“Tragédias servem de aprendizado"

por João Paulo Martins 21/02/2013 09:46

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Leo Araújo
None (foto: Leo Araújo)

O país acordou no dia 27 de janeiro, um domingo, com a triste notícia do incêndio na boate Kiss, na cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul, que vitimou quase três centenas de jovens. O acontecimento acendeu o sinal de alerta para a questão do nível de segurança dos estabelecimentos de diversão em Belo Horizonte. Por aqui, em 2001, um mesmo tipo de incidente deixou sete mortos e 300 feridos na casa de shows Canecão Mineiro, no bairro Prado. Além da falta de estrutura para combate às chamas, o pânico e o despreparo de funcionários são os principais ingredientes para um cenário trágico.

 

Para se ter uma ideia da demanda pela segurança em Minas, em  2012 o Corpo de Bombeiros atendeu mais de 288 mil ocorrências, sendo que desse total cerca de 16 mil eram relacionadas a incêndios e 62 mil voltadas à prevenção, ou seja, pedidos de vistorias e fiscalizações. De acordo com o coronel Sílvio Antônio de Oliveira Melo, comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, desde a criação do número 181 (disque-denúncia) em Minas, em 2007, a corporação já recebeu 17 mil ligações relacionadas a boates, festas e shows, que estariam em funcionamento sem as condições apropriadas.

 

Ações já estão sendo feitas para cercar os possíveis problemas que venham a ocorrer nos locais de diversão da cidade. A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH),  depois do ocorrido em Santa Maria, resolveu criar um plano de conivência zero. O prefeito Marcio Lacerda assinou um decreto, no dia 29 de janeiro, que torna mais rígida a fiscalização de todos os estabelecimentos comerciais com alvará de localização e funcionamento emitidos até essa data. Para isso, todas as informações contidas na prefeitura serão encaminhadas aos Bombeiros. A Encontro, o comandante explicou como reconhecer se um local é seguro – e como se comportar em uma situação de risco.

 

1 | Encontro - Podemos dizer que os estabelecimentos comerciais para diversão, em Belo Horizonte, são seguros?
Sílvio Antônio de Oliveira Melo - Nos últimos anos, principalmente em 2001, quando foi aprovada a Lei 14.130, que dispõe sobre prevenção contra incêndio e pânico em Minas Gerais, o Corpo de Bombeiros intensificou a atuação da corporação com relação à vistoria de espaços e áreas de risco no estado. Com isso, podemos atestar que existe probabilidade baixa de ocorrências nos estabelecimentos que foram analisados e possuem auto de vistoria, e que mantêm as características estruturais que constam do processo de segurança contra incêndio e pânico. Ou seja, aqueles que tiveram projeto de engenharia feito por profissional aprovado pelo Conselho Regional de Engenharia (Crea-MG) e que foi submetido aos Bombeiros podem ser considerados seguros. Claro que existem muitas edificações clandestinas, que fogem ao nosso controle.

 

2 | Como reconhecer se uma casa noturna é segura?
A legislação prevê medidas de segurança contra incêndio, como extintores, hidrantes, alarmes, saídas de emergência e luz de sinalização. Além disso, as boates devem ter uma brigada de incêndio, ou seja, pessoas capazes de atuar em uma ocorrência, auxiliando os clientes a sair em segurança, além de ajudar no primeiro combate às chamas. De uma forma geral, as prefeituras, para emissão de alvará de funcionamento, exigem a aprovação do Corpo de Bombeiros, mas claro que cada município tem suas particularidades e alguns podem ter edificações clandestinas. A pessoa deve, então, verificar a existência do auto de vistoria do Corpo de Bombeiros.

 

3 | Mas o cliente tem acesso ao documento de vistoria dos Bombeiros?
Todos os estabelecimentos classificados como de recepção de público, por imposição da lei, devem fixar de forma visível esse documento de autorização com as características resumidas do local, incluindo capacidade máxima de público. A lotação, aliás, é essencial para que possamos dimensionar as saídas de emergência. São levados em conta a área do imóvel e o número de pessoas por metro quadrado, que deve ser de, no máximo, duas. O cliente deve notar, então, se há mais pessoas do que cabe na casa e se há sinalização e iluminação indicativa para as saídas de emergência. Os extintores de incêndio devem estar acessíveis e devem estar presentes também os brigadistas, que podem ser até funcionários de segurança da casa.

 

4 | O que fazer em caso de princípio de incêndio?
Primeiro, o cliente deve verificar as opções de segurança do local. Identificado o princípio de incêndio, a pessoa deve deixar a edificação, indo para um local seguro, de forma calma, sem correria. A brigada de incêndio tem função essencial nesses casos, pois deve orientar os clientes a sair com segurança, além de ajudar pessoas com dificuldades de locomoção e realizar o primeiro combate às chamas. Todo incêndio, em seu início, caso existam pessoas qualificadas para o combate, tem grande chance de ser eliminado. E o Corpo de Bombeiros deve ser acionado imediatamente.

 

5 | Como agir no caso de o ambiente ficar dominado pela fumaça?
Recomendamos que a pessoa fique abaixada, para poder respirar um ar menos tóxico. É importante também usar um pano como máscara –  pode ser a própria camiseta –, umedecido com água ou qualquer bebida.

 

6 | Na falta de brigadista do próprio estabelecimento, o senhor acha válido que uma pessoa se prontifique a combater as chamas iniciais?
Todo incêndio pode ser extinto em seu início. Se a pessoa tem conhecimento, e muitas vezes temos profissionais da área de segurança ou médica no local, é possível ajudar no combate inicial. Sabendo manejar o extintor, qualquer pessoa pode ajudar. É um ato humanitário ajudar ao próximo. Mas, de forma geral, quem tem de fazer isso é a própria brigada de incêndio do estabelecimento.

 

7 | Como saber se o incêndio está fora de controle?
De maneira geral, cinco minutos após o início a tendência é de que o incêndio cresça de forma exponencial. Ou seja, passa a ter extrema liberação de calor e você não consegue mais combater com um extintor. Por isso, recomendamos acionar o Corpo de Bombeiros imediatamente, já que o tempo gasto até se começar a enfrentar o incêndio é fundamental para vencê-lo. O mais importante é retirar as pessoas nos primeiros três minutos.

 

8 | E nos casos de pânico, como aconteceu na boate em Santa Maria? Como agir?
Toda vez que a pessoa entra em um local, deve verificar as saídas de emergência. Com o cenário de emergência, deve-se sair dali o mais rápido possível. Aconselhamos também evitar ambientes superlotados, em que não existam formas de controle de acesso, como catracas. Às vezes, damos o auto de vistoria contra incêndio para uma casa com capacidade para até 300 pessoas, mas em algum momento os proprietários colocam bem mais gente nela. Assim, está configurada a tragédia. Deve-se levar em conta o limite de duas pessoas por metro quadrado (ou seja, que haja espaço de um braço à sua volta). Acima disso, já existe risco.

 

9 | Qual sua opinião a respeito de estabelecimentos que utilizam sinalizadores em celebração de aniversários e de bandas que usam fogos de artifício?
O acidente ocorrido no Canecão Mineiro, em 2001, foi gerado nessas circunstâncias. Existem artefatos apropriados para ambientes fechados. Só que, às vezes, por questão de economia, as pessoas utilizam aqueles que são destinados a locais abertos. Como para um leigo é mais difícil distinguir entre esses artefatos, recomendamos não utilizar essa forma de efeito visual. O pior cenário é o que utiliza fogos de artifício, pois eles demandam distanciamento e espaço de segurança. Além disso, os fogos podem incendiar revestimentos do teto do lugar, que, às vezes, foram modificados e são feitos de material combustível, como isopor.

 

10 | Assim como a Prefeitura de Belo Horizonte, os Bombeiros estão mais rigorosos nas vistorias após o ocorrido na boate gaúcha?
Vamos rever nossas práticas de vistoria e se há necessidade de alterar a legislação. Infelizmente, tragédias como essa servem de aprendizado. Com ela, aproveitamos para rever nossas normas e treinamentos. É um momento de dor, mas que ajuda a melhorar nosso serviço. A população pode consultar nosso site (www.bombeiros.mg.gov.br), no qual é possível acessar todas as normas e instruções contra incêndio, além de dicas e informações de como agir em casos de emergência.

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