As pegadinhas do bafômetro

Testamos bebidas alcoólicas e outros produtos, como enxaguante bucal, que podem complicar a vida dos motoristas. Remédios e outras "mágicas" para baixar o teor alcoólico não funcionam

por João Paulo Martins 20/03/2013 11:59

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Cláudio Cunha
Pequenas doses de bebidas e mesmo o consumo de outros produtos são captados pelos aparelhos da PM, o que confirma a máxima de que realmente álcool e volante não combinam (foto: Cláudio Cunha)
Apesar de muita gente achar que um copo de cerveja ou uma dose de uísque não é suficiente para afetar a capacidade de dirigir, o álcool, mesmo em pequenas quantidades, é absorvido pelo estômago e, em pouco tempo, cai na circulação sanguínea. De acordo com a Unidade de Pesquisa de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo, na primeira passagem pelo fígado, o álcool começa a ser parcialmente metabolizado – como não é um elemento útil para o organismo, o corpo procura formas de expulsá-lo, destruindo suas moléculas e expelindo uma parte pela urina, suor e hálito. O problema é que o restante desse metabolismo começa a afetar as funções, especialmente no cérebro, reduzindo a capacidade de concentração e reação. Para evitar que pessoas nessas condições estejam à frente da direção de um veículo, a presidente Dilma Rousseff sancionou, em 20 de dezembro de 2012, a Lei 12.760, que tornou mais rígida a chamada Lei Seca, de 2008. Com isso, qualquer quantidade de álcool no corpo se tornou passível de punição.

Nesse caso, a tolerância zero diz respeito apenas ao teor alcoólico medido por exames clínicos (como o de sangue). Já nos casos em que o motorista é parado numa blitz e convidado a soprar o etilômetro (bafômetro), o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) determina que, de 0,05 mg/l a 0,33 mg/l (miligramas por litro) de álcool no ar que vem dos pulmões, o motorista estará infrigindo o Artigo 165 do Código de Trânsito Brasileiro. As punições são a multa de R$ 1.915,30, suspensão do direito de dirigir por 12 meses e retenção do veículo até a chegada de um condutor habilitado e sóbrio. Acima de 0,33 mg/l, é configurado crime de trânsito e, além da multa, o motorista perde a carteira de habilitação e pode ficar preso por seis meses a três anos. Em caso de reincidência em um  prazo menor que 12 meses, a multa sobe para R$ 3.830,60. Apesar de a Constituição não permitir que se criem provas contra si mesmo, caso haja recusa em soprar o bafômetro, a pessoa pode sofrer as consequências do Artigo 165 e, de acordo com a nova Lei Seca, ter seu estado de embriaguez avaliado pelo guarda de trânsito por meio de outros indícios, como sonolência, olhos vermelhos e exaltação, além de testemunhos de terceiros, fotos e vídeos.

A rigidez da lei acabou despertando a curiosidade em muita gente sobre a ingestão de produtos que contêm álcool e o que isso pode acarretar em um teste do bafômetro. Será que o uso de enxaguante bucal, remédios homeopáticos, consumo de bombons de licor podem dar resultado positivo? E os produtos paliativos, que supostamente ajudariam a retirar o álcool do organismo, como o medicamento pidolato de piridoxina (metadoxil) – que se tornou aliado dos “bebuns” de plantão –, ou que enganariam o bafômetro, como lamber carvão, realmente funcionam?

Ckáudio Cunha
(foto: Ckáudio Cunha)

Cláudio Cunha
Profissionais da Encontro e militares do Batalhão de Trânsito durante o teste realizado na sede da revista: a surpresa foi o enxaguante bucal, que chegou a registrar 0,54 mg/l no bafômetro, índice bem acima do valor que caracteriza crime de trânsito (foto: Cláudio Cunha)


Para tentar responder tais perguntas, Encontro ouviu especialistas e convidou representantes do Batalhão de Polícia de Trânsito de Minas Gerais (BPTran) para testar vários desses produtos. Com a presença do sargento Márcio Roberto Pereira, relações públicas do BPTran, e do soldado Roberto Alves Fernandes, que ficou responsável pelo bafômetro, profissionais da revista ingeriram pequenas quantidades de bebidas e produtos que contêm álcool na composição para avaliar os resultados. A equipe de Encontro também testou as mais conhecidas “fórmulas mágicas” para mascarar os efeitos do álcool, como o uso do metadoxil, carvão e vinagre. Os resultados completos podem ser conferidos na infografia que acompanha esta matéria, mas duas coisas ficaram claras: qualquer dose de álcool pode ser captada pelo bafômetro, e milagres não existem – produtos que prometem reduzir efeitos são mito.

“Se comer um bombom de licor e fizer o teste do etilômetro em seguida, pode dar positivo. Mas, depois de um tempo, em média 30 minutos, o resultado será negativo, pois o álcool foi metabolizado e excretado através do suor e urina”, diz o médico Joaquim Ferreira de Melo Neto, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead). Para ele, não existem quantidades seguras para se consumir produtos alcoólicos. “Isso varia muito em cada tipo de pessoa e tem a ver com peso, alimentação e tempo de metabolismo, por exemplo. Um gole de cerveja não é tão perigoso para o organismo, mas dificilmente alguém vai beber apenas essa quantidade”, diz.

Com relação aos métodos para disfarçar o estado de embriaguez ou não ter resultado positivo no bafômetro, o presidente da Abead é enfático: “O pidolato de piridoxina ajuda no metabolismo hepático, mas não é o suficiente para fazer com que a pessoa engane o equipamento policial. Ele reduz o tempo com que o álcool permanece nos tecidos e no sangue, evitando lesões, mas não adianta tomar quatro copos de cerveja e em seguida ingerir o metadoxil. Já o carvão pode até mascarar um pouco o efeito do álcool na boca, mas não o suficiente para mudar o estado da pessoa. O vinagre é ainda pior. Se você tomar um pouco todo dia , pode ter até problemas hepáticos”.

Nos testes realizados por Encontro, as bebidas, mesmo em pequenas doses, foram suficientes para serem registradas pelo bafômetro, chegando a índices que caracterizam infração de trânsito. A grande surpresa foi o enxaguante bucal, que registrou 0,54 mg/l, bem acima do limite que caracteriza o crime de trânsito. Neste caso, segundo o sargento Márcio Pereira, essa leitura é devida ao álcool que fica na boca: “Basta avisar ao policial que usou o enxaguante bucal e ele dará o prazo necessário para que se faça novo teste”.

O que se percebeu, ao final dos testes, é que não vale tentar enganar o bafômetro. “Aos poucos, as pessoas aprendem a não misturar bebida e direção. É importante que se eduque, não apenas com a punição, e sim apresentando os males causados pelo álcool. Devemos nos lembrar de que até bem pouco tempo não se tinha o hábito de usar cinto de segurança”, lembra o médico Joaquim Ferreira de Melo Neto. Dados da campanha Sou pela Vida, do governo estadual, apontam redução de 20,4% no número de acidentes em Belo Horizonte. Em 2011 eram, em média, 603,25 acidentes por fim de semana. Em janeiro de 2012, a média caiu para 480.

“Desde 2008, intensificamos as operações e percebemos uma mudança de comportamento da população. Com as alterações na lei, feitas no ano passado, isso ficou mais visível”, diz o tenente-coronel Roberto Lemos, comandante do BPTran. Na capital, são feitas, de segunda a quinta, duas operações policiais durante o dia, e no fim de semana (sexta, sábado e domingo), além dessas, são feitas mais quatro blitze durante a madrugada – no período de maior movimento em bares, a PM chega a montar seis operações por dia.

Segundo o comandante Lemos, houve um aumento de mais de 30% no número de chamadas de táxis nos fins de semana. “As pessoas estão deixando o carro em casa. Quem sai para beber está usando mais táxi e até elegendo o chamado motorista da rodada, que não bebe”. Afinal, qualquer quantidade de álcool no corpo pode representar prejuízo no bolso. “Quem depende do veículo para estudar e trabalhar está percebendo que pode ficar sem ele se não seguir a lei”, completa o tenente-coronel. Fica, então, a célebre frase: se for dirigir, não beba.


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