"UFMG deve servir ao país e não só a Minas"

Reitor da universidade fala da decisão de substituir o vestibular pelo Enem, defende o caráter nacional da prova e garante que a qualidade da seleção vai permanecer inalterada

por Marina Dias 12/04/2013 14:43

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Duduas Profeta
(foto: Duduas Profeta)
Depois de 43 anos, ele acabou. O temido vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), até então responsável por selecionar os alunos da instituição, deixou de existir tal como era conhecido. Já neste ano, a seleção será feita apenas pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e a divisão de vagas ficará a cargo do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Com isso, o processo seletivo da universidade que mais registra patentes no país deixará de ter a famosa segunda etapa, aquela composta de provas abertas das disciplinas específicas para cada curso. A decisão, anunciada no dia 19 de março, foi considerada “histórica e de mudança social significativa” pelo reitor Clélio Campolina, que foi professor na Faculdade de Ciências Econômicas da universidade por quase 40 anos. Defensor declarado do novo método seletivo, o reitor garante que a qualidade da escolha dos alunos se manterá.

1 | ENCONTRO - Por que a escolha de adotar apenas o Enem como método de seleção?
CLÉLIO CAMPOLINA -
Estamos convencidos de que não há país desenvolvido em que não haja um exame nacional do ensino médio. O Enem é um exame muito mais justo, é uniforme e nacional. A prova é de boa qualidade. A metodologia da teoria de resposta ao item é composta de forma tal que impede respostas feitas por “chute”. No caso da UFMG, tínhamos um bom vestibular, mas de caráter muito regional. O Sisu é um sistema muito inteligente: o candidato faz a prova, obtém a nota e avalia suas possibilidades, podendo se inscrever em até duas universidades ou dois cursos.

2 | Com o novo método, a concorrência aumentará?
Há uma expectativa de que aumente, porque o exame não exige mais a presença do candidato na cidade. Em todas as universidades que entraram no Sisu houve aumento de candidatos.  Mas temos de pensar na dimensão nacional, não podemos ser provincianos ou regionalistas. Isto é uma universidade pública federal e, portanto, tem de servir ao país. A concorrência pode aumentar, mas, para a universidade, isso é um critério correto, e o exame de seleção é exatamente para escolher os mais qualificados.

3 | Em relação à nota, haverá mais peso para determinadas disciplinas, dependendo do curso para o qual o aluno faz a prova?
Nossa decisão, nesse momento, é tomar o resultado do Enem como está, sem peso diferenciado. Nosso entendimento é de que o processo seletivo mede o grau de escolaridade das pessoas. Se o candidato tem um bom nível, está apto a fazer o curso que escolheu. Não há risco de o aluno entrar despreparado.

4 | Existe uma crítica de que a seleção pelo Enem nivelará os alunos por baixo. Como a universidade vê essa questão?
Isso é um equívoco. A prova nivelará por cima, porque a concorrência é muito mais forte. A análise que fizemos de outras universidades que adotam o Sisu é de que a nota de corte subiu.

5 | Qual sua opinião em relação às correções de redações do Enem, em que até receitas de alimentos foram usadas pelos alunos?
O Enem é um sucesso, porque aplicar uma prova para 5 milhões de pessoas em um só dia, em um país desse tamanho, é um esforço monumental. Segundo, não há críticas às provas de múltipla escolha, e os problemas de logística do passado não ocorreram este ano. Há apenas uma controvérsia em cima das redações. Se há alguma falha, é da natureza humana e precisa ser corrigida. Mas o que tem ocorrido é que se tem pinçado a excepcionalidade, transformando-a em regra. Em nosso conselho universitário, uma professora argumentou, por exemplo, que queria dar os livros de Machado de Assis para a imprensa, pois a mídia daria bomba nele. Isso porque, segundo os especialistas, é comum ao escritor fazer divagações para aliviar a leitura. Não estou defendendo o miojo (caso do candidato que escreveu uma receita de macarrão no meio da redação), mas estou dizendo que uma exceção não pode ser tomada como regra.

6 | De que forma o Enem terá mais influência na avaliação do ensino básico do que o vestibular?
O vestibular é muito centralizado, é para uma minoria que vem aqui fazer a prova, para colégios particulares que davam orientações muito específicas. Agora, o aluno de escola pública tem a oportunidade do Enem e das cotas. Com isso, vamos ter a chance de comparar o desempenho das escolas públicas, vai ser um instrumento decisivo para o governo. O Enem vai pressionar a melhoria dos ensinos fundamental e médio.

7 | Como o senhor vê a crítica de que as cotas são uma medida paliativa tomada no lugar de se investir no ensino básico?
A cota é paliativa sim, tem de ser temporária. Ela é resultado da desigualdade que nós temos. Quando tivermos escolas fundamentais e médias de qualidade, não precisaremos mais de cota. A cota deve ser eliminada quando se reduzir a desigualdade social.

8 | Qual a sua avaliação do ensino hoje no país? 
A grande deficiência do ensino brasileiro está na educação fundamental e média. O país tem de enfrentar isso de maneira objetiva e pesada. E são vários os problemas. É preciso dar escola em tempo integral para as crianças. E a escola deve preparar as pessoas para a cidadania. A educação não é apenas para ganhar dinheiro, é para se ter, inclusive, capacidade de ter postura como cidadão. Outro grande problema é que não há reconhecimento financeiro ou social do papel do professor.

9 | Apesar de proibidos na universidade, sabe-se que trotes acontecem. De que forma a instituição tenta coibi-los?
Estamos sempre batalhando contra o trote, mas existem traços de heranças culturais, não é uma coisa só brasileira ou da UFMG. Esses fenômenos ocorrem, e o que procuramos é convencer as pessoas a não fazerem dessa forma e, no limite, puni-las. 

10 | O projeto Campus 2000, que propunha criar uma cidade universitária, já está consolidado? Há outros projetos em curso?
Estamos com um grande programa de obras. Fizemos dois centros de atividades didáticas e estamos em obras do terceiro; estamos fazendo ampliação de várias unidades e criando novos centros. Há projetos de reforma de unidades velhas, como o campus Saúde, e de transferência da Escola de Direito para o campus Pampulha — já está autorizado pelo Ministério da Educação o gasto de R$ 80 milhões para fazermos o prédio novo. Dependemos apenas do projeto para fazer a licitação.

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