Uma mineira na Happy List

por Guilherme Torres 14/02/2013 11:03

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Henrique Penha/divulgação
Daniela Barone ajuda a mudar a realidade de meio milhão de pessoas ao ano na Inglaterra (foto: Henrique Penha/divulgação)

Quando começou a fazer trabalhos voluntários ainda no colégio, aos 12 anos, a mineira Daniela Barone não imaginava que ajudar o próximo viraria uma obsessão em sua vida. Aos 42 anos, formada em economia na Unicamp (SP) e com MBA na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, ela abandonou 10 anos de uma carreira internacional bem-sucedida no mercado financeiro para atrair mais cifras ao terceiro setor britânico. “Antes de mudar de carreira, não sabia como integrar a vida profissional e esse meu desejo de quebrar o ciclo da pobreza; então pensava em ganhar dinheiro e doar tudo. Depois percebi que minhas habilidades de gestão, liderança e estratégia eram necessárias no terceiro setor”, conta.

 

Daniela Barone começou dirigindo a ONG Save the Children e há quase sete anos é diretora-presidente da Impetus Trust, empresa que investe (doa dinheiro estrategicamente) desenvolvendo ONGs ligadas à educação, treinamento e emprego. Em um período de três a cinco anos, a empresa remodela a capacidade de gerenciamento das instituições e as habilita para atuarem de forma sustentável e mais abrangente.

 

Morando em Londres há 12 anos, solteira e sem filhos, o estilo de Daniela de gerir os projetos sociais na terra da rainha lhe rende a confiança de empresas e pessoas físicas, e inseriu seu nome na Happy List do jornal britânico The Independent on Sunday, que aponta anualmente as 100 pessoas “que fazem o Reino Unido mais feliz”. Publicada desde 2008, além dela, a lista trouxe nomes como Tim Berners-Lee, o inventor da internet, e a escritora J.K. Rowling, autora da saga de Harry Potter. Primeira brasileira a aparecer no ranking, também já foi finalista em 2012 no First Women Awards, importante prêmio de liderança feminina da Inglaterra, e em 2009 chegou à final do Ogunte Social Enterprise Woman of the Year.

 

Com uma rotina de trabalho pesada, desde que entrou para a Impetus, Daniela já avaliou mais de 2.500 ONGs, mas somente 27 foram aprovadas e atualmente 16 instituições estão em seu portfólio. Seu trabalho vai muito além da meritocracia, mudando a realidade de meio milhão de pessoas por ano. “Para mim, existem três testes para uma ONG receber o dinheiro que captamos. O primeiro é a legitimidade. No Reino Unido há um órgão regulador, o Charity Commission. No Brasil, esse credenciamento já está começando a ser feito pelo governo federal e isso é ótimo. Outros pontos são eficiência e eficácia, avaliadas por meio de um exame mais apurado em cada organização. É aí que organizações como a Impetus são importantes, pois fazemos isso profundamente”, explica.

 

Recentemente, Daniela passou a administrar um fundo do governo britânico no valor de 140 milhões de libras (cerca de R$ 460 milhões), que serão aplicados em inovação educacional. Mesmo trabalhando cinco dias por semana e ainda integrando o conselho de outras ONGs e de uma empresa na Inglaterra, ela ainda traz sua expertise para o Brasil, atuando na Comissão Externa de Avaliação (CEA) do Insper, em São Paulo, e no Conselho da Sitawi – finanças do bem, que oferece crédito ao terceiro setor. Segundo ela, a classe média no Brasil “tem de se posicionar logo em relação à pobreza. Ou finge que não vê, ou tenta ser parte da solução”, diz. Além do social, quando está no país ela se dedica ao lado pessoal. “Vou ao Brasil duas vezes ao ano e aproveito para rever meus familiares. Quase todos estão em Minas e pelo menos uma das vezes visito BH.”

 

Três perguntas para Daniela Barone

 

Que “armas” você usa para fazer da filantropia um negócio mais atrativo para as empresas?
Transparência, prestação de contas e, principalmente, resultados. As ONGs que apoiamos e em que investimos têm avançado e crescido em impacto social e em número de pessoas desfavorecidas que têm a realidade transformada. Mas nosso maior desafio em 2012 foi a economia na Europa. O Reino Unido está passando por dificuldades e cortando o orçamento social. Há menos dinheiro do governo e agentes privados para as ONGs e, ao mesmo tempo, uma demanda muito maior para os serviços que elas oferecem. A retórica está pessimista e isso faz com que tudo tenha cara de “problema”. Mesmo assim, tentamos trazer soluções, ideias novas, formas de “fazer mais com menos”, e assim os doadores nos veem como uma aposta segura.

 

Como foi ser lembrada na Happy List?
Foi uma grande surpresa estar numa lista com tantas pessoas de peso. Quando deixei a estabilidade do mercado financeiro, foi como dar um salto no escuro para “fazer a diferença”, e com a lista vi a admiração das pessoas pela coragem que tive de largar o conforto e mudar. O impacto que posso alcançar é o que me estimula. A lista foi criada pelo The Independent on Sunday como uma resposta a outra publicada no The Times, intitulada The Rich List, que mostra as 100 pessoas mais ricas do Reino Unido.

 

O que acha da filantropia no Brasil?
O desafio de fazer um trabalho social desses no Brasil é muito maior, porque não há tal cultura – na Inglaterra, isso já começa na escola. Além de o histórico de corrupção do nosso país desestimular ou inibir os doadores. Não há também reconhecimento do profissional de ONG como nos outros setores da economia. É como se estivéssemos brincando de fazer o bem. Isso faz com que pessoas não se sintam atraídas para o setor e que haja menos profissionalismo, menor eficiência e qualidade nos serviços e projetos. 

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