A revanche dos livros

Apesar do avanço dos meios digitais, BH ainda é uma das cidades onde mais se leem livros no Brasil. Encontro mostra quais são as principais bibliotecas abertas ao público na capital e os acervos que remontam ao século XV

por Rafael Campos - Revista do Correio 20/03/2013 18:07

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Paulo Márcio
Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, na Praça da Liberdade: o espaço abriga 250 mil títulos, incluindo raridades (foto: Paulo Márcio)
A estudante Tatiana Chaves de Almeida, de 13 anos, é uma devoradora de livros. Ela consome dois por semana. Os romances são os preferidos, mas ela está sempre aberta a novas experiências literárias. “Me envolvo com os personagens. Chego a gritar e a chorar quando estou lendo”, afirma a garota, ao lado da mãe, a assistente judiciária Lusimar Batista de Almeida, de 52 anos, sua grande incentivadora. A novidade – boa – é que Tatiana e sua mãe não estão sozinhas: segundo uma recente pesquisa do Ibope divulgada em fevereiro (o instituto ouviu 20.736 pessoas entre julho de 2011 e agosto de 2012), Belo Horizonte e Porto Alegre são as capitais brasileiras que apresentam os maiores índices de leitura do país. Em BH, 41% dos entrevistados revelaram ter lido pelo menos um livro nos últimos 30 dias, sendo que a média nacional ficou em 33%. A partir disso, Encontro visitou algumas importantes bibliotecas de Belo Horizonte para saber o que de melhor elas têm a oferecer aos amantes da leitura.

Paulo Márcio
Thaís Queiroz Brescia, diretora da biblioteca Luiz de Bessa, e a obra mais antiga do acervo: Concordia Discordantium Canonum, de Graciano, sobre direito canônico, de 1493 (foto: Paulo Márcio)


A dupla que iniciou esta reportagem foi encontrada entre as estantes mais conhecidas do estado: as da Biblioteca Estadual Luiz de Bessa, na praça da Liberdade, região Centro-Sul. Funcionários e público do espaço ainda estão se recuperando do susto ocorrido em 23 de dezembro, quando a parte administrativa no terceiro andar do prédio arquitetado por Oscar Niemeyer foi destruída por um incêndio. Felizmente, o acervo não foi atingido. A fachada, marcada por uma grande mancha negra, está ganhando pintura nova e a previsão é de que o terceiro andar volte à ativa ainda este ano. O laudo sobre o incêndio ainda não foi divulgado.

A preocupação com o incidente é justificável. A biblioteca abriga 250 mil títulos, divididos entre o edifício-sede na praça da Liberdade e o prédio anexo Professor Francisco Iglesias, na rua da Bahia. “Há uma diversidade muito grande de leitores, atraídos por interesses literários distintos. Temos todos os assuntos da área de conhecimento”, afirma Thaís Queiroz Brescia, diretora da biblioteca. Entre as raridades, está Concordia Discordantium Canonum, do monge católico Graciano. O livro, sobre direito canônico e datado de 1493, é a obra mais antiga de todo o acervo. Para manuseá-lo, só com luvas.

João Carlos Martins
Maria Célia Pessoa Ayres, coordenadora da biblioteca do Museu Histórico Abílio Barreto: "É uma biblioteca especializada na história da cidade" (foto: João Carlos Martins)


Os números referentes à biblioteca estadual mostram sua importância. Em 2012, segundo a direção, foram realizados 107 mil empréstimos. Diariamente, cerca de 1,5 mil pessoas circulam pelo local. A hemeroteca, lugar dos periódicos e jornais, conta com publicações que datam desde 1825. Parte desse acervo foi digitalizado e, no mês passado, a partir de um convênio, a biblioteca ganhou um servidor para ajudar a armazenar as imagens, que já alcançaram a marca de 1,2 milhão. Além de obras raras e especiais, a biblioteca oferece projetos que incentivam a leitura, como é o caso do Carro Biblioteca, que leva em um caminhão-baú cerca de 3,5 mil livros de assuntos variados a bairros da região metropolitana de BH.
 
Outro destaque da Luiz de Bessa é o setor de braille, que conta com 7 mil livros traduzidos para os deficientes visuais. O setor é o único do estado em uma biblioteca pública que conta com tamanho acervo. “Venho na parte de braille semanalmente. Leio há 21 anos, sendo que há três busco ler dois títulos simultaneamente”, afirma o escritor e músico Taquinho de Minas, de 45 anos, que já levou emprestadas várias obras clássicas, entre elas, algumas de Monteiro Lobato.

João Carlos Martins
Elton Vitoriano Ribeiro, diretor da biblioteca Padre Vaz: referência na América Latina quando o assunto é filosofia e teologia (foto: João Carlos Martins)


Os livros do célebre escritor podem ser encontrados também na Biblioteca Pública Infantojuvenil de BH, a maior da rede municipal, que conta com outros 18 espaços espalhados pela capital. Localizada no bairro Santo Antônio, o espaço abriga 50 mil títulos, sendo metade referente à literatura e a outra reservada aos gibis. “Além de contar com uma biblioteca bem estruturada e com bom acervo, dispomos de profissionais que auxiliam as pessoas a se apropriarem da leitura”, diz Fabíola Ribeiro Farias, chefe do departamento de coordenação de bibliotecas e promoção da leitura da Fundação Municipal de Cultura (FMC). A biblioteca também está aberta a doações de obras de literatura, que passam por uma espécie de filtro na comissão de seleção do acervo. Na avaliação de Fabíola, a principal função de uma biblioteca é “estimular a pergunta e oferecer aos leitores coisas que eles nem sabem que existem”.

E o que poucos sabem é que BH conta com uma biblioteca referência na América Latina quando o assunto é teologia e filosofia. A Biblioteca Padre Vaz, que fica na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, no bairro Planalto, disponibiliza mais de 100 mil livros e 140 mil fascículos. O diretor do espaço, o doutor em filosofia Elton Vitoriano Ribeiro, revela o desejo de ampliar o espaço para abrigar todo o acervo que está em crescimento. “Nosso principal desafio é manter um acervo tão importante como este atualizado, pois existe a dificuldade de conseguir financiamentos para aquisição de novas obras”, diz o diretor. O estudante Gabriel Andrade Coelho, de 20 anos, está no sexto período do curso de filosofia. Ele diz que a biblioteca é referência para pessoas até de outras instituições universitárias. “Aqui, encontro obras estrangeiras que são complicadas de achar em outros lugares. Além de tudo, são obras caras em outros países, imagina aqui no Brasil”, diz.

Paulo Márcio
Lusimar e Tatiana Chaves de Almeida: "Me envolvo com os personagens. Chego a gritar e a chorar quando estou lendo", diz Tatiana (foto: Paulo Márcio)


Desde 2007, a faculdade desenvolve o projeto Preservação e Divulgação das Obras Raras e Especiais. Com o apoio de parceiros, foi elaborado um sistema especial para armazenamento das obras raras. Elas ficam em uma sala climatizada, embrulhadas em papel alcalino, depois de passar por congelamento e higienização, página a página, para evitar o aparecimento de bactérias que possam danificar o livro. Na coleção especial está guardada uma obra do ano de 1550, que remonta os diálogos do filósofo Platão.

Mas se a ideia é conhecer de maneira profunda a história de Belo Horizonte, a biblioteca do Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB) é um dos lugares mais interessantes da cidade. São quase cinco mil itens entre livros, periódicos, folhetos, catálogos, trabalhos acadêmicos, materiais audiovisuais e uma hemeroteca com 12 mil recortes de jornais sobre a capital. Foi o próprio jornalista e historiador Abílio Barreto ajudou a formar a coleção. Lá, podem ser encontrados o relatório da Comissão D’Estudo das Localidades Indicadas para a Nova Capital datado de 1893, e a boneca da obra Bello Horizonte: memória histórica e descriptiva (1701-1893), de Abílio Barreto, de 1928. “É uma biblioteca especializada na história da cidade”, afirma a coordenadora Maria Célia Pessoa Ayres.

Os belo-horizontinos podem também aproveitar o rico acervo das principais universidades do estado. A PUC Minas mantém 10 bibliotecas que são abertas à comunidade externa. “Nossa preocupação é sobre o que você precisa, e não de onde você é”, afirma Cássio José de Paula, coordenador do sistema integrado de bibliotecas da PUC Minas e responsável pela biblioteca Padre Alberto Antoniazzi, que fica no campus Coração Eucarístico. Entre as atrações da biblioteca central da universidade está o Livro Vermelho, do psicanalista  suíço Carl Jung (1875-1961), e o Cancioneiro Manuscrito, de 1810. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) oferece 25 bibliotecas nas diversas áreas do conhecimento. São cerca de R$ 1 milhão em itens como livros, monografias, dissertações e obras raras e preciosas do século XVI ao XXI, que mostram a história de Minas e do país.

Para conhecer e curtir

Confira quais são as principais bibliotecas abertas ao público em BH. Todos os espaços recebem doações de obras

Biblioteca Estadual Luiz de Bessa
Praça da Liberdade, 21 (sede); rua da Bahia, 1.889, Funcionários (Anexo Prof. Francisco Iglésias) 
Funcionamento: segunda à sexta-feira, das 8h às 20h; sábado, das 8h às 12h 
Contato: (31) 3269-1166
Acervo: infantojuvenil, acadêmico, artes e braille
Acesso: consulta e empréstimos

Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH
Rua Carangola, 288, térreo, Santo Antônio
Funcionamento: terça a sexta-feira, das 9h às 17h30; sábado, das 9h30 às 13h
Contato: (31) 3277-8658 
Obs.: os endereços de outras 18 bibliotecas municipais podem ser consultados em www.pbh.gov.br
Acervo: infantojuvenil 
Acesso: consulta e empréstimos
 
Biblioteca Padre Vaz
Av. Dr. Cristiano Guimarães, 2.127, Planalto (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia)
Funcionamento: segunda a sexta-feira, das 7h45 às 17h45
Contato: (31) 3115-7030/7054
Acervo: filosofia e teologia 
Acesso: consulta

Biblioteca Museu Histórico Abílio Barreto
Av. Prudente de Morais, 202, Cidade Jardim
Funcionamento: terça a sexta-feira, das 9h às 11h e das 13h às 17h
Contato: (31) 3277-8573
Acervo: história de Belo Horizonte
Acesso: consulta

Biblioteca Padre Alberto Antoniazzi
Av. Dom José Gaspar, 500, Coração Eucarístico, prédio 26 (PUC Minas)
Funcionamento: segunda a sexta-feira, das 7h30 às 22h30; sábado, das 7h30 às 16h
Contato: (31) 3319-4242
Acervo: acadêmicos, literários, artes
Acesso: consulta

Universidade Federal de Minas (UFMG)
Av. Antônio Carlos, 6.627, Pampulha (Biblioteca Central)
Funcionamento: segunda a sexta-feira, das 7h30 às 22h
Contato: (31) 3409-4648
Acervo: acadêmicos, literários, artes
Acesso: consulta

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