossas metas é que em um futuro breve, quando se falar em cavalos, o primeiro nome a surgir seja o do mangalarga marchador”, conta Magdi Shaat, diretor-presidente da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM) – fundada em 1949 e que possui 20 mil membros e 200 mil cavalos registrados. E é justamente pelas características tão distintas desse animal que a ABCCMM resolveu investir na criação de um museu, para lembrar a evolução da raça, e na parceria com uma escola de samba, para sua divulgação perante milhões de pessoas no mundo.

 

 
 

O visitante que chega à praça da Matriz, na pacata cidade de Cruzília, consegue avistar, do outro lado da rua, o casarão colonial típico mineiro – antiga sede da fazenda Bela Cruz e que pertencia à família do barão de Alfenas – onde está instalado o Museu Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador. Fruto de um trabalho de pesquisa que durou um ano e meio, o museu, que está sob responsabilidade do Instituto Cultural Flávio Gutierrez (ICFG), leva o visitante a percorrer os caminhos histórico e territorial vinculados à raça desde o seu surgimento, em 1812. “Foi uma importante demanda para o instituto, por ser um assunto diferente de tudo que tivemos até agora. Nosso maior desafio se deveu à escassez de bibliografia sobre o assunto, o que nos levou a um grande trabalho de campo”, explica Ângela Gutierrez, presidente do ICFG. Entre vídeos e textos, as salas do antigo casarão – o design da exposição do acervo ficou por conta de Ângela Dourado – têm como destaques os utensílios históricos usados nas fazendas e nas tradicionais caçadas da época, como coleiras, estribos de prata, sela feminina (silhão), ferros de marcar propriedade e medalhas. “A gente trabalhou com a paixão das pessoas daquele lugar pelo mangalarga. A cidade abraçou o museu e esse é nosso melhor presente”, diz Ângela Gutierrez. Ela adianta uma boa notícia: numa próxima fase – sem data definida –, o visitante irá conhecer também, no museu, as 12 principais fazendas da região que foram importantes para o surgimento da raça.

 

Uma das salas do museu: textos, vídeos e objetos usados no trato diário com o cavalo
 
 

Apesar de não associar diretamente a criação do museu à comemoração dos 200 anos do mangalarga marchador, o presidente da ABCCMM, Magdi Shaat, conta que há tempos já queria uma forma de homenagear o cavalo tão importante para a história de Minas e do país: “O museu deve ser um centro de referência cultural, de valorização, guarda, preservação e difusão do universo que envolve o nosso cavalo”, diz Magdi Shaat. A implementação do espaço – verdadeiro memorial à distinta raça – foi possível com a ajuda da Fundação Barão de Alfenas e dos inúmeros doadores. “Diversos criadores e haras se mobilizaram para patrocinar o museu. Realizamos as obras de adaptação e reforma da casa e, em seguida, fizemos uma expedição para levantamento, entre os criadores, de peças para montarmos o acervo”, diz Magdi.

 

O deputado federal Eros Biondini,  Angela Gutierrez, Magdi Shaat e o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento Elmiro Nascimento, na abertura do museu
 
 

As celebrações em prol do cavalo mangalarga não param por aí. Junto à inauguração do museu, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos lançou um selo comemorativo, que traz estampada a imagem do casarão – em 1985 já havia sido feita uma homenagem à raça, com a imagem de um garanhão galopando por um campo. Em 2013 a raça mineira ganhará uma homenagem que vai extrapolar as fronteiras nacionais. A escola de samba Beija-Flor escolheu como tema o cavalo de Cruzília e, de acordo com o carnavalesco Fran-Sérgio, o público verá um desfile grandioso e cheio de surpresas: “No começo a gente achou estranho retratar a história de uma raça de cavalo na avenida, mas, conforme pesquisamos, vimos que foi um grande presente para a escola. O desfile está muito bonito. Vamos contar a história do animal desde o princípio, da pré-história, até chegar à criação do mangalarga”, diz Fran-Sérgio. Como não é permitido o uso de animais na Marquês de Sapucaí, a equipe de arte da escola teve o desafio de esculpir estátuas gigantes de cavalos. O público irá vê-las simulando o movimento famoso do galope.

 

O vaqueiro também é lembrado com um espaço em sua memória: o berrante é tocado sobre o cavalo mangalarga, para conduzir a boiada
 
 

A ABCCMM acompanhou todo o processo de elaboração do enredo. “Demos aos carnavalescos as informações e os dados sobre a raça e sugerimos ideias. Nós conhecemos sobre a raça e eles sabem fazer carnaval. Nossa última visita ao Rio foi em outubro de 2012, por ocasião da escolha do samba-enredo. Foi emocionante assistir, ao fim do concurso, a mais de nove mil pessoas na quadra cantando a música sobre o mangalarga marchador”, conta, emocionado, Magdi Shaat. Em fevereiro o público poderá conferir o resultado desse trabalho, e ver como a raça faz parte do imaginário do povo mineiro e da história da construção de nosso estado, carregando café e minério pelas estradas de terra batida. “Mostrando elegância e bravura, a minha aventura se torna canção!”, diz parte do samba-enredo da Beija-Flor, exaltando o galope elegante e a força para o trabalho do cavalo do Sul de Minas.

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