Das ruas para as telas

BH se prepara para o retorno de antigos cinemas de rua, que sucumbiram frente à concorrência das salas de shoppings. O Cine Brasil será reaberto ainda este ano; Santa Tereza e Pathé estão em obras

por João Paulo Martins 12/04/2013 14:07

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Divulgação/FMC
Perspectiva da fachada (com torre comercial) e sala (página ao lado) do novo Cine Pathé, na Savassi: fechado desde 1999, ele será restaurado e entregue até 2015 (foto: Divulgação/FMC)
A sala escurecendo ao som de uma envolvente melodia, e uma pesada cortina se abrindo para que a tela branca no centro do palco recebesse o feixe de luz que dominava o olhar do espectador durante duas horas.” A descrição do início de uma sessão de cinema está nas páginas do livro Cine Pathé, da socióloga Celina Albano, que faz parte da Coleção BH. A Cidade de Cada Um, da Editora Conceito. A experiência de sair para assistir a um filme era como ir a um grande evento. Uma pena que isso conste apenas da lembrança daqueles que puderam aproveitar os chamados cinemas de rua, já que hoje sentar-se perante a grande tela para acompanhar um lançamento de Hollywood se tornou algo restrito às salas  dos shoppings. A boa notícia é que a Fundação Municipal de Cultura (FMC) vai trazer de volta duas salas tradicionais de bairros – os cines Santa Tereza e Pathé, em Belo Horizonte, no âmbito do projeto Cinemas de Rua. Além disso, a abertura do V&M Brasil Centro de Cultura, em setembro, também ajudará para que os belo-horizontinos tenham opções de programação cultural de qualidade.

Belo Horizonte recebeu seu primeiro cinema de rua em 1909.  Ele foi instalado na avenida Santos Dumont, no centro. Com o tempo, outros foram inaugurados, como o Cine Brasil, o Metrópole (um dos mais charmosos da cidade), e o Acaiaca, instalado dentro de um arranha-céu. A onda se alastrou também para os bairros, como no Prado, com o Cine São José, e no Santa Tereza, com o cinema de mesmo nome. Só que as salas de bairro eram apenas uma espécie de copiadoras dos lançamentos exibidos pelos cinemas do centro da cidade. A mudança nessa lógica se deu apenas em 1948, quando no bairro Funcionários foi inaugurado o Cine Pathé, na avenida Cristóvão Colombo. Na abertura da sala, que se tornou um ícone da Savassi, o filme escolhido foi Devoção, dirigido por Curtis Bernhardt, um melodrama com Olivia Havilland e Ida Lupino. “Começava uma história de amor de gerações de belo-horizontinos por um cinema de bairro”, diz trecho do livro de Celina Albano.

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(foto: Divulgação/FMC)


A socióloga, que já foi secretária de Estado da Cultura, diz que ficou emocionada ao receber a notícia do retorno do Cine Pathé: “Meu sonho vai se realizar. Será um presente para muita gente. Afinal, ele é o grande atrativo da Savassi”. Fechado desde 1999, o espaço será revitalizado numa parceria da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) com a construtora PHV, que adquiriu o terreno e deve erguer um edifício comercial de oito andares, no lugar onde hoje funciona um estacionamento. As obras devem começar ainda este ano e vão durar 18 meses – a restauração do cinema ficará pronta apenas em 2015. “A construtora vai entregar toda a estrutura do Pathé recuperada, incluindo novo piso e reforma acústica. Nós seremos responsáveis por todo o mobiliário, incluindo o telão e os equipamentos de som”, explica Leônidas José de Oliveira, presidente da FMC.

Ainda pelo projeto Cinemas de Rua, a população de BH receberá, no início de 2014, o Cine Santa Tereza totalmente restaurado. Depois de ser usado até para festas, o espaço deve se tornar uma espécie de cineclube, com exibição de filmes nacionais e internacionais do circuito alternativo.

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Perspectiva do Centro de Cultura da V&M, no antigo cine Brasil: espaço, com com dois teatros, deve ser entregue em setembro (foto: Divulgação/FMC)


Outra novidade apresentada pela FMC é a criação do Museu da Imagem e do Som (MIS), em parceria com o governo de Minas. Ainda em fase de estudos, deverá ser instalado na chamada Casa Rosa, que fica na rua da Bahia 2.429, em frente ao Minas Tênis Clube. A ideia é que seja o substituto do Centro de Referência Audiovisual (Crav), que está sendo reformado e fica na avenida Álvares Cabral, no Lourdes. Com investimento previsto de R$ 1,5 milhão, o museu terá uma sala permanente para exibição de filmes do Crav e espaço para exposição permanente do acervo, que inclui equipamentos, cartazes e bilhetes. “Nós vamos mostrar um pouco da história do cinema em Belo Horizonte”, conta Leônidas Oliveira. Segundo ele, o MIS será integrado ao Circuito Cultural da Praça da Liberdade.

O retorno dos cinemas de rua, mesmo que em número infinitamente menor se comparado ao que havia na cidade, ainda conta com a entrega do V&M Brasil Centro de Cultura, que deverá ser feita em setembro. O extinto Cine Teatro Brasil, inaugurado em 1932, chegou a ser a maior sala de cinema do país, com 1.657 lugares, e manteve sua popularidade até o fechamento, em 1999. Adquirido e restaurado pela siderúrgica Vallourec & Mannesmann, o novo espaço terá dois teatros, um com capacidade para 1.100 pessoas e outro, no subterrâneo do prédio, para 200 pessoas. Os dois poderão receber sessões de cinema. “O V&M Brasil vai ter o charme das décadas de 1930 e 1940, mas com o conforto da modernidade, incluindo sistema de som e de isolamento acústicos de última geração”, explica Alberto Camisassa, superintendente da Fundação Sidertube, vinculada à siderúrgica.



Apesar da expectativa criada pelo anúncio das salas de cinema, Luiz Nazário, professor do Departamento de Fotografia, Teatro e Cinema da UFMG, acredita que elas não deveriam exibir apenas os chamados filmes de arte: “O que falta no Brasil são espaços que se preocupem em mostrar a história da produção cinematográfica mundial. Em Paris, por exemplo, é possível assistir a produções de todas as décadas”. Outro ponto-chave é a formação do público. Segundo o professor, não adianta querer que as pessoas troquem os filmes comerciais exibidos nos shoppings pelos clássicos, sem que se apresente a história por trás deles. “O Cineclube Humberto Mauro já cumpre essa tarefa, mas se tornou um espaço apenas para um grupo fechado de cinéfilos”, diz Luiz Nazário.

A abertura das tradicionais salas de cinema até ajudam a apagar os fantasmas do passado, que levaram ao fechamento de quase a totalidade dos cinemas de rua – apenas o Belas Artes, na rua Gonçalves Dias, sobreviveu. “Não fomos avisados do fim do Cine Pathé. Minha grande tristeza era quando passava em frente e via que estava em ruínas”, lembra a socióloga Celina Albano. Como ela mostra em seu livro, o último filme exibido no cinema da Savassi foi O Inimigo do Estado, com Will Smith e Gene Hackman, que trata de jogo de poder e corrupção.

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