Os filhos de Antonio

por João Pombo Barile 15/02/2013 08:46

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Cláudio Cunha; Arquivo pessoal; Luis Xavier de França; Divulgação; Murilo Cardoso; Marcos Hermes; Antonio Cunha; Stephan Solon
César e Fabiano, na praça do Papa, em BH (foto: Cláudio Cunha; Arquivo pessoal; Luis Xavier de França; Divulgação; Murilo Cardoso; Marcos Hermes; Antonio Cunha; Stephan Solon)

odo dia, de manhã cedo, era sempre a mesma história: enquanto dona Elsi preparava o café, seu Antonio, ou Toninho do Ouro, como era conhecido, ligava a vitrola antes de ir para o garimpo, na cidade mineira de Ponte Nova. O disco nem começava a tocar direito e os filhos Fábio, Fabiano e César pulavam da cama e corriam para a sala. Era a hora do dia que os três meninos mais gostavam: ouvir, junto com o pai, uma bela moda de viola. Não faltava nunca o som de Tião Carreiro e Pardinho, Mato Grosso e Matias, João Mineiro e Marciano, Milionário e José Rico, Dino Franco. “Está vendo estas duas cuias em cima da mesa? Nosso pai usou durante muitos anos no garimpo”, conta César Menotti, ao lado do irmão Fabiano, em sua casa no bairro Castelo, região da Pampulha, em BH. “Ele foi o nosso grande incentivador, desde que a gente era criança. Devemos nossa carreira a ele. Nosso pai sempre acreditou que um dia iríamos fazer sucesso”, diz César Menotti.

 

Os irmãos Fabiano, César e Fábio (produtor e empresário da dupla), quando crianças (abaixo) e hoje (segunda foto, na mesma ordem):  eles sempre foram muito unidos e chegaram a formar um trio no início da carreira
 
 
 

Os dois artistas se emocionam ao falar do pai, morto em 2011 de complicações após cirurgia de transplante de rim. Seu Antonio sempre foi a grande referência da família e sua perda acabou provocando um intervalo na carreira dos dois artistas, que embora tenham continuado na estrada fazendo shows por todo o país, em uma média de 150 espetáculos ao ano, resolveram dar um tempo na produção de um novo trabalho. O intervalo só foi quebrado agora, com o lançamento, em fevereiro, do DVD Ao Vivo no Morro da Urca. Gravado em um dos mais belos cartões-postais da cidade maravilhosa, o DVD comemora os dez anos de carreira da dupla e conta com as participações de Preta Gil, Sorriso Maroto, Jorge & Mateus e o novo cantor country Santorine.

 

 
 

A dupla tem muito o que comemorar. A trajetória vitoriosa inclui números impressionantes: o CD Palavras de Amor Ao Vivo, de 2005, por exemplo, vendeu mais de 700 mil cópias – um verdadeiro milagre em tempos de crise da indústria fonográfica. No mesmo ano, a dupla bateu o recorde de público do Rodeio de Jaguariúna, no interior de São Paulo, ao reunir mais de 57 mil pessoas. Em 2007, com o disco .com você, ganharam o prêmio de melhor álbum romântico no disputadíssimo Grammy Latino, realizado em Houston, nos Estados Unidos.

 

 
 

O segredo de tanto sucesso tem nome: família unida. Parentes e amigos dos artistas falam que a grande harmonia entre os filhos do seu Antonio ajuda a explicar a carreira vitoriosa da dupla. “Conheço o Fabiano há sete anos. Ele sempre foi um cara muito tranquilo, ligadíssimo em toda a família”, diz a psicóloga Marilia Gabriela Ferreira. Casada há três anos com o músico, Gabriela acredita que a formação familiar recebida pelos três irmãos explica outra característica da dupla. “Eles sempre foram muito simples”, diz. “A fama nunca subiu à cabeça.” A simplicidade também é apontada por Theonília Menotti, mulher de César, como fundamental para os artistas. “Talvez porque a carreira tenha sido construída aos poucos, com muito trabalho e suor, a fama nunca tenha afetado os dois”, diz Theonília, que conheceu César há 12 anos e com quem está casada há três.

 

“César Menotti & Fabiano são amigos queridos e fazem parte de minha história musical também. Sem dúvida, eles mudaram o cenário do sertanejo em Minas e no Brasil e abriram as portas para novos talentos mineiros poderem ter visibilidade no Brasil inteiro” Paula Fernandes
 
 

“A união deles é mesmo impressionante. Não é muito comum no meio artístico”, considera o advogado Sérgio Carneiro Rosi, que cuida dos contratos da dupla. Não é por acaso que o grande anjo da guarda de César Menotti & Fabiano é o irmão Fábio Lacerda. Competente produtor e empresário, ele transita com intimidade no competitivo mundo do show business. Além de autor de alguns dos grandes sucessos, ele cuida com mãos de ferro, e sempre de maneira muito discreta, de todos os interesses da dupla. “Sempre gostei do palco. Até fiz uma dupla com o Fabiano quando ainda éramos meninos”, recorda Fábio. “Mas, sinceramente, acabei me encontrando mesmo foi produzindo os dois. Gosto do que faço.”

 

“Me envolvo nos projetos sempre por prazer. E cantar ao lado de César Menotti & Fabiano foi isso: prazer e alegria total” Preta Gil, que participou do CD da dupla gravado no Morro da Urca
 
 

Com a carreira estabilizada e uma agenda sempre cheia de shows por todo o Brasil, os três filhos do seu Antonio e dona Elsi se divertem ao se lembrarem dos difíceis primeiros anos. Por conta do vil metal, a vida era instável, com a família viajando, sem parar, por todo o país. “Nosso pai trabalhava como administrador de garimpos e a gente estava o tempo todo mudando: moramos no Paraná, Mato Grosso, Rondônia, num monte de estados”, conta Fabiano, que estudou em mais de 20 escolas. “A gente vivia bem, tinha uma vida confortável e tal. Mas às vezes o pai quebrava. E aí não era fácil, não.”

 

Foi nesse ir e vir incessante que a família do seu Antonio acabou um dia batendo em Minas. Aqui, eles viveram por cinco anos em Ponte Nova. “Foi onde a gente passou a maior parte da nossa infância. Gostava muito de lá”, diz Fabiano. Depois de um breve período em Contagem, a família acabou se instalando de vez em BH. Na capital, os irmãos ficaram sempre juntos: estudaram teatro, trabalharam em rádio, animaram festas infantis e fizeram até telegramas falados. “A gente se virava. Não ficávamos parados, não. Tínhamos de arrumar um troco”, diz Fabiano. Ele conta ainda que os três chegaram a se apresentar juntos. “Era o Trio Parada dos Duros”, ironiza, em referência ao Trio Parada Dura, que fazia grande sucesso na época.

 

 
 

Foi então que Fábio decidiu se mudar para o Rio de Janeiro. Queria tentar a carreira de ator e produtor, e o trio se desfez. Mas César e Fabiano decidiram ficar em Minas e tentar a vida dura de tocar na noite, nos bailes da vida. Surgia a dupla César Menotti & Fabiano. “No início, não foi nada fácil. Até em presídio a gente tocou”, conta César Menotti. Ele se lembra do preconceito sofrido quando tentavam arrumar um bar para se apresentarem na Zona Sul da capital. “Todas as portas estavam fechadas. Não era como hoje. A coisa era braba. A música sertaneja sofria muito preconceito no início dos anos 1990. No começo, o único bar que aceitou a gente foi para tocar às terças-feiras, o pior dia de movimento”, diz César Menotti.

 

“Temos um carinho e um respeito imenso pela dupla” Jorge & Mateus. Os cantores têm participação no novo CD
 
 

Determinados, os dois irmãos jamais pensaram em desistir e gravaram, em 2004, o primeiro disco. Colocaram, então, o pé na estrada. Percorreram todo o interior de Minas e São Paulo. Se o disco não vendeu bem, apenas 15 mil cópias, a semente, no entanto, já estava lançada. “A partir dali, as coisas começaram a acontecer”, conta Fabiano, que até hoje se lembra bem do primeiro lugar onde eles foram reconhecidos quando chegaram. “Foi numa rádio lá em Alpinópolis, perto de Alfenas. O locutor olhou para a gente e disse: ‘Então são vocês os autores de Caso Marcado? Tem duas semanas que esta música não para de tocar aqui na rádio”.

 

“Gravar com essa dupla foi um presente. Somos fã de César Menotti & Fabiano. Eles são ousados quando o assunto é música, e fazem tudo muito benfeito” Sorriso Maroto, que também participa do CD
 
 

Paralelamente aos shows do interior, os dois se apresentavam ainda em algumas casas de BH e proximidades, para um público pequeno, como o bar Observátorio, em Nova Lima.  Aos poucos, o público da capital começou a descobrir o talento dos dois. “Adoramos tocar em lugares pequenos”, conta Fabiano. “Até hoje, de vez em quando fazemos esse tipo de show. Não queremos nunca perder o contato com este público aqui de BH, que sempre nos prestigiou.”

 

 
 

Mas foi mesmo a partir de 2005 que a sorte começou a sorrir definitivamente para a dupla. Depois de fecharem contrato com a Universal Music, lançaram o CD e DVD ao vivo Palavras de Amor. Gravado em Belo Horizonte, no extinto Café Cancun, o som dos dois mineiros de coração – César Menotti é nascido em São Paulo e Fabiano, no Paraná – ganharia todo o país. Ao misturar moda de viola, música sertaneja e pop, eles acabariam emplacando grandes hits como Leilão, Caso Marcado, Mensagem pra Ela e Bão Tamém.

 

Fábiano e a mulher, Gabriela embaixo. Em cima: César e Theonília (em pé), e os pais Elsi e Antonio:   família sempre unida e  orgulhosa da carreira dos músicos. “Sou um homem realizado”, dizia seu Antonio
 
 

Um dia, quando faziam shows pelo interior de Minas, surgiu a ideia de compor uma canção que pudesse expressar o amor por Belo Horizonte. “Lembro-me direitinho do dia que comecei a fazer Lugar Melhor que BH”, diz César Menotti, revelando como compôs, junto com Jader Jones, a música que se transformaria numa espécie de hino não oficial da capital. “Estava num hotel, no interior, tocando violão de bobeira, quando me veio à cabeça o verso: ‘É aqui que eu amo/ é aqui que eu quero ficar”, conta o artista.“Tudo que conseguimos na vida devemos a esta cidade. Nossa família se reergueu aqui. Tínhamos de fazer uma homenagem a BH”, afirma César.

 

“Tivemos o prazer de nos encontrar várias vezes, tanto nos palcos como em programas de TV e sempre foi uma honra. É muito bom ver talentos como César Menotti & Fabiano completando 10 anos de carreira; esperamos que venham muitos outros, porque eles merecem de verdade” Bruno & Marrone
 
 

Mais de uma década depois, com o chamado sertanejo universitário absolutamente consagrado, muitos críticos afirmam ter sido a dupla de BH a criadora do novo gênero. Será? César Menotti não se interessa muito pela discussão. “Fico bastante feliz quando ouço alguém dizer que fomos nós que inventamos, fomos os precursores do sertanejo universitário. Mas não me importo muito com isto, não”, diz César. “Nos Estados Unidos, por exemplo, o que fazemos é chamado de brazilian pop music. São apenas rótulos. O mundo hoje está globalizado, e com a música não é diferente.”

 

 
 

Consagrados nacional e internacionalmente, os músicos – que são evangélicos e não bebem – têm hoje um dos cachês mais altos do país em todos os gêneros musicais – em torno de R$ 150 mil por show – e em agosto  partem para mais uma excursão pela Europa. “O sucesso dos dois até no Norte e Nordeste é enorme”, diz o empresário da dupla, Pedro Mota. Dono de um dos mais importantes escritórios de produção musical do Nordeste, Pedro, que negocia shows por todo o Brasil, diz que não é muito comum o sertanejo fazer sucesso nessas regiões. “O domínio é do axé e do forró. Mas o  sucesso dos dois por lá é mesmo impressionante”, diz o empresário.

 

Disso, ninguém duvida. Quem conheceu seu Antonio conta que ele sempre gostava de repetir uma frase: “Gosto muito da arte. E meus filhos são artistas. Então sou um homem realizado”. Os filhos do seu Antonio conseguiram realizar o sonho do pai e passaram a fazer a alegria de muita gente Brasil afora. E vamos combinar: é “bão” demais!

 

Assista ao making off da matéria:

 

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