A estrela que sobe

Braço direito do ministro Fernando Pimentel e escolhido pela presidente Dilma para ser o relator do Orçamento da União, o deputado federal Miguel Corrêa Júnior (PT-MG) se consolida como o mais provável candidato do PT à Prefeitura de Belo Horizonte

por João Pombo Barile 12/04/2013 12:40

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Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)

“O único trabalho de verdade que o Congresso Nacional brasileiro tem é votar o orçamento.” A frase irônica, que o ex-ministro Delfim Netto adorava repetir quando morava em Brasília, dá a medida da importância do cargo de relator-geral da Comissão Mista de Orçamento (CMO), que o deputado federal Miguel Corrêa Júnior (PT/MG) acaba de assumir por indicação direta da presidente Dilma Rousseff. Basta dizer que, no cargo, o parlamentar estará à frente do orçamento federal de 2014, uma bolada de aproximadamente R$ 3 trilhões. Ou seja, será uma espécie de tesoureiro do cofre do governo, em um ano em que serão eleitos o presidente da República, governadores, senadores e deputados. Quando muitos já davam como certa a eleição do deputado mineiro Weliton Prado (PT) para o posto, o nome de Miguel surgiu como um raio e único capaz de agradar a gregos e baianos na gigante aliança política do governo da presidente Dilma.

Braço direito do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel (ex-prefeito de BH), e com apenas 34 anos de idade, Corrêa tem um currículo de fazer inveja a políticos tradicionais. Em 2004, foi eleito, com 9.055 votos, o vereador mais jovem da capital mineira. Tinha apenas 26 anos. Antes de concluir seu mandato de vereador, foi eleito deputado federal, com mais de 80 mil votos. Em 2010, foi reeleito com ainda mais votos: 113 mil.

Encontro conversou com Miguel Corrêa. Na entrevista, ele fala sobre sua expectativa de comandar a mais importante comissão do Congresso Nacional em ano eleitoral, sobre sua amizade com o ministro Pimentel (a quem chama simplemente de Fernando) e garante que está pronto para ser candidato a prefeito da capital em 2016: “Vou trabalhar muito para ser o candidato mais legítimo”.

ENCONTRO - Como surgiu sua indicação para o cargo de relator, uma vez que muita gente já dava como certa a indicação do deputado Weliton Prado?
MIGUEL CORRÊA JÚNIOR -
Informalmente, eram mais de 100 candidatos. Agora, que se assumiam como candidatos, eram mais ou menos uns 20. Gente de São Paulo, da Bahia, do Rio Grande do Sul...  E meu nome surgiu naturalmente, um consenso dentro do partido. Estou muito animado para esta nova missão que me foi confiada. Nos últimos anos, trabalhei na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio na Câmara dos Deputados e em alguns projetos da presidenta Dilma, na época em que ela era ministra (de Minas e Energia). Sinto que estou pronto para assumir o cargo.

Qual deve ser o valor do orçamento de 2014? Já foi definido?
Ainda não dá para saber direito, já que os trabalhos ainda não começaram. Mas certamente ultrapassará R$ 3 trilhões.

O que sinaliza a escolha de um deputado mineiro para uma comissão tão importante?
Acho que aí você está tocando em um ponto muito importante. Isso mostra, com muita clareza, a preocupação da presidente com o nosso estado. Ela está atenta a Minas. E mostra, também, que ela quer buscar soluções para seu estado de origem. Eu recebo essa missão entendendo assim esse gesto.

Estar atento a Minas significa exatamente o quê? A candidatura de Fernando Pimentel para o governo estadual no ano que vem? E a sua para a prefeitura em 2016?
Não. Acho que discutir isso agora seria cedo demais. O que quero dizer é que a presidente está atenta aos problemas de Minas. Aos verdadeiros problemas. Dou um exemplo concreto: uma solução para a rodovia 381 (BR-381, que liga a capital ao Espírito Santo, conhecida como Rodovia da Morte).

Alguns políticos se queixam de que Minas Gerais anda meio esquecida pelo governo federal, e que prova disso seria o fato de poucos mineiros ocuparem cargos no primeiro escalão. O sr. concorda?
Eu acho que o fato de ela estar atenta a Minas e aos problemas do estado não significa que tenha de nomear mais pessoas. E, além disso, não se esqueça de que recentemente o Toninho [Antônio Andrade, mineiro de Patos de Minas e que ocupa o segundo mandato como deputado federal pelo PMDB] foi nomeado ministro da Agricultura. Ela já tinha claro que essas mudanças viriam. E mais: dois dos mais estratégicos ministérios do governo – do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, e da Agricultura – são comandados por mineiros. O peso desses dois ministérios é enorme.

Quais seriam as principais preocupações da presidente com Minas? O que é prioridade para ela?
Ela quer, em primeiro lugar, resolver o problema da BR-381. As obras devem começar no mês que vem. E quer dotação orçamentária para o Anel Rodoviário de Belo Horizonte, para tentar viabilizar esse problema, que tem uma solução um pouco mais lenta.

Vamos falar da política local. Nunca ficou muito claro por que sua candidatura a vice, na chapa do prefeito Marcio Lacerda (PSB) na campanha municipal do ano passado, acabou não indo adiante. O que aconteceu realmente?
O que aconteceu foi uma mudança de rumo do atual prefeito. Ele decidiu dar uma guinada no projeto político dele. Na minha avaliação, ele pagou e ainda está pagando um preço muito alto por isso. Ele era uma pessoa muito bem posicionada no cenário político. Tinha uma relação muito forte com a presidenta Dilma e com o ex-presidente Lula. Tinha uma boa relação com todo o PT de Minas – além, é claro, de uma relação ótima com o senador  Aécio Neves (PSDB) e com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Com a postura dele na eleição, construiu um novo caminho. Mas acabou isolado. Ele hoje não é uma liderança tão próxima do governo federal. E não tem o nosso apoio na bancada municipal. E mais: ele também não está em lua de mel com o PSDB. Pelo contrário. Resultado: ele hoje não tem apoio nem de um lado nem de outro.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)


O sr. foi pego de surpresa?
Em política, você tem de esperar de tudo. É um jogo em que o melhor a fazer é não deixar nada surpreendê-lo. Deve-se considerar todos os cenários. Mas, para mim, como eu avaliava que esta mudança não era boa para ele, foi uma surpresa, sim.

Embora o PT não admita, a guerra entre o grupo do ministro Fernando Pimentel e do ex-ministro Patrus Ananias sempre existiu dentro do partido. Sua indicação para a relatoria indica que a presidente Dilma está fazendo uma opção pelo grupo de Pimentel?
Neste momento, acho que não. Esta disputa entre Patrus e Pimentel realmente existiu e, em alguns momentos, tornou até pública. Mas, de 2012 para cá, acho que o partido compreendeu que isso é muito prejudicial para todos. E tomou outro rumo. Não é por acaso que eu participei da coordenação da campanha do Patrus no ano passado. E o próprio Pimentel participou da campanha. E não se esqueça: eu abri mão da minha candidatura. Eu poderia ter pleiteado ser candidato, mas abri mão para o Patrus ser o candidato. Eu entendi que ele tinha uma envergadura política maior e uma capacidade de acumular mais votos para tentar vencer Marcio Lacerda. Acho que hoje estamos mais unidos.

O sr. trabalhou com Patrus sem nunca ter rompido com Pimentel. Isso demonstra sua fidelidade ao ministro? 
Eu sou, e ninguém tem nenhuma dúvida disto, um aliado do Fernando. Um aliado que conversa, dialoga, discorda. Mas um aliado. Minha posição política é muito clara. Assim como sou um aliado incondicional da presidenta Dilma e do presidente Lula. Mas voltando ao Pimentel: ele é uma das pessoas que mais me ajudaram na minha formação. Ele foi um prefeito extremamente qualificado e que conhece muito da economia brasileira. 

Sua indicação para a relatoria é também uma vitória de Pimentel?
Claro. Sem dúvida.

A candidatura de Pimentel para o governo de Minas, então, já está na rua?
A candidatura de Pimentel é algo natural, tanto no PT quanto na sociedade. Sei que ainda é muito cedo para comemorarmos números, mas todos nós temos visto que Pimentel está muito bem colocado nas pesquisas de intenção de voto. Tão bem colocado quanto a presidente Dilma.

O PT tem feito pesquisas internas para mensurar a intenção de voto em Pimentel?
Sim. E ele tem hoje quase 40% das intenções de voto. Ele é o líder disparado, tem quase o triplo da intenção de voto do segundo colocado.

Ser conhecido em BH não garante que alguém seja um bom candidato ao governo do estado. Pimentel não corre este risco?
Sinceramente, não. Ele hoje é uma liderança não só do estado, mas também do país. Ele foi muito bem votado para o Senado. Teve um milhão de votos a mais que o Hélio Costa (do PMDB, que também concorreu ao cargo). Ele, no Triângulo Mineiro, teve mais votos que o Aécio e o Itamar Franco.

E o sr.? Pensa em ser prefeito? É candidato em 2016?
É óbvio que tenho vontade. Não existe nada mais especial do que você ser prefeito de sua cidade. Acho até que é o espaço mais especial da política. Porque é a hora em que você tem o contato mais próximo com a população e cuida das decisões e soluções dos problemas do município em que você mora. Muitos falam que o cargo mais importante é ser governador, senador... Na minha avaliação, é a prefeitura. É o espaço mais nobre. E é claro que tenho vontade de ser candidato. Em 2008, eu era um dos nomes cotados e, em 2012, eu venci internamente no partido e fui escolhido para ser o nome de composição com o prefeito Lacerda. O que eu quero, hoje, é obter a legitimidade para minha candidatura dentro do partido. Vou trabalhar forte até 2016 para ser o candidato mais legítimo.

Como relator da comissão mais importante do governo, o sr. deverá ouvir muitas propostas de negociatas, algumas nem sempre lícitas. Como pretende lidar com essas pressões?
A política é a verdadeira expressão da pressão social: popular, empresarial. Primeiro, temos de ser práticos: o orçamento não tem possibilidade de resolver todas as demandas do país. Todo governador, todo prefeito no Brasil, quer resolver sua obra. Eu acho que, ao longo desses anos, acabei me credenciando e me preparando para enfrentar essas pressões. E estou pronto para enfrentar todas elas. Vou viajar por todo o país e conversar com os prefeitos das principais capitais e todos os governadores.

O sr. já tem uma data definida para se encontrar com o governador Antonio Anastasia? Sua relação com ele é boa?
Ainda não tenho uma data. Mas tenho uma ótima relação com ele, sim. Sei da sua enorme seriedade. Do compromisso dele com o estado. Sem dúvida nenhuma, será um dos primeiros governadores com quem irei me encontrar. Mas, como disse, ainda não tenho data definida para me encontrar com nenhum governador. Até agosto, teremos mais um debate teórico, para, então, começarmos a traçar os rumos da comissão.

Recentemente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o PSDB precisa de um “banho de povo”.  Ele se referia a certa incapacidade do partido de falar para as grandes massas. Como o PT vê a atual situação do PSDB?
Olha, vou lhe dizer uma coisa: eu aprendi a respeitar a opinião das pessoas. E este é o grave defeito do PSDB. Quando uma pesquisa anuncia que a presidente tem 80% de aprovação por parte da opinião popular, é porque ela faz um ótimo ou um bom governo. E, quando eles dizem que o nosso governo está caminhando para o desastre, estão dialogando com 13% da população. Essa incapacidade do PSDB para fazer oposição se explica em função disso. Acho bom você ter falado no presidente Fernando Henrique Cardoso. Primeiro, porque durante o governo FHC, nunca existiu um grande volume de investimento no nosso estado. A presidente Dilma, em dois anos, já liberou mais recursos para Minas do que ele em oito anos. Não podemos nos esquecer de que, durante todo o período de FHC, Belo Horizonte não teve um centavo do governo federal. Nenhum. Tudo o que foi feito em Belo Horizonte, durante aquele período, foi com recursos só da prefeitura.

O sr. disse, em entrevistas anteriores, que o primeiro governo do atual prefeito foi beneficiado com a aliança PT-PSDB, que fazia com que os governos federal, estadual e municipal trabalhassem juntos, e que hoje isso não ocorre. Na prática, o que significa exatamente isso?
Duas coisas. Primeiro, que o prefeito Marcio Lacerda perdeu gestores públicos muito preparados com a ruptura dessa aliança. E isto é uma questão que você pode perguntar para qualquer pessoa, independentemente do espectro político. Lacerda está compondo, neste segundo mandato, um governo de pessoas que ainda não foram testadas na vida pública. Vamos ver o que vai dar. Pode até ser que funcione,  que dê certo. Mas essas pessoas ainda estão aprendendo. Basta você andar por Belo Horizonte e ver: estamos com as obras todas paradas. E isso desde o final da eleição do ano passado. Quando era um governo de aliados, isso não acontecia. No mínimo, o prefeito perdeu essa convergência. E isso é um prejuízo muito grande para a cidade e os moradores.

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