A nova safra dos Guedes

Há mais de quatro gerações esta família faz música brasileira de qualidade, numa tradição iniciada no século passado e que, ao que tudo indica, ainda tem fôlego para continuar por muito tempo

por João Pombo Barile 03/04/2013 14:07

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João Carlos Martins
Júlia (neta de Beto Guedes) com o pai, Gabriel: "Ela tem uma musicalidade impressionante e faz improvisações que me deixam até assustado" (foto: João Carlos Martins)

Montes Claros, meados da década de 1950. Todo fim de tarde, a maior diversão do pequeno Beto era a mesma: voltar correndo para casa só para ouvir o pai tocar clarinete. Quietinho, no canto da sala, o garoto ficava horas admirando os belos chorinhos do seu Godofredo. “Eu devia ter uns 6 ou 7 anos”, recorda Beto Guedes,  mais de 50 anos depois, sentado no sofá do seu apartamento no bairro da Serra. “Quando a gente se mudou para BH, a música foi ficando em segundo plano na vida dele. Mas, mesmo assim, o pai continuou tocando. Sempre sozinho ao fim do dia”, conta. Um dos mais importantes compositores da canção brasileira nas últimas décadas, autor de clássicos como Feira Moderna e Amor de Índio, Beto, que cresceu em casa de músico, herdou do pai o talento musical – essa rara capacidade para fazer lindas melodias e que não depende apenas de dominar tecnicamente um instrumento musical.

Mas será que esse talento seria transmitido pelo DNA e existiriam famílias com mais facilidade para a música? Beto, de 62 anos, é cético em relação ao assunto. Para ele, musicalidade não se transmite pelo sangue. “Não acredito muito nessa história. Não tem mistério, não”, afirma, meio desconfiado. “Nasci em uma família de músicos. Desde pequeno estava com algum instrumento na mão. De tanto tocar, a gente acaba aprendendo”, afirma, de forma humilde. Mas, mesmo com todo o ceticismo de Beto, que atualmente prepara um songbook com 60 canções de sua autoria, uma coisa não dá para negar: os Guedes são para lá de musicais. Talentosíssimos.

João Carlos Martins
Filho de Beto, Ian toca na banda do pai e também se dedica à fabricação de instrumentos: tradição e vocação familiar mantidas (foto: João Carlos Martins)

Talento que começou ainda com o avô de Beto, seu Cazuza, sanfoneiro em Riacho de Santana, no interior da Bahia; passou para as veias de seu Godofredo, que compôs choros maravilhosos, e que, mais recentemente, já parece dar seus primeiros sinais em Júlia, neta de Beto. Com apenas 11 anos de idade, a menina já toca um piano afiadíssimo. “Desde pequena, eu a colocava no meu colo e ensinava uns acordes. Ela então ia sozinha”, conta, todo orgulhoso, o pai de Júlia, o músico Gabriel Guedes, de 34 anos, filho mais velho de Beto Guedes. “Ela tem uma musicalidade impressionante. Às vezes, faz umas improvisações que me deixam até assustado”, afirma, todo coruja.

O próprio Gabriel é outro bom exemplo do talento musical dos Guedes. De maneira discreta, mas constante, ele vem se transformando em importante referência musical para quem ainda se interessa pela música de qualidade no Brasil. Seu bar, chamado Godofredo, que fica no mesmo quarteirão da mítica esquina do Clube da Esquina, em Santa Tereza, é um bom lugar para quem gosta de ouvir um chorinho ou curtir uma música dos Beatles. Por lá, não é raro trombar com Toninho Horta ou Lô Borges dando uma canja no palco do pequeno espaço. 

João Carlos Martins
Beto Guedes e a guitarra fabricada por ele, que leva seu sobrenome: "Nasci em uma família de músicos. Desde pequeno estava com algum instrumento na mão" (foto: João Carlos Martins)

Para Gabriel, multi-instrumentista e que toca de bateria a bandolim, ter nascido em uma família de músicos foi mesmo determinante na escolha de sua carreira. Mas trouxe também alguns problemas. “Claro que gosto de pensar na tradição musical de nossa família. Tanto é que até gravei um disco com choros do meu avô”, conta. “Mas, às vezes, também é um pouco pesado: as pessoas cobram muito por você ser filho de um cara famoso, de um músico que compôs tantas canções maravilhosas. E, muitas vezes, acabam não reconhecendo o seu talento individual”, resume. 

Também para seu irmão mais novo, Ian Guedes, de 31 anos, ter escolhido a profissão de músico pode ser explicada por sua história familiar. Mais novo que Gabriel, ele conta que só começou a se interessar por música e pensar em se transformar em músico profissional quando ia passar férias em Montes Claros, a terra natal de sua família. “É engraçado pensar nisso hoje, mas foi lá que aprendi a tocar de verdade”, conta, ao lado do pai. 

Além das lindas canções, os Guedes têm ainda outra importante profissão relacionada à música: são dedicados luthiers [fabricantes de instrumentos musicais]. Uma paixão que começou ainda com o velho Godofredo (ver box), passou por Beto e chegou até os irmãos Gabriel e Ian. “Gosto de trabalhos manuais. Tanto que fiquei muitos anos montando meus aviões”, conta Beto, ao lado de uma bela guitarra azul, feita por ele e Ian, no ano passado. Juntos, os dois passam horas talhando novos instrumentos. Paixão, aliás, também compartilhada por Gabriel, que, sempre que não está ensaiando ou trabalhando no Godofredo, aproveita para preservar a tradição da família.

Arquivo de família/Reprodução
Godofredo Guedes e seu clarinete: além de músico, ele também foi artista plástico (foto: Arquivo de família/Reprodução)

 

A magia de Godofredo

 

Ignorado pelas novas gerações, Godofredo Guedes é uma das mais interessantes figuras musicais de Minas. Nascido em Riacho de Santana, na Bahia, em 1908, ele trabalhou, durante várias décadas, agitando os bailes de Montes Claros. Tendo chegado à cidade mineira em 1935, ali trabalharia até se mudar com toda a família para Belo Horizonte, em meados dos anos 1960. Além de luthier, para ganhar a vida e conseguir criar seus oito filhos, Godofredo se virava: trabalhou como farmacêutico, pintor de placas e quadros. Sua obra, um cancioneiro praticamente desconhecido fora de Minas, inclui choros, sambas, serestas, modinhas, valsas, foxtrotes e marchinhas.

“Homenageei o pai em vários discos que gravei nos anos 1970 e 1980”, lembra Beto Guedes, que sempre deixava a última faixa do LP para gravar uma canção de Godofredo. Dessa maneira, o compositor gravaria Belo Horizonte, em Página do Relâmpago Elétrico (1977); Cantar, em Amor de Índio (1978); Casinha de Palha, em Sol de Primavera (1980); Noite Sem Luar, de Contos da Lua Vaga (1981); e Um Sonho, em Viagem das Mãos (1984).

Mais recentemente, em 2005, Gabriel gravou o CD Choros de Godofredo. No belo trabalho, algumas pérolas de Gegê – como era carinhosamente conhecido por causa da assinatura (GG) de suas pinturas – seriam recuperadas. Instrumentista, Godofredo tocava violão e clarinete e compôs mais de cem músicas.

As artes plásticas eram outro campo de exercício do talento de Godofredo. Foi desenhista e pintor, autor de obras de grande expressividade plástica, muitas delas de grande dimensão, com temática popular e gosto em retratar paisagens mineiras. Suas obras fazem parte de acervos particulares e públicos em várias regiões de Minas. Como suas músicas, as criações do artista plástico Godofredo Guedes parecem falar de um país com forte marca provinciana, no sentido nobre da palavra. É pintura figurativa, com poderoso apelo emocional. O compositor e artista plástico morreu em 1983.  

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