"O PT traiu a esperança do país"

Desiludido com o fisiologismo na classe política brasileira, o mineiro Fernando Gabeira volta para o jornalismo e garante: não será candidato a nada em 2014

por João Pombo Barile 01/04/2013 18:20

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Paulo Márcio
(foto: Paulo Márcio)

Jornalista, revolucionário, ecologista, deputado, ativista. Difícil classificar Fernando Gabeira em um único rótulo. Uma das personalidades públicas mais interessantes da história recente brasileira, este mineiro de Juiz de Fora é mesmo inclassificável.

Nascido em 1941, Gabeira começou no jornalismo ainda aos 17 anos. Nos anos 1960, depois de participar do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, acabaria preso e expulso do Brasil. De volta ao país nove anos mais tarde, com a anistia, surpreendeu mais uma vez ao escrever um dos mais importantes documentos sobre o período militar: O Que é Isso, Companheiro? – traduzido para vários idiomas, o livro se transformaria em filme dirigido por Bruno Barreto em 1997.

 

Agora, mais de 30 anos depois do famoso relato, Gabeira está de volta com um novo livro: Onde Está Tudo Aquilo Agora? Minha Vida na Política (Companhia das Letras, 200 páginas, R$ 29,50). Se no primeiro livro de memórias Gabeira escreveu sobre a sua militância na luta armada e reavaliou posições, em Onde Está Tudo Aquilo Agora? ele escreve sobre sua trajetória política de cinco décadas. E que começa com ele ainda menino em Minas, com o suicídio do presidente Getúlio Vargas em 1954, até chegar ao segundo mandato do presidente Lula, quando o jornalista, cansado de tanto fisiologismo, resolveu abandonar o Congresso Nacional.

 

No mês passado, durante uma rápida passagem por Belo Horizonte, Gabeira conversou com Encontro. Nesta entrevista, garante que não será candidato a nada em 2014, mostra sua total desilusão com o que se transformou o PT e critica a nova geração de políticos que está no poder. “Embora sejam hábeis e capazes de chegar ao poder, são completamente sem ideias, vazios”, diz.

 

ENCONTRO – Lendo seu novo livro, ficamos com uma sensação de que o sr. se cansou da maneira como a política é feita hoje no Brasil, de que desistiu. Vamos direto ao ponto: você está feliz no Partido Verde (PV)?
FERNANDO GABEIRA –
Não, não estou feliz. Tanto que tenho percorrido o Brasil, sempre que posso, fazendo algumas palestras. Estas palestras visam, em primeiro lugar, mostrar ao PV que o mundo mudou. Mudou muito desde que fizemos o programa partidário até hoje. E que nós precisamos renovar nossas ideias. Esta é uma preocupação minha: como o partido se prepara para, ou pelo menos toma consciência destes novos problemas e tenta respondê-los. Minha outra preocupação é de formação. É de tentar contribuir para a formação dos que entram para o partido agora. Que eles compreendam que a política não é o espaço onde se entra para enriquecer. O máximo que se deve esperar da política, dedicando-se a ela profissionalmente, é um salário digno. Como qualquer funcionário público. E não um espaço para ficar rico. Hoje, grande parte das pessoas já chega à política cheia de segundas intenções, o que é justificado um pouco pelo que elas veem e leem. A sensação que geralmente se tem é de que os escândalos na política produzem sempre indignação. Mas ninguém leva em conta que eles produzem também muito fascínio para as pessoas que gostariam de enriquecer muito rapidamente. Minha intenção é esta: ajudar o PV a ter um programa e a formar gente nova que possa substituir os que estão aí, dando continuidade ao projeto.

O sr. trocaria de partido?
Não. O PV foi a última experiência que eu fiz de partido. Já quando fizemos o PV tínhamos muitas dúvidas quanto à validade deste instrumento. Nós achávamos que o partido já não era o caminho. Mas, ao mesmo tempo, era necessário para se chegar ao poder. Ninguém chega ao poder sem um partido. Mas eu acho que, de lá para cá, muitas coisas negativas se confirmaram para mim em relação ao partido. O fato de os partidos brasileiros se parecerem na sua miséria não é porque os seus dirigentes têm uma doença crônica comum. É uma situação histórica. Você cria um partido, ele cresce e então você percebe que ele atrai o mesmo tipo de pessoa.
 
A ex-senadora Marina Silva lançou um partido novo. O sr. acha que ele vai dar certo?
Eu acho que será difícil ela conseguir juntar o número de assinaturas suficientes até outubro para conseguir registrar o partido. Além disso, acho que o partido se organizou e se apresentou sem que ainda tivesse um programa. O que eu acho complicado: lançar um partido sem um programa. Agora, se ela tiver uma boa performance eleitoral em 2014, poderá, sim, ser uma forte candidata em 2018. Mas, nesse caminho, ela terá de organizar o partido efetivamente. E então descobrirá que quando se coloca a possibilidade do poder, é muito difícil controlar um partido e mantê-lo dentro das normas que você quer.
 
O sr. será candidato à presidência da República em 2014?

Acho que não. O PV tem me pedido para ser candidato, porque assim o partido teria uma candidatura própria. Mas eu já fiz esta experiência em 1989. Ela é uma experiência muito desgastante: você não tem dinheiro, não tem recurso e a campanha fica muito mambembe. Isto esgota muito. De manhã você está em Porto Alegre e de noite em Recife. E sem dinheiro, fica tudo mais difícil. Eu acho que é uma experiência que eu não repetiria porque não compensa.

Que análise o sr. faz dos dois governos Lula e deste primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff?
Eu acho inegável que eles mudaram a cara do Brasil em alguns pontos. Mas, em outros, eles não só mantiveram a cara do Brasil como enfearam um pouco mais. Acho que houve um avanço do ponto de vista de distribuição de renda, um avanço de prosperidade no conjunto da população, um reconhecimento internacional maior do Brasil. Nosso país é hoje muito mais respeitado do que era no passado. Mas acho também que eles cometeram uma série de erros. Tanto o governo Lula quanto, agora, o de Dilma. Dou exemplos. No campo da política, a promessa do PT era uma promessa de renovação ética. E o que aconteceu? O PT, ao perceber que não poderia governar sem os acordos que fez, embarcou no fisiologismo de cabeça. E hoje o PT é um partido praticamente cúmplice e solidário com muitos bandidos na política brasileira. O PT contribuiu para a eleição de Renan Calheiros para o Senado, com Henrique Eduardo Alves na Câmara de Deputados. O próprio Lula beijou a mão do Jader Barbalho num comício. Disse que o Newton Cardoso era o Pelé da política. Então, esses elementos desvalorizaram um pouco, no campo da política, o que foi conquistado no campo econômico.

Então o sr. considera que, na economia, o governo tem se saído bem?
Sim. Mas, no campo político, houve essa decadência. Do ponto de vista econômico, o PT respondeu à crise econômica internacional de uma forma muito inteligente a curto prazo: eles aumentaram, estimularam o consumo. Mas esse modelo, no governo Dilma, começa a dar sinais de exaustão. Agora, vivemos um momento em que o aumento do consumo não é mais eficiente. Temos de pensar em novas saídas. Como tecnologia, renovação, educação. Coisas que não foram preparadas pelo PT. Eles atuam muito em função das eleições, do processo eleitoral. Uma vez no poder, eles pensam no que podem fazer para continuar lá.

O ex-governador do Rio, Leonel Brizola, gostava de repetir que o PT tinha um projeto de poder, e não um projeto de país. É isso?
É. No fundo acabou acontecendo isso. Um projeto de poder. E o que restou foi a luta pela continuidade no poder. Então a Dilma assume o governo tomando posições aparentemente pouco distintas do Lula. No início, teve de demitir seis ministros porque foi muito pressionada pela imprensa. Mas ela ainda tenta o mesmo caminho: do desenvolvimento a partir do estímulo ao consumo. Ela diminuiu o imposto sobre os carros e ampliou enormemente o financiamento. Mas não é uma saída sustentável. Em primeiro lugar, porque aumenta-se a produção de gases de efeito estufa. Em segundo lugar, porque ficam reduzidas enormemente a mobilidade urbana e a produtividade. Esse caminho tem de ser repensado. O governo conseguiu enfrentar bem a primeira fase da crise mundial. Mas, agora, a mesma resposta não pode ser dada para esta nova crise.
 
Em seu livro, percebe-se que o senhor está um pouco cansado, meio sem esperança, quase que jogando a toalha em relação à possibilidade de se fazer política institucional no Brasil. O próprio título do livro, Onde Está Tudo Aquilo Agora?, dá um pouco o tom melancólico de seu momento pessoal. A democracia representativa brasileira vai mesmo ruim das pernas? É possível mudar?
Eu acho que sim. Agora, a possibilidade dessa mudança se dá muito fora desse mundo da política institucional. O cansaço que você observa no livro é o cansaço com a política institucional. Um processo institucional em que não se consegue mais mudanças. Você pode até conseguir ser deputado – que vai custar ao Estado brasileiro R$ 135 mil por mês. Mas você não vai fazer nada. Isto dá um certo cansaço, já que não se tem um horizonte, no momento, de resolver a questão pela via institucional. Mas eu tenho esperança é na sociedade. Ela vai aos poucos tomando conhecimento desse processo, vai aos poucos criticando aqui e ali e exigindo uma reavaliação da política. Por exemplo: o Renan Calheiros foi eleito presidente do Senado e fizeram então um abaixo-assinado com um 1,4 milhão de assinaturas contra ele. O fato de uma quantidade enorme de gente assinar o manifesto significa que há alguma esperança. Na verdade, esse cansaço existe por causa dessa sensação: eles lá e nós aqui. Os políticos pensam assim: a imprensa, pressão popular, isto tudo não nos interessa. E o povo pensa assim: político é tudo bandido, deixa essa história para lá. Mas o “eles lá e o nós aqui” é feito com dinheiro nosso. E os recursos poderiam ser mais bem empregados. Este meu cansaço vem daí: estava no meio de 513 deputados e 80 senadores que só sugam. E não dão nada em troca para o país.
 
O sr. acabou voltando para a sua profissão, que é o jornalismo. Quais são seus planos?
Ser jornalista e viver por conta própria. Sem o amparo do Estado. E isso é outra coisa importante. Você sabe que está produzindo a sua sobrevivência. Assim se pode fazer política muito mais à vontade. Posso fazer política sem nenhuma culpa.
 
No livro, o sr. também fala de como o longo processo de decadência da política brasileira foi estimulado pelo PT. Como chegamos a essa situação, na qual a lógica política de parlamentares conservadores, como Severino Cavalcanti (ex-presidente da Câmara dos Deputados, com quem Gabeira teve embates no Congresso e é citado no livro), é igual a lógica política do PT?

Eu costumo usar uma peça de teatro de Friedrich Durrenmatt [dramaturgo suíço], chamada A Visita da Velha Senhora, para explicar o quadro político brasileiro atual. A peça conta a história de uma mulher que foi rejeitada pela sua cidade natal porque era prostituta. Ela então é expulsa da cidade. Mais tarde, já velha, volta à cidade e resolve então punir seus moradores comprando todo mundo. A tese dela é a seguinte: o mundo fez de mim uma prostituta. Eu então agora vou fazer do mundo um bordel. Foi isto que aconteceu com o PT. Para chegar ao poder, os petistas tiveram de fazer uma série de transações que os tiraram da linha ética. E foi assim que essas duas pontas – Severino Cavalcante e PT – acabaram se tocando. O PT não era como os outros partidos. O PT prometia que o país iria melhorar eticamente e traiu a esperança de quem acreditou. O que é uma pena.

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